5. Assessment of Disposal Alternatives
5.3 Reuse Potential
A participação pública (PP) é um elemento-chave e essencial para o sucesso da AAE (VON SEHT, 1999; ASCHEMANN, 2004), sendo frequentemente mencionada entre os fatores que contribuem diretamente para o impacto (influência) que a ferramenta pode exercer sobre a tomada de decisão (RUNHAAR; DRIESSEN, 2007; RUNHAAR, 2009; VAN DOREN et al., 2013).
Conforme as definições correntes29, a PP consiste da participação de partes interessadas e/ou afetadas na/pela questão abordada pela AAE (stakeholders) ou mesmo do público em geral, o que vale dizer o envolvimento de pessoas externas30 à comissão de elaboração da AAE. A PP é ou pode ser o “ponto de toque” entre ciência, sociedade e política.
A importância assumida pela PP está ligada à mudança do paradigma dominante no campo da avaliação ambiental. O modelo racionalista e tecnocrático, baseado precipuamente no conhecimento científico e na lógica linear, positivista e determinística, deu lugar a – ou pelo menos passou a dividir espaço com – um modelo interativo, que valoriza elementos como diálogo, participação, negociação, flexibilidade, cooperação entre atores, interesses, valores, governança e aprendizagem social (GAUTHIER et al., 2011). Tal mudança é definida por Cashmore (2004) e Elling (2009) como a passagem de uma “ciência
29 Definições apresentadas no Anexo 1. 30
Segundo Mieg (2006), trabalhos transdisciplinares como a AAE podem abrigar dois tipos de participantes não cientistas: os especialistas “no sistema”, que apresentam profundo conhecimento do sistema humano-ambiental em que vivem, com uma experiência baseada no conhecimento local; e os especialistas “em tomada de decisão”, que agem como agentes políticos, e podem ficar responsáveis, por exemplo, pela mediação de conflitos que ocorrerem ao longo do trabalho.
aplicada” para uma “ciência cívica”. Nesse contexto, Elling (2011) destaca que o significado da PP na avaliação de ações estratégicas está em oportunizar que os valores e as prioridades dos cidadãos e dos diferentes grupos de interesse possam ser incorporados ao plano ou programa, não ficando a cargo unicamente de planejadores e tomadores de decisão.
A PP não deve estar limitada ao papel de suporte à decisão política ou ao cumprimento de uma mera exigência legal. Igualmente, não pode ser entendida como uma simples reunião de pessoas a serem comunicadas sobre os resultados da avaliação ambiental. Portanto, é preciso diferenciar informação e participação (DEVUYST et al., 2000). O Quadro 7 aborda os possíveis benefícios e dificuldades que cercam a PP em processos de AAE.
A PP engloba certa variedade de formas e de modalidades, que diferem entre si no que se refere ao grau ou intensidade de atuação do participante (KØRNØV; THISSEN, 2000; GAUTHIER et al., 2011). Como é possível observar no Quadro 8, de acordo com o papel atribuído (ação-chave) aos participantes leigos, tem-se diferentes tipos de PP, que pode ser voltada à simples informação, à consulta, a envolvimento e colaboração, até chegar ao nível de empoderamento da população envolvida. Assim, com base no grau de poder decisório concedido à PP, Bartlett e Oldgard (2003) classificam os processos de AAE em “expertocráticos” (essencialmente técnicos e top-down), consultivos, participativos ou deliberativos. Neste último nível, a concepção adotada é bottom-up e a AAE é dirigida pelas partes interessadas, a quem cabe a decisão sobre a proposição política em questão.
Ainda que o processo de participação possa chegar, como visto, ao nível de codecisão, em AAE a PP é frequentemente limitada a momentos de informação ou de consulta (RAUSCHMAYER; RISSE, 2005; GAUTHIER et al., 2011), em geral apenas ao final do processo (BARTLETT; OLDGARD, 2003), ocasião em que o público pode ao máximo comentar as propostas. Assim, a possibilidade de oferecer novas visões e identificar prioridades é mais exceção do que regra (SHEATE; PARTIDÁRIO, 2010; PARTIDÁRIO; SHEATE, 2013). Para Von Seth (1999), a consulta é a forma que melhor representa o equilíbrio entre as vantagens e desvantagens dos vários níveis de PP.
Quadro 7. Possíveis benefícios e dificuldades da participação pública em processos de Avaliação Ambiental Estratégica.
POSSÍVEIS BENEFÍCIOS POSSÍVEIS DIFICULDADES
Assegurar que os vários “grupos de interesse” participem do processo decisório, conferindo-lhe maior credibilidade, legitimidade, transparência, justiça e equidade
Informar ao público sobre a iniciativa sob avaliação, garantindo o acesso a dados relevantes para a tomada de decisão
Coletar informações junto ao público sobre o ambiente humano e biofísico, bem como sobre as relações mantidas com este ambiente, permitindo a incorporação do conhecimento tradicional ou local Educar e conscientizar os cidadãos sobre questões que lhes dizem respeito, aumentando o sentimento de responsabilidade para com o ambiente
Oportunizar conhecer a opinião do público sobre a intervenção planejada, estimulando o debate, o diálogo e a negociação, o que resultará em melhor análise das propostas e maior qualidade da decisão (maior efetividade da AAE)
Propiciar uma avaliação adequada de todos os interesses envolvidos na questão, determinando PPP que atendam as necessidades do público, seja em formato (metodologia), propósito e resultado final Permitir a identificação precoce de pontos de conflito entre as partes, possibilitando sua mitigação ou extinção ainda antes da fase de decisão
Proporcionar decisões com maior aceitação, apoio e comprometimento das partes interessadas Conferir um caráter democrático, transparente e imparcial ao processo
Levar à aprendizagem mútua entre os atores, através do intercâmbio e integração de diferentes tipos de conhecimento, visões, perspectivas, experiências e opiniões
Maior custo de realização da avaliação
Necessidade de maior tempo para conclusão da AAE, com possível atraso ao desenvolvimento de PPP Risco de potencializar conflitos
entre as partes, ao invés de amenizá-los
Possibilidade de quebra de eventual confidencialidade de informações
Pequena tradição de alguns países (regiões) em métodos participativos de gestão e decisão Dificuldade de identificar e
propiciar a participação de todos os grupos de interesse
Dificuldade de definir pessoas que possam representar legitimamente a diversidade de visões e os interesses em jogo Desigualdades entre os
envolvidos na AAE, tanto em capacidade ou possibilidade de participação e de comunicação (linguagem, fluência), quanto em força política (poder)
Criação de falsas expectativas em relação à possibilidade de
influência e ao resultado da própria deliberação, com a consequente frustração dos envolvidos e descrédito da metodologia
Fontes: Adaptado de von Seht (1999), Bartlett e Oldgard (2003), Fitzpatrick e Sinclair (2003), Heiland (2005), Rauschmayer e Risse (2005), André et al. (2006), Gauthier et al. (2011) e Walker et al. (2014). Elaboração do autor.
Quadro 8. Tipos ou níveis de participação pública, de acordo com a ação-chave (tipo de atuação) dos interessados, e respectivos modelos de Avaliação Ambiental Estratégica e de transdisciplinaridade.
Ação- chave / tipo de atuação
Tipo / nível / estágio de participação Modelo de AAE Caráter da transdisci- plinaridade
Codecidir Codecisão Empoderamento Deliberativa
Participativa Coproduzir Participação Colaboração Participativa
Envolvimento Consultar
Consulta Consulta Consulta Consultiva Consultiva Ouvir
Estudar
Informar Comunicação Informação Informação
“Expertocrática” ---- Não participação ---- ---- ---- (Hage et al., 2010) (Fischer, 2007) (Spengler, 2009) (Okello et al., 2009) (Bartlett e Oldgard, 2003) (Mobjörk, 2010)
Célula em branco: ausência da informação correspondente; célula com tracejado: parâmetro inconsistente
Fontes: no corpo do Quadro. Elaboração do autor.
Bonifazi et al. (2011), analisando 25 processos de AAE realizados na Itália, constataram que em algumas iniciativas o público foi o coprodutor de informação, e o conhecimento leigo foi usado para embasar certas questões em áreas específicas, e para sugerir possíveis soluções. Entretanto, em cerca de dois terços dos casos, o público não especialista foi apenas o “recipiente” da informação gerada. Okello et al. (2009), no Quênia; Ren e Shang (2005), Wang et al. (2009) e Wu et al. (2011), na China, e Wirutskulshai et al. (2011), na Tailândia, também observaram problemas em relação à PP, considerada insuficiente, simbólica e pro forma, o que remete à conclusão de que não basta apenas haver PP – ela deve transmitir valor e qualidade ao processo de avaliação. González et al. (2008) mostram que 37% dos 54 praticantes de AIA e AAE entrevistados julgam a PP efetiva, mas 19% consideram- na não efetiva e a maior proporção, 44%, a avaliam como “algumas vezes efetiva”.
Entre os fatores que influenciam a efetividade da PP está a intensidade de engajamento dos atores sociais. Therivel (2010) destaca a dificuldade de mobilizar o público para participar da AAE, pois via de regra as ações estratégicas estão demasiadamente afastadas do cotidiano das pessoas, fazendo com que a PP reúna não mais do que um pequeno número de indivíduos. Por outro lado, o grau de envolvimento do público reflete também o contexto político e cultural em que a AAE é desenvolvida (WORLD BANK, 2005). A literatura ressalta ainda que, em algumas situações, verifica-se certa “fadiga de participação” (HEILAND, 2005; REED, 2008; THERIVEL, 2010), a qual tem reduzido o interesse popular pelo processo de avaliação, nem sempre democrático e ambientalmente justo. Para evitar quaisquer tipos de frustração entre os envolvidos, é imprescindível que aspectos como tempo, formato e nível de participação, e seu significado (propósito) no processo de avaliação, sejam antecipadamente definidos e comunicados ao público interessado (HEILAND, 2005; THERIVEL, 2010; GAUTHIER et al., 2011).
(...) Há uma fadiga geral de participação em
muitos países desenvolvidos e em
desenvolvimento, derivada de inconsequentes processos de participação que tomam tempo e não trazem resultados visíveis para aqueles públicos envolvidos. Contudo, essa situação pode mudar se o propósito do engajamento público vir a ser a construção e o intercâmbio de conhecimento, através de soluções criativas para os problemas identificados, ao invés de simples mecanismos de transferência de informação através de processos consultivos. (SHEATE; PARTIDÁRIO, 2010, p.280).
Em que pesem as dificuldades de sua realização, a PP é o meio pelo qual a AAE poderá cumprir seu papel de promover a comunicação entre os atores e construir um “diálogo social” (VICENTE; PARTIDÁRIO, 2006). Nesse sentido, a qualidade do processo participativo pode ajudar a avaliar a AAE (FISCHER, 2005). Peterson (2004) mostra que um dos mais significativos efeitos da AAE, segundo a opinião dos próprios praticantes, é o aumento do número de pessoas envolvidas no processo político, o que está diretamente relacionado ao êxito da PP. Assim, ainda que o papel dos stakeholders varie de acordo com a natureza do problema sob consideração (HAGE et al., 2010),
vários autores, entre os quais Connelly e Richardson (2005), Rauschmayer e Risse (2005) e Fischer (2007), sustentam que a PP não pode ficar restrita a apenas alguma(s) etapa(s) do processo de avaliação, devendo ocorrer ao longo de todo o curso da AAE.
A participação pública pode desencadear processos de aprendizagem social, os quais transformam ações individuais descoordenadas em ações coletivas, que apoiam e refletem necessidades e entendimentos coletivos. O ponto de cristalização da participação é quando o grupo, de uma coleção de indivíduos perseguindo seus interesses privados, transforma-se em uma coletividade que define e é orientada em direção a interesses compartilhados. Alcançar este momento deveria ser o maior objetivo da participação pública. (WEBLER et al., 1995, p.460).
Por fim, cabe ressaltar que a PP deve ser vista como ferramenta metodológica e não como o objetivo ou produto final do processo de avaliação, e menos ainda como uma solução capaz de transformar uma AAE mal conduzida em uma “boa AAE”.