Pautando a atuação dos profissionais do SENAI, o Plano de Curso do curso em estudo estabelece que os conhecimentos tecnológicos devam ser ministrados tendo como metodologia a utilização de múltiplas estratégias que favoreçam ao aluno compreender a utilização dos conceitos apreendidos, bem como contextualizá-los em situações reais, de modo que seja possível desenvolver competências e habilidades por meio de “situações reais de trabalho”, no “aprender fazendo”, propiciando a integração teoria-prática, como forma de facilitar o processo de “construção e gestão do conhecimento, o auto-desenvolvimento contínuo e a incorporação consciente e crítica da ética das relações humanas, envolvidas em situações profissionais.” (SENAI, S/D, p.31).
Em articulação com o Parecer 16/99, o Plano de Curso do curso ora estudado, ressalta que:
o uso de linguagem técnica, como base para a comunicação entre colegas e com os supervisores de área, a capacidade de pesquisar, o cuidado com os equipamentos e ferramentas, o trabalho em equipe e o respeito à higiene e segurança no trabalho devem estar presente a toda atividade proposta aos alunos. (SENAI, S/D, p. 31).
A assertiva acima é ratificada por Frigotto (1983, p. 42), que, ao analisar o modelo de formação do SENAI afirma que há uma grande preocupação dos instrutores dos cursos quanto à “transferência prática dos conteúdos, uso correto das ferramentas, manejo correto e limpeza rigorosa das máquinas, cuidado com acidentes, precisão e esmero na execução da tarefa, rapidez”.
Além disso, valores e atitudes como responsabilidade, assiduidade, pontualidade, etc., são aspectos priorizados nos cursos da instituição que, segundo o autor citado acima, ao contrário do que se pensa, não tem como principal preocupação a qualificação técnica do trabalhador, mas, sobretudo, a formação de “bons trabalhadores” para submissão mais fácil e menos resistente às relações sociais de trabalho estabelecidas.
Para Frigotto (1983, p. 44), “se o SENAI treina trabalhadores em habilidades que os tornem capazes de exercer uma determinada atividade dentro do processo produtivo, na divisão social do trabalho organizado pelo capital, essa qualificação não é nem a única e nem a principal”. Reitera que no SENAI se ensina, sobretudo,
integrar-se nas relações de classes existentes numa cultura técnica, um conjunto de maneiras de ser, de agir e de pensar, necessário à submissão das relações sociais de produção impostas pelo capital. Não há como negar a eficiência da Instituição nesse sentido. [...] trata-se de um tipo de formação que vai dotar os indivíduos de “qualidades morais” que os adequem a relacionar-se com o capital no desempenho contínuo das atividades produtivas por ele organizado. A adaptabilidade tornou-se sinônimo de mão-de-obra qualificada. (FRIGOTTO, 1983, p. 44).
Um dos aspectos importantes do curso, mencionado por todos os entrevistados como fator crucial de desenvolvimento e apreensão dos conteúdos ministrados é o estágio, o qual é realizado em etapas e em paralelo aos avanços no curso47. Aliás, já no estágio, o aluno é avaliado como um futuro profissional, sendo dele cobrado, mais que domínio técnico do saber inerente à profissão exercida, o comportamento e as atitudes adequadas ao capital.
[...] Uma das coisas que esse Curso trás bastante positiva é o estágio [...] Olha, se eu for jogar em termos de percentual seria 50%, entendeu? Porque o aluno está ouvindo, está fazendo, principalmente como nós temos alunos na turma que não tinham conhecimento nenhum na área profissional, então ele já veio aprender aqui [...] (SUJEITO 3).
No contexto das exigências da formação, segundo o Sujeito 2, o estágio assume, de fato, papel importante no curso, por proporcionar ao aluno a oportunidade de pôr em prática os conhecimentos apreendidos, inclusive, sobre o gerenciamento do processo de funcionamento do negócio da mecânica automotiva. O mesmo possibilita a complementação da formação profissional do aluno, proporcionando vivência profissional em situações de trabalho concretas.
O perfil que ele [o aluno] sai daqui é para trabalhar na área de chefia, liderança, é claro que depois que ele passar por uma etapa de estágio, todo esse processo, mas o perfil final do Curso é para isso. Então, é por essa razão que se dá toda uma base de redação, para que ele possa fazer um ofício, fazer uma solicitação a outra empresa, ele tenha esse desenvolvimento. (SUJEITO 2).
47 Ao término do primeiro módulo, cuja ênfase se atém à mecânica, o aluno inicia o estágio de 280 horas e, após o segundo módulo, que enfatiza a parte de eletrônica, é exigido o estágio de 320 horas.
De outra forma, o SENAI também valoriza a experiência comprovada que o aluno apresenta a partir de seu cotidiano profissional, certificando-a. Ou seja, “se você comprovar, ou então se você provar: olha, eu trabalho numa oficina, eu sou um autônomo, nós vamos lá verificar tudo, avaliar, ou seja, ver o que ele faz realmente...” (SUJEITO 1).
Isto é possível porque a LDB 9.394/96 permite que qualquer cidadão venha a ter seus conhecimentos, mesmo que adquiridos no contexto do trabalho prático, avaliados, validados e certificados, possibilitando o prosseguimento nos estudos.
Assim, sendo confirmado que o aluno já possui uma prática das atividades do curso em uma oficina, concessionária ou equivalente, ele fica liberado da obrigatoriedade de realizar os estágios, condição para obtenção do diploma de conclusão do curso.
[...] quando o aluno já tem um conhecimento, trabalha, então nós solicitamos ao aluno que faça uma declaração e credita, entendeu? [...] [A partir do estágio] ele passa a ter um conhecimento real do mercado e realmente relaciona teoria e prática com o mercado, passa a ter outro nível de conhecimento. (SUJEITO 1).
Isso, segundo o Sujeito 3, é importante porque valoriza a vivência e a experiência anteriores do aluno. Nesse caso, ocorre um processo inverso ao que ocorre quando da aplicação prática das teorias apreendidas no curso por meio dos estágios, ou seja, acontecerá um processo de teorização a ser exercido sobre uma prática efetivada...
...quando o aluno vem de uma oficina, em que já trabalhou com o seu pai ou com alguém, então ele, com certeza, fica muito mais aprimorado, porque ele vai encontrar estudos profundos que ele vê lá e não sabe como resolver. Aqui ele vai ver como resolver, entendeu? A gente estuda profundamente, explica como são as causas dos problemas [...]. (SUJEITO 3).
Em relação aos conteúdos ministrados no curso estudado e à inter-relação teoria- prática estabelecida no processo de formação, verificou-se que os mesmos se dão em acordo com as demandas de mercado das grandes empresas automobilísticas, mantenedoras do laboratório de aplicação prática do curso.
Por nós termos a parceria com a Volkswagen e a Fiat, nosso material [didático do Curso] está muito embasado nessas duas grandes empresas, porque nós temos a parceria, ou seja, nós temos um convênio. Você vê ali no nosso estacionamento que tem mais de 20 automóveis que são, na verdade, das empresas que doam para o laboratório [...]. [Nós trabalhamos com] essas duas marcas. Mas, de acordo com profissionais da área, o princípio [dos conteúdos] é o mesmo, só modifica a questão das marcas. Mas a situação é a mesma [...]. (SUJEITO 1).
De acordo com o Sujeito 3, as montadoras Volkswagen e Fiat exercem grande interferência no processo de seleção dos conteúdos, chegando mesmo a direcioná-los:
[...] Bom, a fonte de cada conteúdo é extraída das próprias montadoras. O SENAI [...] o trabalho que desenvolve junto à classe empresarial [...] Com a empresa e a indústria como um todo, nós temos um acesso, nós temos uma condição bem aberta para adquirir o material [...] Eles nos passam aquilo que amanhã eles vão ter realmente de volta. O conteúdo é a matéria prima, que é o próprio aluno que volta [...]. (SUJEITO 3).
Todo o material didático é elaborado ou organizado internamente, pelos instrutores e técnicos do SENAI, com base em matriz (catálogo) fornecida pelas montadoras mencionadas.
...até então esses nossos profissionais estão ligados a essas duas grandes empresas [...]. Você não pode reproduzir um material que vem da empresa. Nós vamos digitar direitinho, incluímos outras situações, e depois de digitado [...] tem aquele material todo, né? Bibliografia. Nós não damos o catálogo da empresa, nós preparamos o material didático para o Curso [...]. (SUJEITO 1).
Segundo o Sujeito 3, contudo, apesar de se ter o direcionamento dos conteúdos do curso pelas duas marcas de automóveis citadas acima, os mesmos são aplicáveis a todas as marcas com as quais os alunos forem trabalhar, de modo que não há prejuízo na formação.
Então, como nós temos um convênio direto com essas duas montadoras, então a formação é voltada para as duas montadoras, as duas marcas: Volkswagen e Fiat. [Mas] É aquela questão né? A mecânica, as marcas, são como os seres humanos, têm todas as características [...] Você tem um motor com quatro cilindros da Volkswagen e Fiat, os componentes delas são os mesmos, a forma como eles funcionam é o mesmo [...]. (SUJEITO 3).
Mais uma vez fica patente, dado o exposto acima, que o modelo de formação profissional do SENAI tem lançado mão de artifícios que levam à qualificação e certificação dos trabalhadores para o mero atendimento aos interesses do capital. Diante disso, diversos pesquisadores48 têm se posicionado de forma crítica, contrários a essa formação para o trabalho na forma vigente e a favor de uma qualificação profissional que privilegie também os interesses dos trabalhadores, historicamente opressos e explorados pelo capital.
Machado (1989, p. 129), por exemplo, afirma que,
a instrução combinada com o trabalho produtivo seria mais uma das expressões da relação teoria e prática. Esta relação tem sua dimensão prática, pois enquanto a teoria serve de guia de ação, a atividade prática constitui o fundamento de todo
conhecimento. O homem se completa, se aperfeiçoa teoricamente, à medida que estabeleça esta relação sempre de maneira consciente. Portanto, [...] não é suficiente apenas um domínio de técnicas; faz-se necessário dominá-las a um nível intelectual. Além da iniciação no manejo das ferramentas básicas utilizadas nas diversas atividades de trabalho, é fundamental permitir à criança e ao jovem o acesso aos conhecimentos necessários à compreensão científica do objeto em estudo, seja ele uma máquina, um fenômeno da natureza ou uma relação socialmente produzida.
Mediante o que expõe Machado, verifica-se que uma das grandes lacunas deixadas pela formação propiciada no curso técnico do SENAI é o fato de os saberes e conhecimentos teóricos serem ministrados, sobretudo, enquanto pré-requisitos da prática, estando, portanto, a seu serviço, visto que não têm por objetivo proporcionar o que Machado denomina de “conhecimentos necessários à compreensão científica do objeto em estudo”, sendo utilizados de forma meramente pragmática.
Como conseqüência desse modelo de formação tem-se a fragmentação do processo dada a prevalência da prática sobre a teoria, e pela ausência do necessário diálogo entre ambas, para uma formação “teoricamente sólida e sistemática”.