4.2 Samtykke
4.2.1 Frivillig
Segundo Machado, o modelo de competências46 revela condições subjetivas da produção, consistindo em “novas estratégias de iniciativa empresarial de incorporação do saber dos trabalhadores, através das técnicas de monitoração da participação e de busca de sugestões de melhorias, denominadas por Coriat (1994), de envolvimento incitado” (MACHADO, 1996, p. 21).
A competência vale-se da subjetividade do trabalhador, assumindo como referencial a atuação do sujeito e sua capacidade de desempenhar uma atividade de forma eficiente,
46 A noção de competência denota vinculação com capacidades humanas antes desvalorizadas nos ambientes produtivos tais como o pensamento abstrato e atitudes críticas e autônomas necessárias para o enfrentamento, pelos trabalhadores, de situações novas demandadas pela produção flexível.
restaurando histórias individuais dos trabalhadores, processos informais que resultam em desenvolvimento de capacidades esperadas pelos contextos produtivos.
Segundo Araújo (2001, p. 18), a pedagogia das competências possui uma abordagem que busca “promover a reorganização do vínculo entre educação profissional e sistema produtivo, conforme os princípios que sustentam as atuais demandas de força de trabalho das empresas organizada sob a égide dos conceitos de produção flexível e integrada”.
No contexto do acima exposto, e considerando o caso do curso técnico pesquisado, o Sujeito 1 ressalta as exigências da formação, destacando as diferenças entre este e os cursos de aprendizagem ministrados pela Instituição, onde o curso técnico prepara o aluno para uma atuação mais ampliada, em um mercado competitivo e exigente.
Bom, se a gente for analisar, o SENAI trabalha com os Cursos de aprendizagem, onde o garoto para estar aqui tem que ter a formação até a sétima serie e não tem aquela responsabilidade de terminar o segundo grau dele. Terminou o Curso dele, ele vai trabalhar, ou numa concessionária ou em oficina de rua ou coisa parecida. Já o Curso técnico é o profissional que está saindo que poderá trabalhar, além de concessionária, em qualquer outra [...] Então acho que é fundamental. Preenche uma lacuna que eu acredito que em nível de mercado de trabalho, há uma necessidade. (SUJEITO 1).
Quanto aos alunos, estes, ao falar de seus planos para o futuro e das oportunidades profissionais que esperam ter a partir desse curso, destacam que as perspectivas de trabalho devem mudar a partir de então...
[...] A gente fica esperançoso, né? Fica esperançoso em trabalhar em concessionárias, em ser reconhecido profissionalmente. Mas também não tira a idéia de montar a nossa própria oficina [...] não do porte de uma concessionária, mas com o máximo possível para proporcionar um trabalho de qualidade [...]. E esse é o meu objetivo: pegar uma experiência em uma concessionária, e depois montar o meu próprio negócio. (ALUNO 2).
Segundo ele, o curso possibilita formação suficiente para que se possa abrir um negócio próprio, pois, além dos conteúdos especificamente técnicos, dá uma visão de gerenciamento, de liderança, etc.
Da mesma forma, o Aluno 3 afirma que decidiu fazer o Curso Técnico em Manutenção de Mecânica Automotiva porque vê nele boa oportunidade de aprimoramento, de seguir uma carreira de mecânica de forma mais aperfeiçoada, mais técnica, etc.
Eu vi na propaganda no jornal, que o SENAI lançou esse curso técnico. E, como nas empresas em que eu andava, eles sempre queriam uma pessoa adequada, mais capacitada, e apesar de eu ter [formação], mas eu não tinha esse nível, no caso, o
técnico. Então, eu procurei o SENAI e me inscrevi para poder ter informações mais amplas no mercado. (ALUNO 3).
Sob a perspectiva dos alunos, percebe-se, através da fala de um dos entrevistados, certo orgulho e envaidecimento em relação ao curso
[...] o objetivo é formar técnicos capacitados na área automobilística, de automóveis. Foi feita uma pesquisa no ramo e [foi constatado que] as empresas, no caso as concessionárias, estavam precisando de um profissional mais qualificado. E, por causa disso, o SENAI implantou esse curso técnico. E é o único da região norte, na área especifica de automóveis, de técnico em manutenção automotiva. E é a segunda turma que está se formando [...] A gente não pode ser só um mecânico técnico e pode também atuar na área automobilística em outras áreas. (ALUNO 3).
Depreende-se que a expectativa dos alunos, de uma forma geral, é obter, a partir do investimento neste curso, um maior nível de conhecimentos, uma formação mais ampliada, capaz de lhe “abrir portas”, criar novas oportunidades de trabalho e, consequentemente, uma carreira no âmbito desta profissão. Sobre o interesse nesta profissão, o Aluno 1 destaca que...
[...] Isso já vem de família. Porque o meu pai era eletricista. Só que eu não queria atuar só na área elétrica. Aí eu parti para outras descobertas, como a mecânica, a eletrônica, que é uma área nova para mim. Eu queria agregar tudo isso para melhorar e ser um melhor profissional [...]. Porque mecânico de beira de rua em qualquer canto tem, mas um técnico que domine realmente daquilo que ele está fazendo [...] é diferente. Tem um diferencial [...]. (ALUNO 1).
Para ele,
[...] a importância de um curso como esse é que ele abre muitas janelas. Eu pago R$-200,00 por mês durante dois anos [...] [mas] o curso abrange todas as áreas que eu precisava para realmente conseguir conciliar as coisas [...] [Antes], por exemplo, eu trabalhava só com a parte elétrica, e eu via outros mecânicos que trabalhavam só com a parte mecânica. Então, eu não via técnicos ou profissionais que conciliassem as duas coisas. (ALUNO 1).
Os alunos afirmam que existe preconceito na sociedade em relação ao trabalho do mecânico e que isso se deve, em partes, às suas condições para desenvolvimento das atividades no dia-a-dia da oficina, incluindo desde o ambiente de trabalho que têm, até as suas vestimentas, acrescido, ainda, da precariedade de sua formação, o que não lhes permite, muitas vezes, se comunicar de forma mais elaborada com os clientes.
Desse modo, os alunos do curso técnico vêem no mesmo uma possibilidade de superação desse preconceito, a partir da apreensão e domínio de um conhecimento
sistematizado e mais profundo, capaz de lhes favorecer em termos, inclusive, da imagem profissional a ser repassada aos clientes.
Entretanto, ainda assim, o Aluno 3 é reticente em relação à superação dessa discriminação em seu contexto de trabalho por afirmar que “[...] a maioria das pessoas não tem esse conhecimento do curso técnico. Eles são acostumados com mecânicos de beira de estrada, que trabalham todo sujo, e tal. Assim, não têm o conhecimento técnico, do curso” (ALUNO 3).
Dado o exposto acima, portanto, depreende-se, a partir das falas dos atores entrevistados, bem como dos documentos oficiais, à luz do referencial teórico utilizado, que a formação profissional desenvolvida no Curso Técnico de Manutenção de Mecânica Automotiva, orientada pela pedagogia das competências, objetiva, sobretudo, a satisfação das necessidades e demandas mutantes do mercado de trabalho, relegando as necessidades dos trabalhadores a um plano secundário no conjunto do processo. Estes são tidos mais como peças na engrenagem do sistema de produção, de modo que a sua formação varia, exclusivamente, em torno das necessidades estabelecidas pela produção.
No intento de dar respostas imediatas e eficazes às novas demandas do mercado de trabalho, a proposta do SENAI parte da noção de competência, como a principal referência do processo de formação para o trabalho, de modo que passa a promover a chamada “individualização” da educação profissional, o que incorre em conferir aos sujeitos e à sua qualificação e competência toda a responsabilidade pela própria situação (incluído ou excluído) junto ao mercado de trabalho.
Ou seja, passa-se a fomentar, equivocadamente, um quadro no qual a própria formação profissional começa a deixar de ser somente uma forma de preparação técnica para o trabalho e a ela se atribui o papel de “promotora da empregabilidade” e “do relaxamento das tensões sociais originadas pelo fim da ilusão do pleno emprego”, desconsiderando-se a dificuldade de superação desse problema, visto que o grande obstáculo se concentra, na realidade, “na condição de subordinação do país ao capitalismo central, ao padrão de acumulação implementado e à lógica de reprodução das desigualdades.” (ARAUJO, 2001, p. 31).