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In document Arbeidsgrupperapporter 2017 : KOSTRA (sider 164-170)

Michel de Certeau (1994) é, sem dúvida, outro autor importante para compor o arcabouço teórico desta pesquisa.

É no seu trabalho A Invenção do Cotidiano – Artes de fazer que se buscará elementos teóricos para compreender as práticas cotidianas dos agentes formadores da Oficina Pedagógica, em destaque neste trabalho. Trata- se de captar em que momento esses agentes lançam mão de expedientes que, em prol de sua sobrevivencia, são usados como recursos para reagir ao controle massivo, formal e contundente da Secretaria de Educação. Por meio dessas práticas diárias, se buscará indícios de autonomia desses agentes em relação ao poder formal, quase incontestado, personificado e assumido pelo governo estadual e seus representantes, neste caso, a Secretaria de Educação.

É a apropriaçãodos conceitos de “estratégia” e de “táticas” que nos interessa para uso sistemático neste trabalho de pesquisa.

Neste livro Certeau faz uma crítica às Ciências Sociais que não foram capazes de criar formalismos para registrar as minúcias do dia a dia que são usadas pelos indivíduos “comuns” para se apropriarem das tradições, linguagem, símbolos, arte e artigos de troca que compõem uma cultura.

Certeau alonga o conceito de “consumo” através da expressão “procedimentos de consumo” que, eventualmente, se transforma em “táticas de consumo”, pelas quais o indivíduo pode, de uma maneira mais ativa, se tornar o protagonista de suas opções frente ao que lhe é imposto diariamente.

Certeau (1994) investiga não só o produto, mas as operações dos usuários – maneiras diferentes que marcam socialmente o desvio por uma classe, ou seja, aqueles desvios que não têm espaço para aparecer ou se tornar visível. Ele analisa e conceitua estratégias – norma / poder e táticas – do fraco / sujeito.

Estratégia para Certeau seria:

(...) O cálculo (ou manipulação) das relações de forças que se torna possível a partir do momento em que um sujeito de querer e poder (uma empresa, um exército, uma cidade, uma instituição científica) pode ser isolado. (CERTEAU, 1994, p. 99).

Logo se entende que uma estratégia é uma entidade que é reconhecida como uma autoridade. Essa estratégia pode se manifestar por vários meios, físicos (espaços, escritórios, matriz) e também através do que aí é produzido para ramificar seus tentáculos de poder e controle, como leis, por exemplo. A estratégia está diretamente ligada a um lugar próprio (físico) e ao tempo, tradições históricas e culturais que a torna relativamente inflexível determinando o seu funcionamento.

A estratégia tem por objetivo se perpetuar através do que ela cria, ou seja, se define pelo que cria.

Ao definir o conceito de “tática”, Certeau se pronuncia nomeando tática como:

(...) a ação calculada que é determinada pela ausência de um próprio. Então nenhuma delimitação de fora lhe fornece a condição de autonomia. A tática não tem por lugar senão o do outro. E por isso deve jogar com o terreno que lhe é imposto tal como o organiza a lei de uma força estranha. Não tem meios para se manter em si mesma, à distância, numa posição recuada, de previsão e de convocação própria: a tática é movimento “dentro do campo de visão do inimigo”, como dizia von Büllow, e no espaço por ele controlado. Ela não tem portanto a possibilidade de dar a si mesma um projeto global nem de totalizar o adversário num espaço distinto, visível e objetivável. Ela opera golpe por golpe, lance por lance. Aproveita as “ocasiões” e delas depende, sem base para estocar benefícios, aumentar propriedade e prever saídas. O que ela ganha não se conserva. Este não-lugar lhe permite sem dúvida mobilidade, mas numa docilidade aos azares do tempo, para captar no voo as possibilidades oferecidas por um instante. Tem de utilizar, vigilante, as falhas que as conjunturas particulares que vã abrindo na vigilância do poder proprietário. Aí vai caçar. Criar ali surpresas. Consegue estar onde ninguém espera. É astúcia. (CERTEAU, 1994, p. 100 – 101).

Certeau diz que “(...) a astúcia é produto do fraco, assim como a tática”, pois é através destas que o fraco pode reagir ao poder a que “se acha amarrada a sua visibilidade” (p. 101).

O motivo de lançar mão de uma citação tão longa é o de sinalizar o desejo de captar, através desta narrativa, elementos que possam nomear aquelas práticas que se pretende ler no cotidiano dos agentes formadores, pois são esses dois conceitos estratégia, e mais precisamente tática, como já foi dito anteriormente, que interessa nessa investigação, além da verificação dos espaços por onde esses agentes circulam e através deles, por eles e com eles se apropriarem de momentos (tempo) e espaços (ações relatadas) em que lançam mão de astúcias para edificarem seus espaços de ação e criação, projetando, uma “autonomia relativa” que se renova à medida que os agentes são colocados frente a novas situações de controle advindas do lugar próprio do poder, como medida de sobrevivência.

A citação acima traduz exatamente aquilo que se quer observar na rotina dos agentes formadores: verificar de que maneira eles reagem ao forte controle exercido pelo governo do Estado através da Secretaria de Educação, que detém o poder e que determina e regula a ação desses agentes formadores.

Através desse autor pretende-se analisar o nível de autonomia dos agentes formadores de professores da Oficina Pedagógica, inseridos na linha de fogo entre a SEE e as escolas. Esses agentes precisam desenvolver um trabalho de atendimento aos professores jurisdicionado às Oficinas Pedagógicas e, ao mesmo tempo, precisam dá conta de atender aos mais variados pedidos e solicitações da SEE, que são muitos e impositivos, recebidos através do Diário Oficial (discurso oficial) onde diz: cumpra-se!

É importante perceber que enquanto a tática se contenta em classificar, calcular e tabular, a estratégia se incube do cálculo ou manipulação das relações de forças. Além disso, existe pela estratégia, uma preocupação de ocupar todos os cantos, de observar e controlar a tudo e a todos, de dividir os espaços em compartimentos para melhor vigiar, já a tática age no improviso, no momento da ação propriamente dita, sem planejamento prévio, sem uma preocupação ulterior, a reação é momentânea, instantânea e preza pela sobrevivência.

Certeau está atrás de esboçar uma teoria das práticas cotidianas através de uma lógica operatória. Na prática, uma lógica às avessas, uma lógica da teimosia, da sobrevivência, buscando captar essa lógica do informal, que utiliza suas táticas conforme as estratégicas dos outros, do instável, que sem ponto fixo de existência, se corporifica em uma “arte de fazer”, arte da sobrevivência, pois não se deixa aprisionar totalmente pelo discurso normativo. São essas minúcias do cotidiano dos agentes formadores que se pretende pôr em relevo usando-se os conceitos de Michel Certeau.

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O conjunto de leituras até aqui apresentado já permite problematizar a temática em estudo.

O que esta pesquisa se propõe é verificar de que forma estão sendo desenvolvidas as ações de formação de professores de ensino fundamental I, na perspectiva dos agentes responsáveis pelos cursos oferecidos pela Oficina Pedagógica aqui analisada. Trata-se de analisar esta instância considerando as relações entre a “cultura predominante nas concepções e rotina desses profissionais gestores” e o contato que relatam ter com a cultura das instituições escolares e a cultura dos professores.

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