“Se estás aqui para me ajudar, então, estás a perder o teu tempo. Mas se vieste porque a tua libertação está presa à minha, nesse caso, deitemos mãos à obra.” (Valverde, cit. in Laverack, 2010, p. 175)
Perceber as pessoas, o seu universo interior, as formas como aprendem na vida e se apropriam do conhecimento é fundamental para o desenvolvimento humano. Desde a 1ª Conferência Internacional sobre a Promoção da Saúde (Ottawa, 1986), que se determinou que os atores/ promotores de Educação para a Saúde não são originários exclusivamente do setor da saúde, dado que a responsabilidade pela educação é extensiva a outros atores, nomeadamente governos – pela responsabilidade nas políticas educativas - Organizações Não Governamentais (ONG), autarquias, empresas, comunicação social e populações, tomando como referência a saúde individual, mas sobretudo coletiva.
Atualmente, tendo em consideração a integração das escolas na RNEPS, cabe aos professores e em particular aos coordenadores de Educação para a Saúde a responsabilidade de sensibilizar e coordenar projetos no âmbito da EpS em meio escolar, em parceria com os Centros de Saúde. Contudo, importa saber o que pensam os professores sobre esta nova responsabilidade. Será que a sua formação académica os preparou para esta dimensão de EpS? Qual o papel do educador para a saúde numa comunidade e, neste particular, no meio escolar? Raimundo (2002) faz-nos pensar no papel do educador comunitário na mudança social, a partir da importância do conhecimento dos contextos, do potencial das populações, estimulando a sua participação/ envolvimento em todo o processo de mudança (desde a fase do planeamento dos programas e/ou projetos de intervenção comunitária), promovendo, assim, a autonomização das pessoas/comunidades. O educador surge, assim, com papel promotor da participação das pessoas na ação coletiva.
Nos contextos contemporâneos, o educador comunitário [podemos fazer relação com o educador para a saúde em meio escolar] tem várias vertentes de ação a partir de quatro eixos complementares de extrema importância e que seguem as recomendações do desenvolvimento da educação de adultos de Nairobi (1976): o informar/comunicar;
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Segundo Raimundo (2002) informar e comunicar são fundamentais nas aprendizagens significativas das pessoas/comunidades pois pela comunicação desenvolve-se o estabelecimento de relações empáticas [fundamentais] entre o educador e as pessoas/comunidades. Por sua vez, a falta de informação inibe a participação e a organização social. Contudo, “é preciso traduzi-la em conjunto com a população, a partir dos seus saberes, competências e experiências de vida” (Raimundo, 2002, p.66). Assim, a comunicação pressupõe interação entre o educador e as comunidades, com o objetivo de promoção da ação comunitária e, nesta interação, a aprendizagem é mútua, tendo o educador dois papéis que se complementam: o de educador e de educando; desta forma, sujeito e agente têm como finalidade comum criarem conhecimento e, consequentemente, mudança.
No eixo mediar e concertar, para o mesmo autor, o posicionamento do educador comunitário é o de “pugnar por algo difuso como o bem comum, segundo a ideia de que é mais aquilo que une a comunidade do que aquilo que a divide” (idem, p.67), assumindo o papel de interlocutor comunitário entre as aspirações da comunidade e os órgãos de poder.
Relativamente ao eixo educar e politizar, diz-nos ainda que “[a] educação comunitária é uma prática onde cabe toda a diversidade de formatos educativos formais, não formais, informais ou comunitários” (idem, p.70), sendo fundamental contextualizar a ação comunitária e procurar integrar as propostas locais nas orientações a nível nacional, não descurando as políticas europeias.
Por fim, relativamente ao papel do educador comunitário, no que diz respeito ao eixo Organizar e emancipar, diz-nos Raimundo (idem, p.72) que a “organização da sociedade em estruturas formalizadas de defesa e valorização dos direitos sociais é um passo indispensável e decisivo para o reforço da democracia representativa e participada”, reforçando que ao proporcionar-se autonomia às comunidades, estas passam a ser sujeitos da sua própria história.
Como veremos no capítulo seguinte, os programas de ação comunitária deverão ter por princípio a organização e avaliação contínua dos processos, considerando-se fundamental o retorno às populações dos resultados da mesma, sobretudo dos inerentes aos estudos realizados no seio da comunidade. Estas devem ser ouvidas estimulando o autodiagnóstico de necessidades aquando da avaliação inicial, promovendo a sua participação.
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As conferências que se sucederam até à última VI Conferência Internacional de educação de Adultos (2009) valorizam a qualidade da educação de adultos e jovens, sobretudo no que diz respeito à formação e competência pedagógica dos educadores, competindo ao educador facilitar os processos educativos, saber explicar e fazer compreender. O educador deve, assim, criar condições para a aprendizagem ao longo
da vida, sendo que a relação entre educador e educandos é, nestes processos, igualmente
valorizada, porquanto se reconhecem vantagens nas aprendizagens. Em conjunto, educador e educando, terão condições para criar soluções orientadas para a resolução de problemas/ necessidades.
Após esta breve reflexão sobre o papel do educador para a saúde a nível individual e comunitário, podemos transpô-lo para um contexto específico como uma comunidade escolar. Hoje, apela-se à participação de todos enquanto agentes ativos na Educação para a Saúde e em particular nas escolas, aos professores, uma vez que estando próximo das pessoas/ comunidades desempenham um papel fundamental neste domínio. Assim, (re)conhecendo o(s) contexto(s), deverão ter um papel ativo na (re)aproximação das pessoas na comunidade escolar, envolvendo-as num trabalho comunitário em rede/ parcerias, promovendo a integração social, a harmonia e bem- estar e o estímulo à autonomia.
Em síntese, podemos dizer que cabe ao educador para a saúde conhecer e perceber as necessidades das pessoas, como se formam, educam e aprendem, com a finalidade de se planear de forma flexível e adequada um conjunto de ações de forma a dar resposta a estas necessidades/ problemas/preocupações.