tem acesso à internet em casa), e cultura (10% dos museus concentram-‐se na cidade de Lisboa), além dum poder de compra acima da média nacional (INE, 2012).
Ora, estas características tornam a população de Lisboa o universo ideal para o estudo da felicidade: população urbana, escolarizada, com capacidade de mobilidade/deslocação e socialmente diferenciada, de ambos os sexos e de diferentes idades capacitando a análise para a exploração de regularidades em torno de características que podem traduzir, por um lado, o ciclo de vida (idade), como diferentes representações e modos de vida (sexo e posição social).
Outros estudos apontam para a importância da capacidade reflexiva na percepção e avaliação de felicidade e para a necessidade de abordagens teóricas e metodológicas alargadas e não apenas a mensuração de julgamentos subjectivos (Averill & More, 2000; Roque Dantas, 2007).
Para ir além da auto-‐avaliação já feita por vários estudos e explorar os significados, sentidos e desejos que os actores sociais dão às suas práticas na relação com a procura de felicidade, tornou-‐se imprescindível aceder a uma população escolarizada, sensibilizada para a temática (com percepção da sua importância) e com capacidade reflexiva.
Acreditamos que esta abordagem permite ir mais além e analisar simultaneamente, e de forma articulada, diferentes níveis de observação e, como tal, captar tanto o julgamento individual como as condições de vida, a par da análise dos estados emocionais e das percepções e representações da felicidade.
4.2. A definição da amostra
A decisão acerca de quem observar decorre dos objectivos já apresentados: analisar as diferentes dimensões que influenciam felicidade,
explorar contextos específicos que promovem ou limitam a sua percepção e expressão e conhecer as práticas, estados emocionais e significados associados a felicidade.
Assim, num primeiro momento, temos a caracterização macrossociológica da população nas suas várias dimensões e na relação com a auto-‐avaliação de felicidade. A base de dados escolhida foi a ESS, série 5, de 201053. A opção por esta fonte de informação decorre, por um lado, da sua representatividade estatística para a população portuguesa, ampliando as possibilidades de análise estatística e inferencial, mas também do seu conteúdo. Originalmente a base contém cerca de 600 variáveis, incluindo indicadores de auto-‐avaliação de felicidade e de satisfação com a vida (e com várias dimensões) medidos em escala de 11 pontos, mas também, variáveis relativas à percepção acerca das condições estruturais do país, às condições de vida, contendo ainda variáveis de caracterização biográfica. Esta base de dados tem ainda desagregação ao nível da região, permitindo apoiar a definição da amostra sobre a qual incidir a recolha de dados através de questionário.
Com a aplicação do questionário pretendia-‐se aprofundar a informação do ESS, principalmente quanto a percepções das próprias circunstâncias, práticas desenvolvidas e idealizadas, estados emocionais e importância da felicidade enquanto factor condicionador da acção. Se os objectivos na utilização deste instrumento eram claros, restava delimitar uma amostra para observação.
A opção pelo universo de habitantes da cidade de Lisboa foi já justificada, pela sua pertinência numérica face ao país e pela necessidade de captar as percepções e representações de uma população urbana, instruída e socialmente diferenciada. A esta amostra designaremos doravante Amostra Lisboa para estudo felicidade.
53 Apesar de existirem dados mais recentes (2012, série 6), optou-‐se por não actualizar a análise
uma vez que a recolha de informação através de questionário decorreu em finais de 2011 e início
Face a este contexto, optou-‐se pela construção de uma amostra não aleatória por quotas interrelacionadas (sexo, idade), entendendo que cada quota integra um número previamente definido de elementos com determinadas características, mas que estes elementos são seleccionados de forma não aleatória. As quotas constituem grupos exaustivos e mutuamente exclusivos garantindo homogeneidade dentro das quotas e heterogeneidade entre os grupos. As quotas definidas são sexo e idade, variáveis que remetem por um lado, para diferentes socializações e, por outro, para ciclos de vida distintos. Quando interrelacionadas, espera-‐se a cristalização de características sociais e percepções de felicidade, resultantes da evolução sócio-‐histórica e do contacto com diferentes modelos sociais de felicidade.
Mais especificamente, a diferenciação de sexo pretendeu explorar a importância que os papéis sociais de género podem adquirir na procura e vivência de felicidade, ou seja, se o facto de ser homem ou mulher condiciona as suas percepções e representações. Outros estudos apontam para diferenças entre homens e mulheres quanto às suas percepções de felicidade (Graham, 2011a). Contudo, as diferenças entre sexos, e uma vez que diferem entre países, parecem dever-‐se a especificidades contextuais relacionadas com percursos, oportunidades e representações, cujo conhecimento importa aprofundar. Por sua vez, os grupos etários foram definidos de forma a integrar indivíduos de diversas idades, em diferentes fases dos seus ciclos de vida e marcados por isso por diferentes percursos biográficos, momentos históricos e modelos de socialização. Pretende-‐se com estas quotas captar diferenciação social nas práticas e nas representações de felicidade.
Assim, a amostra definida para aplicação do questionário contempla respostas de homens e mulheres, de diferentes grupos etários, procurando repartir as respostas de forma equitativa pelas quotas interrelacionadas e de acordo com os pesos que assumem na amostra do ESS para a população portuguesa da região de Lisboa.
Quanto à sua dimensão, esta amostra tentou aproximar-‐se o mais possível, da amostra do ESS para a região de Lisboa, tanto quanto ao número de pessoas incluídas, como quanto ao peso que as características pretendidas assumem na população em análise, e como tal, é representativa da estrutura demográfica da região de Lisboa (tal como proposta pelo ESS)54.
A tabela seguinte compara as amostras analisadas quanto à sua dimensão e composição por sexo e escalão etário.
Tabela 3 -‐ Comparação das amostras utilizadas: ESS – Portugal, ESS – região de Lisboa, Amostra Lisboa (estudo felicidade)
Fonte dos dados: ESS5, 2010
Assim, a amostra do European Social Survey (ESS), representativa da população portuguesa, contempla 2150 inquiridos, dos quais 59,5% são mulheres e 40,5% são homens e 21,8% tem idades inferiores a 35 anos, 30,5% tem idades entre os 35 e os 54 anos e que 47,6% tem idades iguais ou superiores a 55 anos.
Por sua vez, a mesma amostra, mas apenas para a região de Lisboa, conta com 632 respostas, com uma repartição por sexos semelhante à do conjunto – 60% das respostas são de mulheres e 39,9% são de homens –, assim como, por
54
Refira-‐se que a amostra não pretende ser representativa do conjunto do país e, como tal, as conclusões não devem se extrapoladas para o conjunto dos portugueses.
ESS#$#Portugal ESS#$#Região#Lisboa Amostra#Lisboa# (estudo#felicidade) 2150 632 626 H"(%) 40,5 39,8 47,0 M"(%) 59,5 60,2 53,0 <"35"anos"(%) 21,8 24,4 38,8 35754"(%) 30,5 33,0 35,0 55+"(%) 47,6 42,6 26,2 Sexo Grupos"etários Dimensão#(N)
grupos etários – maior peso das respostas dos mais velhos (42,6%), 33% de respostas do grupo central e 24,4% dos mais novos55.
A amostra de habitantes de Lisboa – amostra Lisboa estudo felicidade –, recolhida especificamente para este trabalho, é constituída por 626 indivíduos, dos quais 332 (53%) são mulheres e 294 (47%) são homens, 38,8% tem idades compreendidas entre os 18 e 34 anos, 35% entre os 35 e os 54 anos e 26,2% idades iguais ou superiores a 55 anos. Dado a semelhante estrutura da amostra definida pelo ESS para a região de Lisboa – semelhantes pesos das quotas –, é representativa da estrutura demográfica da região de Lisboa, mas não da população portuguesa.
4.3. Os instrumentos de recolha de informação
Para efectuar uma abordagem mais aprofundada, relativa às práticas, significados e estados emocionais dos actores sociais, e recolher esta informação de forma a completar os dados já existentes, desenvolveu-‐se um questionário específico. Este tipo de instrumento permite aceder a uma estrutura latente de comportamentos e atitudes (Baudelot & Gollac, 2003).
Este instrumento está vocacionado para abordagens mais extensivas e quantitativas, mas julgamos que permite igualmente captar informação de carácter mais qualitativo (através de perguntas abertas) e assim combinar no mesmo instrumento a capacidade de relacionar informações objectivas com percepções de carácter mais subjectivo e aprofundado.
Da sua análise, pretende-‐se identificar regularidades de forma a definir
tipologias sociais de configurações de sentir e procurar felicidade. Da aplicação do
55 Estes valores resultam da activação dos ponderadores (Dweight) para corrigir efeitos de
subrepresentação de alguns grupos etários, tal como recomendações do ESS em: