A análise microgenética de alguns episódios atesta que a forma como os jovens se posicionavam frente aos demais era marcada tanto por regularidades, quanto por modificações ao longo das oficinas. Determinados participantes, como Douglas, Ronaldo e Sâmia, permaneceram mais calados nas discussões de que participaram, embora se inserissem ativamente em outras atividades propostas - caso de Ronaldo, principalmente.
Por outro lado, Camila costumava participar tanto das atividades que antecediam as discussões, quanto dos momentos em que o grupo todo se debruçava sobre um tema. Contudo, nas primeiras oficinas, a jovem não se colocava tanto como outros participantes nas discussões e, quando o fazia, geralmente se posicionava no sentido de endossar linhas argumentativas que já estivessem em relevo. A despeito disso, no desenrolar da pesquisa- intervenção, pude identificar alguns reposicionamentos significativos de Camila diante dos demais, como ressaltarei adiante.
Por sua vez, Mariana, Lia, Laura, Renata, Carla e Pedro costumavam participar bastante de todos os momentos. Lia, Laura e Mariana, desde o início, situavam-se como referências para os demais nas interações, assumindo o lugar de “jovem-cabeça” em discussões sobre vários temas. Lia, porém, destacava-se nesse lugar, tanto é que, ao longo das oficinas, em raras ocasiões os demais expressavam contraposição a algo que aquela jovem apresentava.
Embora em diversos episódios tenham surgido múltiplos sentidos sobre o mesmo tema, Pedro e Carla se destacavam como os que mais apresentavam contrapontos aos sentidos que se sobressaiam nas discussões. Os dois ora destoavam do que seria “politicamente
correto” em se tratando de um “jovem-cabeça”, ora levavam às últimas consequências as posições de um “jovem-crítico”.
Um dos momentos que ilustra essa observação foi a colocação de Pedro em uma sequência interacional em que vários participantes se posicionavam indignados com os casos de “bulling”, na oficina sobre saúde mental. Naquela situação, Pedro se distanciou abissalmente do posicionamento da maioria, assumindo comportar-se de maneira politicamente incorreta em sua sala, junto de alguns colegas:
Pedro: Mas, tipo, ó, lá na minha sala a gente nem tira brincadeira com todo mundo, porque a gente sabe que o pessoa não aguenta, sabe, certos tipos de brincadeira. Por isso quando alguém vai tirar brincadeira comigo ou com os meninos que... que a gente fica na sala tipo naquele grupinho, os meninos, aí a gente fala logo “ei, má, não vem tirar brincadeira não que se a gente for começar a tirar brincadeira contigo, tu não vai agüentar”!. Porque a gente tira brincadeira, pega muito pesado com as brincadeiras, sabe?
Carla era mais próxima de Laura e assumia frente aos demais uma posição de igual e estranha ao mesmo tempo. Diferentemente, Pedro tinha uma proximidade maior com a maioria dos participantes do grupo, costumava brincar com todos do começo ao fim de cada oficina e, em muitas situações de discussão, fazia suas contraposições em tons de brincadeira. Nas situações em que Pedro fazia transitar sentidos acerca dos temas que iam de encontro aos apresentados pela maioria, ora acontecia de seu ponto de vista ser endossado, ora ocorria de parte dos participantes não o “levarem a sério”. Mas também acontecia de várias réplicas contrárias às colocações serem elaboradas pelos demais.
Apresentado esse panorama geral das interações, cumpre sublinhar que a negociação de posicionamentos dos jovens entre si também era marcada por dinamismos, os quais podem ser ilustrados por determinados episódios extraídos das interações. Reiterando o destaque da noção de posicionamento à dinamicidade das interações, Oliveira, Guanaes e Costa (2004, p. 77) ressaltam que
[...] as posições que os interlocutores adotam não são fixas – elas podem mudar e mudam constantemente, à medida que a interação se desenvolve. Ou seja, é a interação situada e suas particularidades que definem o jogo de posições que se estabelece entre os participantes em um dado episódio social.
Nas interações no grupo de discussão sobre saúde, em que pese a existência de algumas regularidades, as posições ocupadas por cada participante também variavam em função do tema discutido. Igualmente, as particularidades de cada atividade discursiva realizada contribuíam para que houvesse rearranjo nas posições ocupadas pelos jovens.
Relativo a isso, a atividade de dramatização sobre o tema “Drogas” foi emblemática. A preparação da peça, por exemplo, contribuiu para atualizar as posições de Lia e Laura como referência para o grupo, haja vista que ambas exerciam mais fortemente a função de concepção e direção da peça, apesar de Renata e Camila também participarem.
(As meninas aproximam mais as cadeiras e falam bem baixo. As primeiras ideias parece surgir de Lia e de Laura, de que a peça gire em torno da história de um jovem com dependência química.Camila pede para ser a pessoa com dependência química. Lia propõe que elas se levantem pra combinarem melhor o que cada uma vai fazer.) (risos)
Renata: É assim oh. Tu (Camila) vai ser a drogada, é?
Lia: Não, podia... Pronto! Podia como se fosse Deus que chegasse aqui. Ele chegava e dizia o que era certo, pra ela (Renata brinca fingindo ser Deus, abre os braços em direção à Camla) (Camila interrompe)
Camila: Não..
Lia: (continua) Ela mudava completamente a vida dela. Camila: Não, melhor outra coisa! (tom incisivo).
Lia: (Acata a sugestão de Camila). Não, assim, oh, tipo como se fosse a certeza, porque, oh, voz do mal e do bem , uma ta falando uma coisa, a outra ta falando outra. Pra que lado ela vai? Ai vai ter, tipo, a certeza do que realmente ela... pra que lado ela deve ir.
[...]
Lia: Podia, assim, tu numa festa, usando altas drogas. Podia ser tipo imitando, assim, pessoa “cara, eu não sei se eu vou, pode... eu poço”...
(Laura interrompe, mas não é possível entender o que ela diz)
(Camila imita uma pessoa fumando cigarro, como se tivesse simulando uma cena possível da peça)
Lia: É, tu (Camila) que sabe. Aí tu pega e sai (de casa): - “não, mas eu vou mesmo assim”. Aí tu sai, aí eu chego. Eu falo o que, pelo amor de Deus?
(Laura e Renata cochicham para Lia)
Laura: Tu (Camila) podia chegar, assim, culpada: “será que eu vou, será que eu não vou?”...
Lia: É... “Será que eu vou, será que eu faço isso?”(confirmando a ideia de Laura) Laura: (continua) -“será que isso é errado?”. Aí ela (Lia) chega: “Vai, vai”.
(Lia se aproxima de Camila e sussurra em seu ouvido, como se estivesse ensaiando um personagem)
(risos)
Laura: E ela vai ser o que? (apontando para Renata) Camila: Minha mãe!
Renata: (fala olhando pra Laura). Não é não? Tipo assim oh? (indaudível) Tu (Camila) pega e pede pra ir pra festa, aí eu não deixo tu ir, né, aí tu vai escondido mesmo asism)
Camila: É, aí eu vou escondido! Lia: Aí eu digo “É melhor você ir” Laura: Aí eu fico “Não escuta ela”.
Lia: Não é na frente, tu fica assim, tipo, do lado (dizendo como Laura deve fazer na cena).
Renata: Aí tu começa a dar ouvido à vozinha do mal, né?
Lia: Aí tu pega, assim, “Sai!” (propõe que Camila não escute a voz do bem – Laura e mande-a sair). Ela sai, aí eu fico te acompanhando. Aí chega lá na festa...
Renata: Na festa tu dança, usa droga, e tal (dança como se tivesse simulando o personagem)
Lia: Aí eu fico assim: - “usa” (como se sussurrasse para Camila, simulando a personagem)
Laura: Aí tu (Lia) diz assim: “- Isso! Isso é a solução pros seus problemas (diz o que a personagem de Lia – a voz do mal – deve dizer para a protagonista)
Renata: Aí como é o final?
(Camila parece propor algo, mas é inaudível)
Laura: Não (descorda de Camila), ela( a personagem de Camila) chega em casa acabada... chega acabada e tu (Renata) vai ajudar ela, levar pra uma clínica , sei lá, numa clínica, nem que seja de novo. Ela chega em casa muito mal aí tu (Renata) fala “filha por que tu fez isso”, num sei o que...
(Renata finge bater em Camila, que faz como se tivesse chorando). (Risos)
Lia: Tu (Laura) tem que dar conselho quando ela (Camila) sair (pra festa)... quando ela tiver fazendo as coisas lá, aí tu tem que chegar perto dela, tipo, dar um conselho, assim, dramático mesmo pra ela... Aí ela pega e sai da festa, aí chega em casa, aí a mãe dela... vocês duas conversam...
Depois de planejarem tudo, elas se preparam para ensaiar o que foi combinado.Laura organiza as cadeiras e fala onde será a festa e onde será a casa. Elas ensaiam. No ensaio, .Lia é quem dirige, propondo as ações de Camila.
A dinamicidade que caracteriza a negociação de posicionamentos abria espaço, inclusive, para processos de reposicionamentos dos jovens entre si no processo interacional do grupo. Nesse sentido, a preparação da peça também se caracterizou por propiciar mudança de Camila diante das demais. Diferentemente de outras atividades, Camila se propôs a assumir lugar de protagonista da peça, proposta prontamente aceita pelas demais. Na condição de protagonista, Camila também interferia no delineamento do enredo, em alguns momentos divergindo abertamente do que propunham Laura e Lia, mais à frente dessa função.
Nos comentários sobre a dramatização, Camila foi reconhecida como destaque pelas colegas no papel de “jovem drogada”. Posteriormente, também, na discussão sobre aquele tema, experimentou a possibilidade de conservar sua nova posição frente às demais. Neste momento de debate, Camila lançava mão do discurso científico para acentuar uma diversidade de substâncias entorpecentes, demonstrando propriedade também sobre os efeitos de várias delas. Concomitantemente, valia-se do discurso cotidiano para ressaltar o porquê de algumas serem mais comuns naquele bairro, como a maconha, o álcool, o tabaco e o “crack”.
Da mesma forma, as discussões sobre sexualidade também deram pistas de que as posições ocupadas por cada participante dependiam do tema que era discutido. Quando da circulação e negociação de sentidos sobre esse tema, o discurso religioso aparecia fortemente na interação, presentificado-se, principalmente, nas argumentações de Mariana e Laura.
A aliança do discurso religioso ao discurso científico, neste caso, foi crucial para a circulação de sentidos negativos sobre a vivência sexual na juventude, como foi mencionado no capítulo anterior. O uso principalmente do discurso religioso dá a Mariana e Laura a posição de referência nessa discussão, conforme ilustra o episódio abaixo:
JP: Mas, por exemplo, se a adolescente tiver uma estrutura familiar boa, tiver um namorado e, de repente, engravidar e... eles estão juntos...
Camila: Assim, toda mãe que tem sua filha, eu acho que o maior medo dela é a filha cometer o mesmo erro novamente.
Laura: Eu concordo com o que ela (Mariana) disse (Mariana defendia o ponto de vista de que a gravidez deveria acontecer depois do casamento). Porque, assim, eu sou evangélica e eu sigo os preceitos da bíblia. Tudo tem que ocorrer depois do casamento.
JP: Inclusive relações sexuais? Laura: Tem que casar virgem...
Mariana: (Fala baixo) Tem que casar virgem. (Olha pra Lia e ri)
Laura: ... casar virgem porque, olha aqui, vamo lá, muitos podem achar muita cafonice, mas vamo pensar do meu lado, se todo mundo seguisse pelo menos esse preceito da bíblia o mundo hoje não teria essa superlotação de pessoas... (Mariana fala ao mesmo tempo)
Mariana: Não teria essas doenças.
Laura: ... essas doenças sexualmente transmissíveis,aquela coisa. Se (todo mundo) seguisse, mas o povo sempre acha que é quadrado, que é cafona. Pelo amor de Deus! Eu acho que se, pelo menos... acho que Deus quando criou a bíblia... eu acredito em Deus, que ele existe e acabou! Acho que ele fez assim: “Não, eu vou criar essa regrinha aqui porque eu sei que no futuro vai aumentar”. Então, se a metade seguir, ou a maioria seguir, ou a minoria seguir, tudo bem. Eu sigo esse preceito e acabou- se a história!
Nas negociações de posicionamentos na interação, além do caráter contínuo e relativamente estável dos discursos, destacou-se também o caráter dinâmico e fluido das atividades discursivas. Portanto, aqui é fundamental analisar como posições socialmente constituídas acerca da sexualidade juvenil se projetavam nas interações, a partir da participação ativa dos participantes na definição e negociação de posições.
Diante disso, decidi problematizar como os participantes pensavam a questão do comportamento sexual dos jovens, tomando como base não só o documentário exibido como também informações da pesquisa sobre o perfil da juventude brasileira (ABRAMO; BRANCO, 2008). Eis um trecho atinente a isso:
JP: Há pesquisas no Brasil que mostram que adolescentes iniciam a relação sexual cada vez mais cedo. No caso do filme tem uma adolescente que teve relações sexuais com 11 anos. E aí, isso é errado? Iniciar a relação sexual, por exemplo, com 11 anos, com 13 anos, sem necessariamente estar casada, é algo necessariamente ruim, é algo necessariamente danoso, prejudicial?
(Renata e Mariana começam a falar ao mesmo tempo) Renata: Não é que é errado...
Mariana: Não é aconselhável, mas ninguém pode dizer se é errado ou não, depende da cabeça da pessoa.
JP: Não seria aconselhável?
Mariana: Não é aconselhável, né, porque vai depender...
JP: Mas não seria aconselhável... é... transar cedo ou não seria aconselhável transar sem casar?
Mariana: Os dois. (Risos)
Renata: Para a nossa sociedade, hoje em dia, né, não seria... é... aconselhável transar cedo porque... no mundo de hoje, não é aconselhável transar cedo porque transar antes do casamento... muita gente não ta nem aí...
JP: Então é mais aceito, já é mais comum transar sem necessariamente estar casado? Pra você, problemático é transar muito cedo?(pergunto para Renata)
(Renata concorda)
JP: No caso da Laura não, no caso da Laura por conta de questões religiosas as duas coisas são igualmente problemáticas.
Mariana: E eu. Eu não sou evangélica, sou católica, mas eu acredito nisso (referindo-se ao ponto de vista de Laura de que não seria aconselhável transar cedo e antes do casamento)
Aqui, uma vez mais proliferaram enunciados que, por meio do discurso religioso, traziam à cena o sentido de que transar cedo e antes do casamento seria moralmente problemático. No entanto, os argumentos em favor da abstinência sexual até o casamento, apesar de terem se sobressaído ao longo da discussão, por conta da forma como Laura e Mariana se colocavam, pareciam não ser corroborados por outros jovens, como Pedro, Lia, Renata e Camila, que silenciavam diante de tal questão em diversos momentos.
Por isso, o episódio acima foi significativo. Ele marcou um momento em que, pela primeira vez, na discussão sobre o assunto, uma voz, emergente através da fala de Renata, desestabilizou o preceito moral de que transar antes do casamento não seria aconselhável, apontando que a maioria das pessoas não pratica isso no dia a dia atualmente.
Frente a isso, a interação teve andamento com a seguinte problematização:
JP: Mas o que que vocês acham disso, por exemplo, ao mesmo tempo que discutem que não é recomendável, que não pode, que o ideal é casar e depois ter relações sexuais, o ideal é que as pessoas não transem cedo, por que que as pessoas transam tão cedo e antes do casamento?
Camila: Porque as pessoas gostam...(interrompida por Mariana)
Mariana: As pessoas não têm o controle delas mesmas. Não... não..(interrompida por Pedro).
Pedro: A pessoa tem curiosidade, faz a primeira vez, vê que é bom e quer ficar lá. (risos, seguidos de uma pequena pausa na discussão)
JP: Então é bom?
Laura: Eu não sei, eu não sei. Mariana: Eu não sei ainda.
(Pedro ri e não responde, parecendo desconsertado com a pergunta. Laura e Mariana respondem à questão explicitamente, mas procurando evitar que a discussão prossiga. Enquanto isso, Camila, Lia e Renata cochicham e as três riem em seguida.)
Os posicionamentos em uma interação e os atos de fala que nela se estabelecem estão também relacionados à força social (ou força ilocutória) do ato de assumir determinada posição ou de atribuí-la a outrem (GUANAES; JAPUR, 2003; OLIVERIA; GUANAES; COSTA, 2004). Considerando a linguagem como prática, essa força social refere-se ao “poder
presente nos enunciados na construção das práticas sociais e de realidades conversacionais” (HARRÉ; VAN LANGENHOVE, 1999, apud GUANAES; JAPUR, 2003, p. 139).
Quanto a isso, a utilização do discurso religioso que preconiza a virgindade antes do casamento, de considerável força social, possibilitou com que Laura e Mariana se colocassem abertamente na discussão, mesmo se reconhecendo como minoria nos dias atuais. Por outro lado, a potência com que circulava o sentido negativo para a relação sexualidade- juventude, respaldado por tal discurso, pode também ter silenciado outros participantes ou obstruído um trânsito maior de sentidos e vozes que ligassem a sexualidade ao prazer, como sugere o enunciado de Pedro, no final do episódio.
Vale ressaltar que, no caso do episódio acima, o silêncio acompanhado de risos, por exemplo, parece ter sido a forma encontrada por alguns para se posicionar diante dos demais, sem se contrapor a um discurso e a uma posição legitimados socialmente. Tal observação se coaduna com o que salientam Costa e Vasconcelos da Costa (2007, p. 105- 106), segundo as quais “o silêncio também é produtor de significações, à medida que seleciona, recorta o que e quem deve ser calado em relação ao que está sendo dito [...]”.