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4. Discussion

4.1. Methodological considerations

As reflexões de Vigotski (2000) e Bakhtin (2002; 2004) apontam que a constituição do ser humano se delineia num cenário de significações marcado por agitações, conflitos, reciprocidades, mutualidades e transformações incessantes (SIRGADO, 2000; MOLON, 2003). Forjadas em meio às negociações de posições nas interações sociais, as subjetividades se constituem por composições advindas de tensões entre elementos de convergência e divergência, semelhanças e diferenças, aproximação e afastamento em relação ao outro.

Essas questões permitem pensar a formação subjetiva como “drama” (VIGOTSKI, 2000; SIRGADO, 2000), isto é, como tensão constitutiva deflagrada em cada pessoa e nas interações sociais em razão do dinamismo característico da relação Eu-Outro. Tais “dramas” escancaram-se nos momentos de conflitos entre interlocutores no âmbito das interações sociais, em meio às negociações de posições e às significações em torno de determinadas temáticas.

Algumas situações de conflito e embates de intenções e desejos nas interações do grupo de discussão também foram exemplos desse processo “dramático” que envolve a

constituição subjetiva e a negociação de posicionamentos dos participantes entre si. Durante a terceira oficina, destinada à discussão sobre saúde mental, Lia e Carla protagonizaram os momentos que melhor ilustram a existência de conflitos nesse processo de negociação de sentidos sobre o tema e de posicionamentos frente aos demais.

Na atividade discursiva de construção de cartazes em torno do tema saúde mental, feita em dois pequenos grupos, deixei claro para os participantes que cada grupo poderia se organizar como preferisse para a feitura dos cartazes. Nessa atividade, um conflito se estabeleceu em um dos subgrupos, formado por Lia, Carla, Pedro e Renata. Lia e Carla divergiram quanto à inclusão de uma fotografia no cartaz e quanto à maneira de fazê-lo. Por conta disso, Lia desistiu de continuar a atividade, afastou-se do grupo e se sentou na cadeira onde estava antes da atividade se iniciar. Carla, por sua vez, continuou a realizar a atividade.

A partir desse conflito, houve uma mudança na organização do subgrupo para a construção do cartaz: se antes buscavam trocar ideias para chegar a um consenso sobre o que constaria nele, depois do entrevero cada um colocava no cartaz o que quisesse e como bem entendesse, sem discussão com os demais. No momento de apresentação do cartaz para os demais participantes, Renata, Pedro e Carla se colocaram a postos, enquanto Lia permaneceu sentada em sua cadeira, reiterando sua desistência de participar daquele subgrupo.

O conflito entre Carla e Lia recomeçou após a apresentação dos cartazes, enquanto discutíamos sobre o tema “saúde mental”. Mais precisamente, o conflito se reiniciou depois que Lia passou a se colocar na discussão, apresentando um contraponto ao argumento lançado por Carla, após ter permanecido calada desde a realização da atividade de subgrupos.

JP: Se saúde é um estado... se pra definição da Organização Mundial de Saúde saúde é um estado de bem estar físico, mental e social, aí eu pergunto, é possível, no nosso dia a dia, a gente ter um estado de bem estar pleno nessas três coisas ou esse bem estar é um utopia, uma ilusão?

Carla: É, eu acho.

JP: Você acha que é possível ter um estado pleno.. é... esses três aspectos ao mesmo tempo?

Lia: Eu acho que depende muito do momento... Laura: Exatamente, foi o que a gente disse.

Lia: Foi como eu disse... uma boa saúde depende do momento e do dia. Porque a pessoa nem sempre... todo dia a gente tá legal. Tem dia que ta bom, tem dia que ta ruim.

JP: Aí... aí... porque assim, ó... é legal ter essas diversidade de opiniões, se fosse uma coisa óbvia a Organização(referindo-me à OMS) não dava essa definição... Carla: A questão dos distúrbios, é...do humor também pode ser tido como saúde mental? Porque...

JP: Transtorno mental.

Carla: Porque, aqui, no caso, a gente vê assim... não quando eu ver essa pessoa fazer aquilo [inaudível], uma pessoa pega, de uma hora pra outra, se fecha, se fecha e fica

na dela, as outras pessoas continuam fazendo o que estavam fazendo, isso é um exemplo clássico de distúrbio mental, que é a mudança de humor(tom irônico) (Parecia estar fazendo alusão à atitude de Lia na elaboração do cartaz, quando desistiu de realizar a atividade e se afastou do grupo para sentar na cadeira).

JP: A mudança de humor, mas...

Pedro: Tu ta me chamando de doente mental? Porque eu mudo muito de humor, como eu falei...(risos)

Lia: Não é doente mental, Pedro!(tom bravo)

JP: É, na verdade os transtornos de humor é um... é um tipo de transtorno mental). Mas não é a questão meramente de mudança de humor. É a mudança brusca de humor de forma contínua, você vive mudando de humor de forma brusca. Não é que a gente... Nós temos nossas mudanças de humor e nem por isso nós somos vistos como pessoas que temos transtornos de humor.

Carla: Eu tô dizendo assim, você ta aqui conversando com uma pessoa, beleza, tudo bem. Ela tá, num determinado período de tempo, ela ta ótima com você, mas depois ela nem olha na tua cara, ela nem sequer diz um oi pra você, é totalmente grossa, ignorante.

(novamente, parece estar se referindo a situações como a que aconteceu na atividade do cartaz, entre ela e Lia)

JP: Aí pra você isso já é um sinal de não... de um transtorno mental(dirigindo-me à Carla). Eu acho que depende... Não dá pra dizer assim de uma forma geral, sem saber um pouco da história da pessoa, da situação específica, da relação das pessoas envolvidas na situação e tal...Mas isso acontece muito e nem por isso as pessoas envolvidas têm transtornos mentais.

Nesse caso, de forma sutil, o entrevero entre Carla e Lia emergiu após Lia ter respondido minha indagação de forma contrária à resposta de Carla. Reportando-se ironicamente aos transtornos de humor, Carla evocou o discurso científico para legitimar seu ponto de vista sobre o episódio do cartaz e para posicionar Lia no grupo de uma forma diferenciada, como a responsável pelo conflito.

Assim, destaco a plurivocalidade do discurso de Carla, que, em réplica à minha pergunta, fez coro às vozes sociais que localizam em psicopatologias individuais as causas dos conflitos interpessoais, vozes, inclusive, que buscam afirmação na autoridade do pesquisador-psicólogo. Com isso, Carla evocou, no discurso científico, a sua insatisfação em torno do ocorrido no seu subgrupo, o que também revela a apropriação por parte dos jovens do discurso científico em torno dos diagnósticos dos transtornos mentais.

Após esse episódio, ainda na discussão sobre o tema “saúde mental”, o imbróglio entre Lia e Carla se evidenciou novamente. Desta vez, as duas se colocaram de modo divergente no grupo, quando discutíamos sobre como a sociedade lidava com o sofrimento. Nessa discussão, Pedro defendia a ideia de que a sociedade estimulava a expressão do sofrimento; para ele, prova disso eram os programas televisivos que abordavam os dilemas vivenciados no cotidiano. Carla retomou o exemplo dos programas televisivos trazido por Pedro para se colocar veementemente contrária ao seu ponto de vista: segundo ela, tais

programas ilustravam como nossa sociedade explorava o sofrimento alheio. Lia, por sua vez, posicionou-se diametralmente oposta à Carla, sendo acompanhada por outros participantes.

Segue abaixo a transcrição desse episódio:

JP: E aí, deixa eu perguntar uma coisa pra vocês. Então se, pelo que a gente ta colocando aqui, se o sofrimento também faz parte da saúde, e a questão é como a gente lida com ele, eu queria fazer uma pergunta: Como é que vocês acham que a sociedade lida com o sofrimento? No nosso dia a dia como é que o sofrimento é encarado?

Laura: Eu acho que o sofrimento é encarado como bicho de sete cabeças.

Lia: Às vezes a gente que é egoísta demais. Tem gente que vê a pessoa sofrendo e podendo ajudar, “não, eu não vou ajudar”.

Laura: -“O problema é dela, né” (complementando Lia). Lia: Isso é egoísmo!

JP: Mas a nossa sociedade é uma sociedade que permite a expressão do sofrimento? Ou é uma sociedade que reprime a expressão do sofrimento?

Lia: Acho que tá dividido.

JP: O que vocês acham?(perguntando aos demais)

Pedro: Eu acho que ela não reprime não. Até em programas (de televisão) passam apresentando o sofrimento, a tristeza das pessoas..(Carla interrompe).

Carla: Eles tão é ganhando em cima da tristeza e do sofrimento dos outros. É só querendo audiência e dinheiro pra si (em tom incisivo)

JP: Então tu (referindo-me a Carla) acha que é uma sociedade que faz uso do sofrimento pra uma outra coisa, não pra..(Carla interrompe).

Carla: Faz uso do sofrimento pra ganhar em cima dele! (em tom incisivo) JP: Mas tu acha que é mais... (falando pra Pedro) (Lia interrompe)

Lia: Como também tem gente que ajuda. Tem gente que vê, ganha em cima disso, mas também tem gente que ajuda. A gente coloca, assim, a televisão como o que passa só coisa ruim, mas não só passa coisas ruim como também passa coisas boas. Carla: É cobrir um santo e descobrir o outro. Nossa, vamo falar aqui do Gugu, De volta pra minha terra. “Nossa como o Gugu é bom, eu quero voltar pra minha terra, vou ligar pra ele”. Ele vai passar aquilo ali no programa dele, vai ganhar em cima da tua história, as pessoas vão se sensibilizar, “Nossa como o Gugu é bom, levou aquela pessoa de volta pra terra dela” (Ironia). Aí mostra onde que a pessoa morava, uma casa miserável, de somente um cômodo, uma cama em cima da outra, um monte de menino (tom indignado)

Lia: mas ele num tá ajudando no sofrimento dela?(pergunta para Carla, em tom incisivo) Ela estava sofrendo porque estava fora, estava longe da sua família, ele justamente ajudou ela a voltar. Isso não é... pode ser marketing...

Laura: É a consequência, né.

Pedro: Possivelmente ele deve ter feito, assim, só pra ganhar audiência e dinheiro, mas tem aquelas pessoas que não fazem isso.

Lia: Isso faz parte, faz parte do marketing, ele ganhou em cima de uma coisa que ele podia também ajudar.

Pedro: É tipo como se ele tivesse matando dois coelhos numa cajadada só. Laura: Exatamente.

Carla: Como muitas ONGs não precisam do governo nem da mídia em si pra ajudar uma pessoa. Como o Lar Torres de Melo ia fechar. O que que ele fez? Ele foi na mídia pedir ajuda? Ele foi pra programa de televisão? Não. O Lar Torres de Melo, o que foi que ele fez? Ele começou uma campanha pedindo ajuda, sim, mas pros moradores ali do centro. Começou com um bazar, depois começou com tampas de garrafinha pra depois vender, fazer artesanato, foi assim. Não foi em cima de... Lia: Mas uma coisa eu digo: a gente não sabe o que passa nos bastidores, a gente não sabe o que ele sente, não sabe o que ele quer realmente. Se ele quiser mesmo ajudar a pessoa? Não é questão de “ah, ele vai ganhar em cima disso”, não é questão disso (contrapondo-se ao ponto de vista apresentado por Carla).

Carla: Se ele quisesse realmente ajudar, ele ajudaria um ONG. Uma ONG não ajuda somente uma pessoa por semana, ao domingo, pra mostrar pra população “olha como eu sou bom”. Não, uma ONG ajuda várias pessoas ao mesmo tempo.

Pedro: Mas se ele vê que ele pode ajudar e ganhar em cima disso, ao mesmo tempo, ele vai fazer o que é melhor pros outros e pra ele.

Carla: Então, é isso que eu tô falando.

Pedro: Mas tu ta dizendo que ele só ta pensando no lado dele, “eu ganho em cima disso”

Carla: Não, não só dele. Ele ta ajudando, mas ele ta ajudando em cima do sofrimento de uma pessoa, justamente.

(interrompo a discussão para que voltemos para a questão inicial)

Esse episódio escancarou definitivamente o conflito entre Lia e Carla, significando um momento de descontinuidade nos processos de negociação das interações do grupo. A entonação assertiva com que Carla sustentava seu ponto de vista e formulava suas contra- argumentações iam de encontro à forma como os participantes costumavam negociar posicionamentos no grupo. Nas duas primeiras oficinas, os participantes ou entravam em consensos ou expunham suas diferenças sem se posicionar litigiosamente frente aos demais.

A situação em destaque teve consideráveis ressonâncias nas interações subsequentes daquele grupo. Em alguns momentos das oficinas seguintes, as participantes faziam menção a ele, denominando-o de “Discussão do Gugu” - em alusão à polêmica que girou em torno de como os programas televisivos lidavam com o sofrimento humano.

Assim, interessante foi observar como os demais participantes do grupo se posicionavam diante daquelas situações. No quinto encontro, houve comentários sobre o referido conflito Carla e Lia. Tal comentário se desencadeou quando, no final do encontro, em função de que muitos não estavam presentes, pedi para que as pessoas presentes naquele dia me ajudassem a ratificar para os demais a data do próximo encontro.

JP: Então vocês avisem pra Mariana, pro Pedro, o Ronaldo, quem mais? Camila: O Douglas

JP: O Douglas, a Carla... é...

(Camila, Laura e Renata olham para Lia e riem. Lia baixa a cabeça e fica séria) JP: Por que que vocês riem, por que que vocês riem? Ainda ta... ainda ta faiscando aí? (pergunta pra Lia)

Lia: Não sei (em tom irônico, risos).

Camila: Não, é porque a amizade delas duas, Lia e Carla, né...(ironia)

Lia:Nã (responde à Ironia de Camila). Eu nunca falei com aquela menina. É porque no debate, né, gerou conflitos, sei lá, entre a gente, né, fazer o que?

Renata: É porque ela e a Carla, ne, tiveram ideias diferentes (explica para mim) JP: Mas é bom, também conviver com as diferenças, né.

Renata: Não, mas num é questão de ideia diferente.

Camila: Né não. Eu acho o seguinte, não era nem mais pra essa Carla aí ir (Tom incisivo, referindo-se às próximas oficinas)

(risos)

Camila: Eu acho assim, ó, porque ela tem a ideia dela, ela tem a opinião dela e a nossa (faz um gesto que circunscreve os participantes do grupo) é diferente. Ela quer que a gente tenha do mesmo jeito que a dela! (em tom incisivo, olhando para mim). Renata: Ela poderia, assim..(interrompida por Camila).

Camila: Aceitar (complementa Renata).

Renata; (continua sua argumentação) Não, não é questão de aceitar, tipo, encaixar a ideia dela com as demais. Mas, não, ela quer que a dela seja...a dela, pronto, acabou- se, ponto final. Aí é por isso que às vezes rola umas faisquinha (risos).

Laura: Não é que ela queira que toda...(interrompida por Lia)

Lia: Defender a amiga. (ri)se refere a Laura, que é a melhor amiga de Carla)

Laura: ... mas, assim, a Carla, tem um ponto dela eu é muito interessante, que eu admiro muito nela, ela tem o ponto dela aqui, por mais que você queira mudar se ela... pra ela for certo, pode falar, “desfalar”. Ela tem a opinião própria..(interrompida por Lia).

Lia: Por isso que ela não deu certo comigo, porque eu também tenho a minha, por isso que rolou um conflito entre a gente. (risos)

Laura: Às vezes, ela pode chegar até mudar, pode até mudar o ponto dela se ela ver que o dela não dá, mas é raro.

JP: Mas teria realmente algum problema se ela continuasse vindo? (pergunto ao grupo)

(O grupo responde que não)

JP: Então, se vocês virem ela primeiro, dêem o toque do próximo encontro.

Tendo em vista esses e outros momentos em que aquela situação veio à tona entre os participantes, a repercussão do conflito nas negociações de posicionamentos foi, de um lado, a reafirmação de Lia como referência para o grupo e, de outro, a exclusão de Carla, vista como “autoritária” e “briguenta”. Coincidência ou não, Carla faltou aos três encontros que sucederam a oficina sobre “saúde mental”.

Os posicionamentos que se direcionam para excluir Carla do grupo, identificados, sobretudo, na fala de Camila, relacionavam-se com posições identitárias estabelecidas socialmente e com o aprendizado de valores que contribuem para a construção de relações excludentes. Por sinal, segundo Menezes, Arcoverde e Libardi (2008, p. 206), o estilo de sociabilidade atual “está marcado pela lógica moderna de afastamento dos diferentes sem a devida problematização da base de desigualdade social que sustenta a aversão a tais diferenças”.

No episódio, a argumentação de Camila sobre Carla, endossada por Renata, dava pistas de que a negociação de posicionamentos estava pautada na preferência pela relação de “espelhismo” (HASSOUN, 1998, apud MENEZES; ARCOVERDE; LIBARDI, 2008). Isto é, tal negociação parecia se basear numa postura que dificulta a convivência com o diferente, com o estrangeiro.

Destarte, os sentidos criados/veiculados/negociados a respeito dos temas das oficinas, bem como as vozes que se presentificavam naquelas interações, já me davam indícios para localizar quem, para os jovens em questão, corporificava a figura do estranho: a

jovem grávida, o jovem que usa drogas, o jovem “rebelde”. Aquela situação permitia pensar que Carla representava uma figura de alteridade para o grupo, uma vez que sua suposta “intransigência” a aproximava, por exemplo, dessa figura de “jovem rebelde”.

Semelhante à Carla, Pedro também era uma figura de alteridade em muitos momentos. Além de ter sido o único menino presente em muitas oficinas, Pedro costumava trazer contraposições aos pontos de vista apresentados pelos demais, não se enquadrando à posição de jovem “bom moço”.

Apesar desta semelhança, havia uma tênue distinção na forma como Pedro e Carla eram frequentemente posicionados pelos demais na interação. Pedro não gerava maiores incômodos aos demais do grupo, pois ele, ao mesmo tempo, era uma figura que divertia o grupo e que, em vários momentos, demonstrava-se flexível para mudar de opinião em função dos argumentos dos colegas.

Dessa forma, observa-se a construção de uma negociação em torno dos