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1. Introduction

1.3. Clinicopathological classification of pancreatic tumors

A discussão sobre subjetividade, assim como a noção de sujeito, é oriunda da modernidade e coincide com o momento histórico de constituição da Psicologia como Ciência (FIGUEIREDO, 1991). Nesse momento, transformações sócio-político-econômicas ligadas à constituição do modo de produção capitalista acarretaram a ascensão do ser humano como centro do universo e como indivíduo autônomo capaz de se “assenhorar” do seu destino (GONÇALVES, 2001) 30.

No entanto, uma incursão nas produções a respeito da temática indica uma variedade de enfoques historicamente construídos sobre esse assunto que provém da reflexão

30 Na modernidade, surge um modo naturalizado de pensar a subjetividade como uma experiência individual, privada e universal relativa a um sujeito apriorístico e soberano, imune às transformações sócio-históricas. Em que pese o fato de que a edificação da noção de sujeito moderno ter sido atravessada por aspectos econômicos e culturais, sua formulação teórica se deu por meio de consistentes aportes filosóficos. Assim sendo, o conceito moderno de sujeito teve como marco filosófico paradigmático as considerações de Descartes, especialmente no tocante ao cogito. Segundo Delari Junior (2000), a noção de subjetividade geralmente vem acompanhada de um subjetivismo cujos horizontes são um sujeito transcendental e uma subjetividade circunscrita ao indivíduo. Diante de tal constatação, de acordo com o autor, pode-se dizer que o subjetivismo inicia-se com o cogito, ergo

sum de Descartes, no qual se tem uma supervalorização da razão como condição para a existência e,

filosófica, mas que atrai bastante o campo “psi”. Assim, cumpre a seguinte colocação: em meio à arena de luta em torno dos signos sujeito e subjetividade, de que maneira entendê-los a partir da interlocução com Vigotski e Bakhtin?

Conforme Delari Junior (2000), Molon (2003) e Rey (2003), Vigotski não tratou do tema da subjetividade explicitamente. Todavia, o assunto pode ser tangenciado na sua obra quando o autor aponta as relações sociais como princípio explicativo da condição humana, deslocando o foco de interesse da investigação sobre o psiquismo para o plano culturalmente constituído da sociabilidade.

Apoiado no método dialético e nas reflexões sobre os processos de mediação simbólica, Vigotski (2000, p. 33) afirma que o ser humano é o “conjunto de relações sociais, encarnado no indivíduo”. Logo, um eixo que perpassa a abordagem vigotskiana relativa aos processos de mediação simbólica é o lugar de destaque da alteridade, claramente presente quando Vigotski (2000, p. 24-25) escreve que

A personalidade torna-se para si aquilo que ela é em si, através daquilo que ela antes manifesta como seu em si para os outros. Este é o processo de constituição da personalidade. [...] A relação entre as funções psicológicas superiores foi outrora relação real entre pessoas. Eu me relaciono comigo tal como as pessoas se relacionam comigo.

Dessa forma, em sendo as funções psicológicas produzidas por e em relações sociais, a pessoa é vista como uma unidade de múltiplas relações que continuam operando no seu funcionamento singular, ainda que diferentemente das dinâmicas interpessoais (VIGOTSKI, 2000). Vigotski (2000), então, produz fraturas na concepção moderna de “indivíduo”, ao lançar mão da expressão “pessoa social”. Por isso, a concepção de sujeito alinhavada por Vigotski remete mais a uma multiplicidade historicamente erigida que a uma unidade concernente à ideia tradicional de “sujeito psicológico”31.

31 Segundo Delari Junior (2000), as concepções de sujeito e de subjetividade, pensadas à luz do que versa

Vigotski sobre a gênese histórica da consciência e o papel fundante da linguagem na condição humana são contrapontos aos conceitos de “sujeito” e “subjetividade” proeminentes na modernidade. Enquanto, sob um prisma moderno, o “sujeito” seria “função ou instância reflexiva individual” (DELARI JUNIOR, 2000, p. 17), marcado por sua unicidade (SIRGADO, 2000), e a “subjetividade” seria “dimensão inalienável e intransferível” do “movimento de ser sujeito” (DELARI JUNIOR, 2000, p. 17), Vigotski concebe o ser humano como uma multiplicidade radicada no fato de ser a pessoa “um agregado de relações sociais” (VIGOTSKI, 1999).

Assim como na perspectiva histórico-cultural, para Bakhtin (2002) o sujeito também se constrói em tramas relacionais. A noção bakhtiniana de sujeito está imbricada à sua concepção de linguagem como uma prática social dialógica, como mostra o trecho abaixo:

Essa noção de sujeito [relacional e ativo] implica, nesses termos, pensar o contexto complexo em que se age, implica considerar tanto o princípio dialógico – que segue a direção do interdiscurso, constitutivo do discurso, mas não se esgota aí -, como os elementos sociais, históricos, etc. que formam o contexto mais amplo do agir, sempre interativo (que segue a direção da polifonia, isto é, da presença de várias “vozes”, vários pontos de vista no discurso, que naturalmente podem ser escamoteados, embora não deixem de estar presentes) (BRAIT, 2005, p. 23)

Também a respeito da perspectiva dialógica de Bakhtin (2002), a alteridade torna- se condição sine qua non para a constituição do sujeito. Isso, por sua vez,

[...] leva Bakhtin a recusar tanto um sujeito infenso à sua inserção social, sobreposto ao social, como um sujeito submetido ao ambiente sócio-histórico, tanto um sujeito fonte de sentido como um sujeito assujeitado. [...] Só me torno eu entre outros eus. Mas o sujeito, ainda que se defina a partir do outro, ao mesmo tempo o define, é o “outro” do outro (BRAIT, 2005, p.22).

Para Bakhtin (2002, p. 66), “em todo ato de fala, a atividade mental subjetiva se dissolve no fato objetivo da enunciação realizada, enquanto que a palavra enunciada se subjetiva no ato de descodificação que deve, cedo ou tarde, provocar uma codificação em forma de réplica”. Logo, essa perspectiva teórica advoga que a dialeticidade das vidas “interior” e “exterior” se renova e se efetiva em toda enunciação.

Portanto, também para Bakhtin (2002, p. 59), a própria pessoa pode ser vista como uma forma de sociabilidade, como a seguinte citação sugere:

Todo produto da ideologia leva consigo o selo da individualidade do seu ou dos seus criadores, mas este próprio selo é tão social quanto todas as outras particularidades e signos distintivos das manifestações ideológicas. Assim, todo signo, inclusive o da individualidade, é social. [...] Nesse sentido, meu pensamento, desde sua origem, pertence ao sistema ideológico e é subordinado a suas leis.

Com Bakhtin (2002, p.49), inclusive, a subjetividade pode ser pensada como um espaço de interconstituição entre pessoa e contexto, visto que

[...] o psiquismo subjetivo localiza-se no limite do organismo e do mundo exterior, vamos dizer, na fronteira dessas duas esferas da realidade. É nessa região limítrofe que se dá o encontro entre o organismo e o mundo exterior, mas este encontro não é físico: o organismo e o mundo encontram-se no signo.

À luz da perspectiva vigotskiana, a subjetividade também pode ser pensada como um “entrelugar” entre o público e o privado, sendo a linguagem um amálgama entre ambos. Assim, “a subjetividade não pode ser confundida nem com os processos intrapsicológicos nem com os processos interpsicológicos, mas é através dela e nela que se processa a dialética da relação interpsicológica e intrapsicológica” (MOLON, 2003, p. 119).

Na linha histórico-cultural, Delari Junior (2000) defende que a subjetividade é um conjunto heterogêneo de condições que possibilitam que instâncias individuais e/ou coletivas possam emergir como território existencial autorreferencial32, em adjacência ou em relação de delimitação com uma alteridade também subjetiva. O enfoque na mediação dos signos, a partir de Vigotski e Bakhtin, constitui-se num caminho promissor para que a subjetividade seja concebida como um processo permanente de produção.

Tal como conclui Delari Junior (2000, p. 46), a subjetividade passaria “a ser vista antes como uma ‘usina’ de interpretação e, portanto, de produção de sentidos”. Nessa mesma direção, Rey (2005, p. 33) define a subjetividade precisamente como “um sistema de produção e de organização de sentidos”.

Por meio desse enlace teórico, é possível deduzir que a subjetividade é constituída por mediações sociais, implicando a relação com o Outro a partir de processos dialógicos de significação. Por isso, a própria subjetividade pode ser pensada como dialógica e polifônica.

Sendo a subjetividade um processo que se dá em “entrelugares”, de que maneira investigar como as interações entre os participantes do grupo de discussão operam nesse processo?

Uma das vias analíticas - seguida no capítulo anterior - foi a compreensão de sentidos que foram produzidos/veiculados/negociados sobre os temas e a análise das vozes sociais que atravessam as interações. Além disso, as negociações de posicionamentos dos participantes uns frente aos outros, no curso da discussão sobre os temas das oficinas, também fornecem indícios das implicações daquelas interações em processos de construção subjetiva.

No tocante a este ponto, Harré e Van Langenhove (1999) propõem a noção de posicionamento para o exame de interações sociais como práticas discursivas onde se dá a produção de si e do outro. Segundo Oliveira, Guanaes e Costa (2004, p. 75), a noção de posicionamento consiste num importante recurso

32 Delari Junior (2000) chama atenção para a questão de que este “conjunto de condições” diz respeito à materialidade das experiências de um ser humano situado num contexto histórico e cultural que se caracteriza por relações de alteridade semioticamente constituídas.

[...] para a análise do discurso social, a partir da associação da psicologia ao estudo das práticas discursivas. O seu foco é o entendimento de como o fenômeno psicológico se produz nas práticas discursivas, nos episódios sociais que toma lugar em nossas relações cotidianas. Nessa perspectiva, o conceito de posição se destaca, sendo considerado por esses autores como uma alternativa dinâmica a uma versão mais estática do conceito de papel, e dando visibilidade aos processos interativos que sustentam a produção de sentidos

Desde a introdução da noção de “posicionamento” nas ciências sociais, em meados do século XX, ela se direciona “ao entendimento do modo como as pessoas se constroem discursivamente, na relação com os outros, e às funções sociais de assumir para si mesmo ou atribuir a outros determinadas posições” (OLIVERIA; GUANAES; COSTA, 2004, p. 76). É necessário esclarecer que “posição”, aqui, diz respeito aos lugares assumidos, atribuídos e negociados pelo sujeito na interação. Em outros termos, constitui

[...] um grupo complexo de atributos pessoais genéricos, estruturado de vários modos, e que tem um efeito limitante sobre as possibilidades de ações interpessoais, intergrupal ou mesmo intrapessoal, através de algumas designações de direitos, deveres e obrigações a um indivíduo, conforme sustentado pelo grupo (HARRÉ; LANGENHOVE, 1999, apud GUANAES; JAPUR, 2003, p. 139).

Logo, com tal noção, ganham inteligibilidade os processos a partir dos quais certas tramas, intencionais ou não, são postas em movimento nas interações sociais. À semelhança do que se pode pensar com Vigotski e Bakhtin, a noção de posicionamento, para Harré e Longenhove (1999), pressupõe que a linguagem é uma prática e que a constituição subjetiva se dá no embate ético que se desenha em relações interpessoais, devido ao confronto de diferentes posições sociais dos participantes do discurso constituído ideologicamente.

Considerando as negociações de posicionamentos entre os participantes do grupo de discussão, destacarei estes aspectos ao longo dos próximos tópicos: 1) as negociações de posicionamentos entre professor e estudantes; 2) as negociações de posicionamentos entre os jovens; 3) os conflitos entre os participantes decorrentes da produção de sentidos sobre os temas e dos dramas – embates de intenções e desejos – que eram ali criados (VIGOTSKI, 2000); 4) o processo a partir do qual os participantes avaliaram seus posicionamentos.

4.2. Negociação de posicionamentos entre professor e estudantes nas atividades