As turmas de rio chegam no dia primeiro de maio e trazem consigo um número flutuante de canoas e uma geleira com capacidade de 3 a 5 toneladas, que de três em três dias, leva o pescado congelado até Soure, ou o que é mais freqüente até Belém.
Os pescadores artesanais comerciais das comunidades negras rurais que vão em grupos familiares (filhos, irmãos, cunhados) pescar nas águas dos rios de Soure e Salvaterra, costumam passar toda a safra nestes ambientes, organizados em turmas de 20 homens, podendo chegar ao número de 50 em uma Barraca (este número é rotativo). A Barraca, descrita na literatura como feitoria, não é mais coberta por palha e sim feita de armações de madeira e coberta por lona. È sob ela que os trabalhadores se abrigam do sol, do cansaço, das chuvas e dos perigos da mata e das águas (fotografia 9). Eles precisam estar atentos a onça e das águas precisam ter cuidado com as piranhas manga-rosa (Serrassalmus nattereri), os poraqués (Electrophorus electrius) e os jacarétinga. Mas o maior perigo não é nenhum animal selvagem ou misura67 e sim as balas dos vigias dos donos de fazenda que tem por prática proibir o acesso destes trabalhadores à margem do rio.
Segundo Thé; Madi; Nordi (2003), em estudos realizados com pescadores artesanais do alto-médio rio São Francisco, o ato de montar barra é uma das principais estratégias de pesca, desenvolvida pelo pescador artesanal que se caracteriza pela permanência de grupos de pescadores e pequenos ranchos localizados próximos aos “pontos de pesca”. Semelhante ao que ocorre no rio São Francisco, as turmas de rio de Salvaterra acampam na beirada do rio,
66 No tópico que relata as rotas de produção da pesca, estão algumas reflexões sobre esta relação.
67 São espíritos ou fantasmas das mais variadas formas. Na obra “A pesca no Rio Amazonas” Smith (1979, 106) relata um fato onde um homem avistou um fantasma enquanto pescava em um lago a 50Km abaixo de Itacoatiara e como conseqüência ficou enfermo por um mês até que fora tratado por um curandeiro.
elegendo um lugar central que facilita o acesso aos pontos de pesca, diminuindo o tempo de busca e evitando a sobreposição de espaços entre grupos de pescadores, diminuindo assim as possibilidades de conflito.
Durante a coleta de informações verificou-se que, embora a turma de Barro Alto tenha chegado antes da turma de Mangueira ao “ponto de pesca” próximo a Fazenda Bangu e tenha encontrado o lugar, aonde as barracas são montadas, desabitado. Eles não se apropriaram do lugar, por identificá-lo como de uso comum dos pescadores artesanais daquela comunidade68. Por isso, podemos afirmar que há regras locais e uma delas esta relacionada com o reconhecimento deste “lugar central” (Fotografias 9 e 10).
O fato de, usualmente, os grupos e os locais de acampamento das turmas mencionadas serem fixos, segundo Thé; Madi; Nordi (2003, p. 398) “reforça os compromissos coletivos que envolvam mecanismos de cooperação baseados na reciprocidade (p. ex. regras de convivência de acampamento e critério de partilha de peixe pesados)”, indicando também a posse dos pontos de pesca.
Os pescadores que acampam nos trazem informações da existência de sua territorialidade (THÉ; MADI; NORDI, 2003), onde cada grupo “tem um lugar certo pra pescar”. É preciso acrescentar que durante o trabalho de pesquisa no rio do Saco, além das duas turmas pertencentes às comunidades negras rurais estudadas, havia cerca de 10 geleiras de grupos de pescadores “de fora” dos quais não tivemos acesso, pois estes não permitiram que os entrevistassem.
Fotografia 9-Barraca das turmas de Mangueira desabitada, primeiro dia de campo. Foto de Luzia Betânia (2004).
68 A turma de Barro Alto se fixou a aproximadamente 1 Km de onde se estabeleceram, no dia seguinte, a turma de Mangueira.
Fotografia 10- Feitoria da turma de Mangueira, habitada por cerca de 20 homens, segundo dia de campo. Foto de Luzia Betânia (2004)
A falta de informações sobre os “forasteiros” nos proíbe cogitar o número de turmas. Elas não permaneciam por muito tempo na área, no máximo por um dia e não se estabeleciam em nenhum ponto, colocavam a rede de espera e subiam o extenso rio, quando nos aproximávamos com o barco e tentávamos nos comunicar não havia resposta. Podemos afirmar, entretanto, que era a primeira vez que estes barcos estavam pescando neste rio.
As modalidades de pesca e artes utilizadas pelos pescadores quilombolas de rio são diversificadas e distintas daqueles que trabalham no lago (quadro 4). No lago a modalidade de pesca mais freqüente é a do Borqueio, enquanto que no rio as práticas envolvem o uso do espinhel, da rede de escora ou de espera, da tarrafa e o paneiro de piranhar. Este último artefato é usado somente a noite para a captura exclusiva de piranha.
RIO LAGO
CANIÇO (LINHA-DE-
MÃO) ARPOAR (ARPÃO)
ESPINHEL BATIÇÃO PANERO DE PIRANHA (PIRANHAR) CANIÇO (LINHA- DE-MÃO) REDE DE ESCORA (MALHADEIRA) LANCEAR (REDE DE ARRASTO) SIRIRICA (VARA C/
ANZOL E ISCA) TARRAFA
TARRAFA
Quadro 4- Resumo de artes e/ou modalidades de pesca usadas pelas turmas de lago e de rio por pescadores artesanais comerciais e de subsistência.
Manescky (1990, p. 101), referindo-se a arte do pescador artesanal, relata que “o exame das diferentes modalidades de captura mostra que os pescadores são, de fato, dententores de um conhecimento bastante complexo”. Além destes conhecimentos é preciso que o mesmo possua alguns atributos psicológicos, como: ser corajoso diante dos perigos do rio, honesto e amigo. A atividade requer ainda que o pescador tenha força física suficiente para manejar as pesadas redes sob as águas. Todos esses atributos são obtidos a partir de longos aprendizados práticos, iniciados ainda na juventude.
O fato dos pescadores artesanais serem detentores de um conhecimento bastante complexo não os poupa da expropriação da maior parcela de sua produção. Maneschy (1990, p. 102) os descreve como “produtores mercantis, inseridos em um contexto de economia que os envolve, quando menos, pela esfera da circulação de mercadorias”.
Nas turmas de rio de Salvaterra, o pagamento é feito semanalmente ou na quinzena. Os companheiros aguardam a venda do peixe nos mercados distantes, e recebem seu dinheiro quando a geleira retorna à feitoria. As tabelas 3 e 4, apresentam dados sobre o total de peixes capturados por pescador em cada campanha e o ganho obtido por cada pescador. E a freqüência absoluta dessas capturas. Nas tabelas podemos visualizar dois grupos de espécimes capturados, um grupo denominado peixe de 5ª e outro chamado peixe de 1ª. Nas turmas de Mangueiras e Barro Alto, no ano de 2004, o preço pago ao pescador pelo peixe de 1ª era R$1,00 e o de 5ª R$0,60 centavos. È importante perceber ainda que estes valores referem-se a apenas um mês de captura de apenas um chefe e conseqüentemente de apenas uma geleira de 3t. Observemos as tabelas a seguir:
Tabela 3-Relação de captura/pescador e durante 6 campanhas na turma de Mangueiras do ano de 2004.