2. Teaching and learning pronunciation
2.1 New techniques related to teaching pronunciation
No geral, as pescadoras das comunidades negras de Salvaterra praticam, a “pesca de perto”. O relato de D. Noemi, agente de saúde e esposa de um arrendatário de lagos na comunidade de Mangueira, a seguir, revela ser a pescaria uma atividade praticada pelas meninas, desde tenra idade, com dez, onze ou doze anos de idade e também mostra a diferença sexual existente na prática pesqueira das famílias de sua comunidade. Ela percebe que as modalidades de pesca, realizadas pelos homens nos lagos e rios distantes da comunidade, são tão adaptadas ao ambiente como as das mulheres e ainda que elas são as únicas responsáveis pelo consumo desta proteína animal em suas famílias durante o verão. No inverno as mulheres não deixam de pescar, mas, em algumas comunidades, diminuem a freqüência, passando a se dedicar a outras tarefas produtivas ou do lar48.
Aqui nos rios e lagos aqui próximos eu sempre fui desde criança [...] mesmo porque a nossa situação não era fácil assim [...] eu tinha uns doze anos, eu já saia para pescar. Agente caia mesmo no lago [...] igual como eles caem pra lá [...]Agente não vai pra lá por causa da distância e mesmo a turma que vai pra lá é só homem. Sabe que homem não tem aquele cuidado [...] ele fala o que ele quer, na hora que ele quer.
48 Esta diminuição acontece não só por que os homens retornam para casa, mas também por que muitos lagos invadem os campos e os peixes se espalham nos campos e nas baixas e algumas comunidades como Salvá, por exemplo ficam isoladas pelas águas. Muitas famílias restringem-se ao consumo dos produtos disponíveis em seus quintais (geralmente árvores frutíferas, farinha, açaí, ovos e carne de porco). O inverno trás o isolamento e também doenças provocadas pela contaminação dos poços residenciais (ACEVEDO MARIN, 2005).
E a gente se sente constrangida no meio deles. Mas aqui no rio, no lago das fazendas próximas eu já fui muito.
Tipo de pesca de lá não é tanta diferença do que a gente faz aqui, só que o que a gente vai pescar aqui não é para a venda. È mais para o sustento [...] E esse que eles vão pescam lá, vai direto para Belém. E o que a gente pesca aqui já vem direto pra nossa casa. È a maneira de ajudar o marido que tão fora. A gente já procura aqui pra nós [...] e eles procuram pra vender (Informação verbal)49
Segundo Almeida (2002) as atividades da lavoura e da pesca são ditas extra- domésticas e por isso as mulheres, para praticá-las, encontram alternativas de realizá-las próximo as suas residências. A autora classifica estas ações como a “pescas de pequeno porte” e diz tratar-se de atividades como coleta de mariscos e pesca nos mangues a extração de caranguejo. Na comunidade de Barro Alto, em Salva Terra é possível observar estas práticas pela autora, no entanto, preferimos classificá-las como “pesca de perto” por entender a grande importância dessas atividades para a manutenção das unidades familiares, e o termo “pequeno porte” poderia soar como de “porte secundário”, intenção que a autora não possui, mas que é reinante na visão que o setor pesqueiro e os maridos possui das pescadoras. Precisamos ter cuidado com os termos e preferimos acatar as palavras de Lima (1999) que afirma ser preciso ter cuidado ao criar categorias já que identifica e cria identidades.
Almeida (2002, p. 94) referindo-se as atividades extradomésticas das mulheres das comunidades do nordeste paraense, afirma também que embora as pescadoras pratiquem diferentes tarefas este fato não representa a “inserção da mulher na categoria de trabalhadores, sendo suas atividades vistas como complemento por outras mulheres e pela comunidade”. Esta visão de atividade complementar é presente no discurso dos pescadores quando indagados sobre a participação das mulheres. Entretanto, quando entrevistamos mulheres como D. Noemi, de Mangueiras, D. Conceição de Barro Alto, as quatro irmãs da família Silva, de Caldeirão ou a D. Maria de Nazaré de Caetano (Siricari), podemos perceber a imediata a auto-identificação como pescadoras. Sobre a questão D. Conceição comenta: “Eu me sinto pescadora porque eu sempre acompanhei ele na pescaria dele e então eu aprendi, eu gosto, eu acho animação, até vir para o rio pescar. Quando aquele peixe vem no anzol eu acho muito animado” (Informação verbal)50
Contar as práticas destas mulheres marajoaras é tarefa melindrosa, pois suas experiências e suas atividades produtivas são diversas e complexas. Elas são múltiplas e assim como se auto-identificam pescadoras também assumem o título de domésticas, carvoeiras, criadoras, lavradoras. A pesca torna-se neste universo múltiplo uma das estratégias de
49Entrevista concedida à autora em (2004)
sobrevivência das famílias destas mulheres, por vezes, esta atividade torna-se a mais importante no que se refere à manutenção do consumo familiar. É o que vem ocorrendo nas comunidades pesqueiras de Mangueira, Pau Furado e Caldeirão, principalmente.
No período de verão, as mulheres das comunidades pesqueiras de Mangueira, Pau Furado e Caldeirão enfrentam adversidade e restrições alimentares sozinhas, pois seus maridos e filhos maiores de 15 anos estão pescando nas turmas de lago ou nas turmas de rio. É nesse período que as pescadoras artesanais de subsistência vão pescar sozinhas ou na companhia de amigas e primas. As mulheres de Mangueira, por exemplo, geralmente saem de casa às cinco horas da manhã para capturar peixes e camarões nos lagos de fazenda, principalmente no da Fazenda Valha-me-Deus e no lago da Fazenda São Pedro, que ficam a uma hora e meia de caminhada da comunidade.
A atividade pesqueira, praticada por homens e mulheres destas comunidades pesqueiras tem característica artesanal e sazonal. A sazonalidade é um fator marcante, pois a disponibilidade de alimentos obtidos nas praticas extrativas variam entre os seis meses de verão e os seis meses chuvosos. A alimentação das unidades familiares são afetadas e por conseguinte, as estratégias de obtenção de alimento muda de acordo com: a fartura ou a escassez de determinada fonte de recurso e da dinâmica produtiva destas comunidades. No relato de D. Noemi podemos perceber que há o peixe como recurso disponível nas proximidades da comunidade, mas falta à mão-de-obra masculina para obtê-lo e a mulher, às vezes, não pode substituí-la por não ser pescadora ou por estar impedida devido à necessidade de cuidar dos filhos pequenos. Na comunidade de Mangueiras os lagos da fazenda Valha-me- Deus e São Pedro ficam um pouco distante e esse fato impede que algumas possam praticar a pesca e cuidar dos filhos, ao mesmo tempo, como fazem as pecadoras de Barro Alto51
As pescadoras do povoado de Mangueira, que possuem filhos pequenos e cujos maridos trabalham nas “turmas de lago”, passam restrições e são obrigadas a comprar caro na taberna local, inserindo-se no ciclo de endividamento da pesca de longe. Nesta comunidade não há áreas para fazer o plantio da mandioca, por exemplo. Esta ausência não esta ligada a falta de terra e sim à presença maciça de caprinos, suínos, bovinos e bubalinos52, soltos na
51 Na comunidade de Barro Alto muitas mulheres realizam a pesca de perto, consumindo o peixe, o camarão e também o caramujo. As mulheres são as principais responsáveis pela obtenção deste grupo protéico para suas famílias.
52 É difícil saber qual destes rebanhos estão em maior número na comunidade. No entanto, podemos verificar pelos relatos que a presença do rebanho bubalino é a mais danosa por ser ela detentora de hábitos alimentares menos seletivo (comendo todo tipo de vegetal até mesmo roupas e redes de pesca) e também por possuir um corpo robusto que lhe confere a capacidade de transpor qualquer tipo de cerca, mesmo as de arame farpado.
comunidade. As famílias que lavram são obrigadas a arrendar lotes de terra dentro das fazendas próximas, como a fazenda Valha-me-Deus.
Alimentação no inverno é mais farta porque é nessa época que eles estão aqui. Na época do defeso estão aqui, eles pescam muito [...] no verão [...] tem família de pescador passando necessidade. O rancho não dura. Eles demoram muito para voltar. Tudo é caro. Nem sempre o pescador ganha muito. Às vezes o que ele ganha só paga a conta que a família fez na taberna (Informação verbal).53
No Barro Alto, no entanto, as restrições de plantio são menores e a pressão da pecuária não acontece como em Mangueira, onde há grandes campos ocupados de forma extensiva por aqueles rebanhos. Este quadro nos foi relatado por muitas mulheres, durante o II Encontro de Mulheres Quilombolas. D. Conceição, moradora de Barro Alto, por sua vez, nos afirma que:
Lá no Barro Alto nós não temos esse problema, pois nós trabalhamos também com a agricultura, com a roça. Então, quando nossos maridos saem, nós ficamos dando conta da agricultura, fazendo farinha, vendendo farinha ou trocando com alimento [...]. com peixe [...] com outro [...] já vende até no comércio pra comprar outro tipo de alimentação (informação verbal)54
Podemos afirmar que a divisão sexual do trabalho na pesca é mantida pela necessidade do alimento diário, pela necessidade da presença da mulher no ambiente doméstico, pela sazonalidade e pela auto identificação delas como pescadoras. Portanto é cotidiana a permanência das mulheres na pesca e na catação de marisco, sendo pouco freqüente sua presença nas “turmas de lago e de rio”. Nestas turmas encontramos um grupo de mulheres solteiras, sem filhos ou na companhia de filhos já adultos.