2. Introduction
2.3 Results and Implications
As perguntas formuladas com o intuito de identificar se os trabalhadores da coleta de resíduos possuem um trabalho com sentido na unidade de contexto „organização do trabalho‟ foram: O seu trabalho é rotineiro ou repetitivo? Você tem autonomia no seu trabalho? Sua atividade é pré-determinada? Você tem liberdade de sugerir uma ideia ou uma nova prática e ela ser utilizada pela empresa? Você acha seu trabalho difícil? Desafiador?
Conforme a Figura 9, a seguir,foi possível constatar que existem oito unidades de registro, que indicam o trabalho com ou sem sentido, de acordo com a diversificação, os desafios, as novas ideias e práticas e a autonomia para com o trabalho, sempre sob a percepção dos entrevistados.
Figura 9 – Dimensão organizacional do trabalho: Organização do trabalho
Fonte: Elaborada pela autora.
Ao serem indagados se o trabalho seria diversificado ou rotineiro, quase todos os trabalhadores o consideraram rotineiro e apenas um o considerou diversificado. De acordo com as entrevistas, tal evento só foi possível devido à concepção individual de rotina, na pergunta: O seu trabalho é rotineiro ou repetitivo?
O único entrevistado que não considerou seu trabalho rotineiro foi o Trabalhador 4 que disse: “Acho que não. Porque é o mesmo serviço só que de forma diferente”. Já sob
outra concepção do termo, quando perguntado se seu trabalho era repetitivo ou rotineiro, os trabalhadores relataram que sim, como o Trabalhador 1 disse:
É todo dia aquele mesmo serviço, com chuva ou faça sol. A gente tem que fazer a mesma coisa todo dia. Varre de manhã aqui e a tarde faz a mesma coisa. Passa na mesma rua, pegar a mesma sacola. Tem gente que joga o lixo hoje e a gente tá passando e joga o lixo fora. Assim que nós passa joga o lixo no mesmo canto de novo.
Quanto ao trabalho ser desafiador, 80% dos entrevistados concordaram com essa afirmação.“É desafiador. É perigoso. E os riscos tem de tudo. Quebrar uma perna, quebrar um braço, cair do caminhão e o carro passar por cima. Porque a gente anda atrás pendurado, né! E principalmente doença. No lixo tem de tudo.” (Trabalhador 1).
As dificuldades e os desafios também foram relatados por outros trabalhadores, como:
Muito. Não é fácil, porque tem dia que a gente não consegue nem levantar, porque seu físico tá tão cansado que: „oh meu Deus, mais um dia!‟ Quer queira eu ou não é cansativo, é duro, é árduo. Às vezes até a gente brinca que se quiser entrar em uma academia, entra na academia ecofor. É tanto que na seleção que eu fiz participaram 30 (trinta) e só fica um ou até nenhum.[...] É um trabalho árduo, difícil e também estamos arriscados a pegar enfermidades, doença incurável, por isso que temos esses 40%. A nossa coleta domiciliar, tudo que você imaginar a gente pega, desde fezes, rato, é muito perigoso! Teve pessoas que já faleceram, porque pegaram uma enfermidade e não se cuidaram. Eu sou bem sincero, se eu sentir uma dor eu vou logo prohapvida.(Trabalhador 2).
É difícil, desafiador e perigoso. É difícil, porque nem todo dia a gente tá 100%. Porque devido a semana puxada, se torna mais difícil, mais cansativo. E perigoso porque também às vezes muito carro e tem carro que não respeita. Nós tamo aqui com o lixo na rua e vai passar, eles não respeitam e passam por cima. Graças a Deus tem gente consciente, mas tem uns, é difícil! (Trabalhador 7).
Mesmo com todos os riscos envolvidos, 20% dos trabalhadores acham seu trabalho fácil, apesar de alguns o considerarem desafiador, por exemplo: “Num é que seja difícil, mas é preciso ter coragem. Desafiador ele é. Difícil ele não é não! Ele é fácil, mas se não tiver coragem para exercer é mesmo que nada!” (Trabalhador 3); “Difícil pra quem não sabe, mas pra quem já tá dentro, eu acho fácil.” (Trabalhador 5); “Difícil não é não. Mas é desafiador. O caba tá correndo todo dia. Tem muitos que entram aqui e não vai não. Pedem logo pra sair.” (Trabalhador 9).
Trabalhadores da coleta dimiciliar lidam de modo direto com material e situações que favorecem vários riscos ocupacionais, pois seu ambiente de trabalho é insalubre e ocasiona riscos a saúde, a segurança e o bem estar do trabalhadores. Entretanto, apesar do
potencial riscos, não significa que todo o pessoal exposto irá contrair uma doença profissional.
As formas de organização do trabalho representam um dos tópicos centrais para o entendimento do sentido do trabalho e para a compreensão de sua relação com os objetivos e realizações do trabalhador que vão refletir sobre sua concepção de trabalho.
Dejours (1992) conceitua organização do trabalho como a divisão do trabalho, o conteúdo da tarefa (à medida que ela se deriva), o sistema hierárquico, as modalidades de comando, as relações de poder e as questões de responsabilidade. O autor salienta que, para os trabalhadores darem conta da atividade estabelecida, corresponderem às expectativas da organização e não adoecerem, eles utilizam estratégias de enfrentamento contra o sofrimento,tais como conformismo, individualismo, negaçãode perigo, agressividade, passividade, entre outras.
Outra apuração que merece relevância trata das unidades de contexto „autonomia‟ e „novas ideias e práticas‟, que aparentemente deveriam ser similares em seus episódios, pois em geral ganham força quando há abertura por parte da empresa. Porém, enquanto a primeira aparece em apenas uma citação, o correspondente a pouco mais de 6% dos eventos, a unidade „novas ideias e práticas‟ aparece com um percentual de mais de 86% de ocorrências, como é possível constatar nos trechos a seguir:
Não! É pré-determinada. [...] Aqui na empresa a gente tem essa possibilidade de dar ideia, comentar. Nem que não seja assim do jeito que eles querem. Naquela hora eles, não assim é melhor e não dão o braço a torcer, mas depois voltam atrás e recorrem a nossa conversa. Principalmente da ideia de trabalho. Porque se for do jeito deles a gente roda muito. Roda, roda, cansa e faz, mas demora mais.E se for do nosso jeito e mais rápido. (Trabalhador 1).
Todo dia é o mesmo serviço, o mesmo setor. O que eles mandam. [...] Positivo, positivo (liberdade para sugerir uma nova práticas). Até o fiscal mesmo, sempre fala comigo e eu digo: “rapaz, não é querendo mandar na sua orientação não, mas se fizer assim, assim eu acho melhor pra empresa. Não é melhor pra mim é o melhor pra empresa. Aí ele concorda. (Trabalhador 5).
Não (tenho autonomia). Como eu disse, tem um fiscal e tem um analista. O analista bota nós no carro, no setor e o fiscal diz: “você vai pra tal canto hoje”. Sempre tem que ter alguém por perto pra dizer onde é que nós vamos. Se for assim, nós saia pra onde queria e ia pra onde tinha mais lixo, pra encher logo e ir simbora. [...] Às vezes sim (liberdade para sugerir uma nova práticas). Às vezes o fiscal manda eu fazer uma coisa e eu digo: “não má, deixa eu começar por tal canto que é melhor e exatamente porque a lixeira ta fechada a essa hora”. Principalmente dia de sábado tem uma lixeira que abre 8hs, ai nós sempre diz: “não, vamos começar desse lado”, ai ele entende e diz: “não, façam o que vocês acharem melhor”. Às vezes ele dá liberdade pra nós fazer o é melhor pra empresa, né! Porque nós não vamos passar duas, três vezes no mesmo canto, pra depois voltar de novo.Ai nós começa de um canto, pra fazer diferente. (Trabalhador 7).
É (pré-determinada). Mas no nosso setor, se a gente quiser fazer alguma coisa diferente pra melhorar o horário, pra cair o horário, a gente tem em partes autonomia para fazer de outras formas. Ou seja, você começa sempre naquela rua, aí: “não, vamos fazer diferente hoje”, aí a gente informa: “vamos fazer assim pra gente tentar fazer uma melhoria, e tal. (Trabalhador 14).
Tal acontecimento também ocorreu devido à associação que eles fizeram da palavra autonomia com autoridade ou com tomada de decisão dos cargos hierarquicamente superiores aos deles. Mas em várias falas foi possível identificar tal autonomia sendo exercida pelos trabalhadores, inclusive sugerindo novas práticas e ideias.
De acordo com Dejours (2007) e Mendes (2007), consideram a possibilidade do trabalhador, por não suportar o sofrimento, de transformá-lo em criatividade, o que possibilita a vivência do prazer no trabalho, beneficia o sujeito no registro da identidade e fortalece o psiquismo, funcionando como promotor da saúde.
Segundo Canholi Junior, et al (2016), o sentido do trabalho é possível por meio da transformação do sofrimento em prazer, pela utilização das competências e liberdades individuais. É necessário que a organização do trabalho propicie ao sujeito liberdade para organizar seu modo de trabalhar e desenvolver sua inteligência prática, no confronto com as dificuldades do trabalho, de modo que o prazer no trabalho é fundamental para a manutenção da saúde e da normalidade.
Na próxima subseção será analisada a unidade de contexto, relações interpessoais