Chapter 6 Data Analysis & Interpretations
6.4 Results of Exploratory Factor Analysis
“Também tínhamos vergonha da dificuldade que estávamos enfrentando.” Pietra
“Não, nós não contamos para ninguém, pois meu marido ficou muito mal quando soube da sua infertilidade. Foi um choque muito grande e decidimos que não contaríamos para não causar mais constrangimentos e futuras cobranças. Este é um segredo só nosso. Afinal de contas, ninguém precisa saber não é mesmo?” GD Um dos motivos que torna o espaço virtual tão convidativo para essas mulheres é o fato de lidarem com um tema tabu. Ao se apresentarem virtualmente e deixarem de comentar as dificuldades de ter um filho/a biológico/a com pessoas do seu círculo social, mantêm-se afastadas da estigmatização. Na sociedade brasileira, como na maioria das sociedades, a infertilidade, como constataram Barbosa (1999), Luna (2004), Héritiér (1996), Vargas (2002 e 2006), Tamanini (2003) e Thompson (2005), entre outros/as, é um marcador social que define uma identidade depreciada, um isolamento social e um sentimento de se estar ‘fora do lugar’ como se percebe nas falas abaixo:
“Meninas, é só um pequeno desabafo: domingo fui à missa. No final, o padre chamou todas as mães no altar para homenageá-las. Quando olhei ao redor, a igreja estava praticamente vazia. Permaneceram nos bancos apenas as crianças, os homens... e eu.” GD
“Olá, tenho passado por poucas e boas por não ter filhos. Me sinto a última mulher do mundo por não conseguir realizar esse sonho. O dia das mães é o pior dia pra mim. Isso me faz me sentir pequena diante das outras mulheres, já estou cansada de ver as outras exibindo seu barrigão.” GD
As expectativas sociais sobre as mulheres se relacionam à força do argumento biológico que atribui o comportamento materno a um ‘instinto’ natural que todas as fêmeas desenvolveriam perante suas crias. Ainda que o conceito de instinto esteja superado para a ciência, a representação social da maternidade (Badinter, 1985) continua a julgá-la como instintiva, inata e comum a todas as mulheres. Nesse sentido, a maternidade seria um caminho necessário para qualquer projeto feminino de felicidade.
Por sua vez, o estigma, conforme definiu Goffman, é baseado na categorização das pessoas e dos atributos considerados comuns e naturais para os membros dessas categorias. A partir dessas concepções preconcebidas, são criadas “expectativas normativas, exigências
considerado suficiente (mais de quatro anos) para ter filhos começa a ser inquirido, alvo de comentários e perguntas e se levantam suspeitas sobre possível infertilidade de um dos dois. Muitas mulheres relataram ter afirmado para as pessoas, quando questionadas sobre a ausência de filhos, que ainda não os queriam, para descaracterizar a infertilidade e dar fim aos boatos.
“Só quem quer e não tem filhos sabe como essa espera é angustiante. É bom compartilhar com pessoas que estão passando pelo mesmo drama. Ninguém da minha família sabe e isso ao mesmo tempo em que me preserva me deixa solitária na luta.” Adna
Vale ressaltar que o estigma que não é o mesmo para homens e mulheres, mas que afeta a ambos. Se, para as mulheres, o estigma se relaciona à identidade feminina (ser mulher43, como nas falas acima), para os homens, relaciona-se aos atributos da sexualidade (virilidade), como se percebe na fala de Ingrid, ao relatar como o esposo reagiu em relação ao dilema contar ou não contar:
“Meu marido tinha me proibido de comentar com a família e com os amigos sobre o tratamento. Por mim falaria sem problema nenhum, mas o fato dele saber que era infértil mexeu tanto com sua cabeça. Os homens têm uma grande dificuldade de encarar a infertilidade, pois acham que infertilidade é a mesma coisa que impotência. Quando consegui engravidar, por minha insistência, falei que contaria para minha mãe, mas ele me pediu uma condição, pediu para que eu falasse que o problema de infertilidade era da minha parte ou para falar que era infertilidade sem causa aparente.” Ingrid
Assim, como percebemos na decisão acima, embora para os dois o peso do estigma seja forte, ainda é preferível, para parte dos casais, que a mulher assuma uma suposta infertilidade44 para esconder uma condição de fertilidade limitada do esposo. O fato de a infertilidade masculina vir geralmente associada à impotência reforça também que essa condição não seja revelada pelos homens.
43 Vargas (2002) observou a expressão “figueira do inferno” presente nas camadas populares para se referir às mulheres inférteis. Outras expressões comuns são “seca, oca, vazia, incompleta”.
44Costa observou esta situação na sua pesquisa: “Há ainda mulheres que fazem pactos explícitos ou implícitos com os maridos/companheiros, como vimos nos casos em que a paciente não queria que o marido se submetesse a uma vasectomia por receio de que ele ficasse impotente; ou ainda da paciente que assumiu a esterilidade no lugar do marido por medo de que as pessoas suspeitassem que ele era impotente. Neste caso, proteger a reputação do marido seria uma forma de a esposa proteger sua própria reputação” (2001: 46).
Héritier, ao pesquisar sobre o tema da infertilidade, afirmou que esta é atribuída às mulheres na maioria das sociedades, sendo a responsabilidade masculina pela impossibilidade de gerar filhos/as normalmente ignorada.
Entre os Samo, por exemplo, não existe infertilidade se não for relacionada à impotência. O homem infértil é aquele em que o “pênis está morto”. É como se o fluido masculino fosse sempre e necessariamente fértil. Deste modo, todos os casos de infecundidade são imputados às mulheres, particularmente à má vontade de seu destino individual. Mesmo naqueles casos em que um homem passa por várias uniões e nenhuma das esposas procria o homem não deixa de ser pai. O filho que a mulher trouxe para o casamento, sobrinhos, filhos de irmãos, são terminologicamente seus filhos. Não é o caso das mulheres, que morrem sem deixar vínculos.
“A mulher estéril não é considerada verdadeira mulher, lo, morrerá suru, isto é, jovem imatura, e será enterrada no cemitério das crianças, sem que os feiticeiros, por ocasião do seu funeral, façam soar os grandes tambores que se utilizam unicamente para honrar as mulheres fecundas” (Héritier, 1996:74).
Entre os Nuer, segundo Héritier, as mulheres são poupadas da estigmatização da infertilidade porque, após ter se casado e ficado sem filhos/as durante um certo número de anos, regressam à família de origem e passam a ser consideradas homens. Como homens, elas podem adquirir esposas e todos os prestígios de um homem na sociedade.
A questão, no entanto, não é particular às sociedades tradicionais. Segundo Héritier, “também na sociedade ocidental, a esterilidade masculina só foi reconhecida há pouco tempo; o esperma era, por definição, sempre fértil45“ (1996:247).
É interessante observar que, em nossas sociedades, em que há controle voluntário da reprodução, o estigma da infertilidade não se define por sinais corporais imediatamente perceptíveis e evidentes. Neste sentido, por um lado, só pode ser identificado se enunciado, ou seja, tornado conhecido. Isso torna possível sua manipulação, seja se negando as ‘tentativas’, seja um dos dois assumindo a responsabilidade pela ausência de filhos, também, freqüentemente, as mulheres. Por outro lado, a gravidez é um sinal corporal perceptível e evidente de prestígio. Se a infertilidade não pode ser atestada, a fertilidade, por sua vez, tem
45 Martin estudou como os conceitos de biologia reprodutiva estão permeados de estereótipos culturais. Assim, o óvulo é representado na biologia como passivo e o espermatozóide como ativo e ágil. No entanto, questiona a nossa forma de representar as células femininas e masculinas, correspondendo a nossos estereótipos de gênero. Nesse sentido o pensamento científico reproduz e reforça estes
um símbolo óbvio: a barriga da grávida. As informantes demonstram seu incômodo, ao viverem situações de infertilidade, em encontrar mulheres grávidas ‘exibindo seu barrigão’.
É interessante se atentar para o fato de que a infertilidade é considerada uma categoria ambígua do ponto de vista da saúde, podendo indicar uma doença, um sintoma de uma doença, um estado psíquico, a conseqüência de uma doença e até mesmo nenhum tipo de doença, como na fala que se segue, na qual se expressa um sentimento de infertilidade, como também se destaca o simbolismo da barriga, ainda que seja para negá-lo:
“Mas eu pergunto: gerar uma vida é só de barriga? Eu estou dando a vida a um menino lindo que não "saiu" de mim, mas que precisa de mim para viver! Desde o momento que adotamos, nunca mais nos sentimos inférteis (eu e meu marido), nos sentimos cheios de vida com a presença do nosso tão amado filho. Quem sabe alguém tb está passando por essa experiência e queira compartilhá-la.” GD
A categoria ‘casal infértil’, como apontou Costa (2006) se constitui estrategicamente no discurso médico para tornar invisível a desigualdade da participação de mulheres e homens nos ‘tratamentos’. A maior parte dos investimentos psíquicos e corporais (exames, medicamentos, ultrassonografias, terapias) e possíveis efeitos colaterais recaem nas mulheres. A infertilidade, sendo considerada do casal, dilui a centralidade das mulheres e traz os homens para os ‘tratamentos’ sem o peso da infertilidade masculina, como neste depoimento:
“Quando meu marido descobriu a infertilidade foi muito doloroso pra ele, neste momento sentia que eu precisava ser forte e ajudá-lo a compreender (eles tb são sensíveis à esterilidade). É claro que ficamos tristes, mas o "responsável" pelo problema fica mais triste ainda quando descobre. Quando meu marido descobriu assumimos isso como "nossa" esterilidade, isso diminui o peso dele e me fez me sentir mais participante da vida dele, nos unimos muito! E até aprendemos a nos amar mais.” GD
Assim, vários elementos apontaram para a manutenção da negação sobre a infertilidade masculina e para o peso da responsabilidade das mulheres nesse processo. Neste campo, o antigo tabu da infertilidade – masculina ou feminina, embora envolvendo significados diferenciados – e somado ao novo tabu sobre os gametas doados, torna o espaço dos ‘tratamentos para engravidar’ um espaço de segredos.
“Eu também estou passando por isso, vou fazer neste mês a inseminação com sêmen de doador. No início, quando soubemos do problema de meu marido, contamos para meus pais e p/ os pais dele e irmãos... porém percebi que ele não se sentia bem em falar sobre o assunto... depois de 3 anos decidi falar para todos que o problema dele foi resolvido e que poderemos ter filhos normalmente. Depois disso tudo mudou, senti que ele está mais feliz e com muita vontade de fazer a inseminação... e também eu tinha medo que as pessoas ficassem olhando p/ o nosso filho e reparando que ele não teria traços do pai e tivessem algum
sentimento de pena. Então se você me permite dar um conselho, acho que vcs devem guardar isso p/ vocês, que ninguém precisa ficar sabendo... Muito sucesso p/ vocês!”GD
Como se pesquisa o segredo? Como se conceitualiza o segredo? Essa questão se tornou muito importante no trabalho. Uma das razões que tornam o espaço clínico da reprodução assistida um espaço impermeável à pesquisa sociológica é justamente essa característica secreta dos procedimentos, tratamentos, condições físicas e psíquicas dos/as pacientes.
Para Simmel, o segredo “conduz a uma grande ampliação da vida”, pois compartilhar um segredo representa a “possibilidade de um segundo mundo junto com o mundo manifesto, sendo este decisivamente influenciado por aquele” (1999:221). Esse segundo mundo cria relações e cumplicidades entre os detentores do segredo, comportamentos próprios, além de reforçar o desconhecimento de outras pessoas sobre esta realidade. A infertilidade46, por exemplo, tende a ser compartilhada com pessoas que se identificam como fazendo parte de uma mesma comunidade.
“Conversei sobre o processo todo com amigas da internet, não com amigos do dia a dia e família.” Diva
Simmel chamou atenção para o fato de que a existência do segredo define essa interação pelo esforço de mantê-lo e pelo desejo de fazer parte. Pessoas ou grupos sociais que escondem alguma coisa ocupariam em nosso imaginário uma posição distanciamento do convívio social. Quem não desfruta dos privilégios que o segredo traz se sentiria instigado a acessar essa informação restrita.
No contexto aqui analisado, o espaço virtual potencializou a criação de uma comunidade de interação, onde são discutidas as percepções e as experiências de cada uma de não corresponder às expectativas sociais e pessoais. No entanto, de alguma forma também, se rompe com lógica da comunidade restrita ao se realizar esse intercâmbio em um espaço aberto para ser acessado por outras pessoas.
46 Em reportagem da Folha de São Paulo, em 2002, a jornalista Kátia Ferraz relatou que a bandeira da American Infertility Association e da Apoio Internacional aos Pacientes Inférteis é de difundir que "a infertilidade, que atinge mais de uma entre dez pessoas em todo o mundo, não deve ser motivo de vergonha ou embaraço. É uma doença como qualquer outra, que pode e deve ser tratada com a ajuda de um especialista". As instituições elegeram junho como o Mês Internacional da Infertilidade. O slogan da campanha: Um Milhão de Bebês: Hora de Quebrar o Silêncio. Como parte da campanha, foram realizadas palestras em vários países,
O ciberespaço é um domínio no qual práticas e experiências de segredo circulam facilmente. Isto permite, por um lado, que pessoas de fora da comunidade de pertencimento disponham de mais informações sobre temas silenciados47 na sociedade em geral. Por outro, suscita o questionamento sobre até que ponto essa nova possibilidade contribui para que o tema em questão deixe de ser um tabu. Ao ser apresentado, discutido, minuciosamente detalhado, seria potencialmente incorporado à sociedade, favorecendo a diminuição do estigma? Esta é uma das questões que o ciberespaço introduz. Não temos a pretensão de respondê-la, mas identificamos a contradição de que ao se desenvolver uma comunidade na qual se compartilham segredos na rede virtual, eles se tornam conhecidos.
A experiência no hospital público reforçou a visão de que os espaços dos ‘tratamentos para engravidar’ são por excelência do segredo. Por três meses compartilhamos dele. A equipe médica, psicólogos/as, ginecologistas, embriologistas, biólogos/as, anestesistas e, ainda estudantes de medicina, têm acesso irrestrito a essas experiências. Isso lhes dá o poder sobre a permissão a pesquisadores/as de outras áreas às informações necessárias para o desenvolvimento de uma pesquisa com outro tipo de abordagem. Da negociação com estes atores depende inclusive o sucesso da realização de pesquisas. Neste caso, o insucesso.
Durante a permanência no hospital, foram feitas observações nas consultas e na ante- sala de espera. Participavam das consultas muitos profissionais e os/as médicos/as nem sempre explicavam sobre a minha presença. Era iniciativa minha, na maioria das vezes, explicar sobre a pesquisa e pedir autorização dos pacientes.
Na ante-sala, era possível se fazer observação dos/as informantes fora da sala de consulta. Havia um constrangimento entre as pessoas presentes e uma pergunta no ar: “qual o seu problema?” Aquelas mulheres que, no espaço virtual, revelariam tão facilmente e com tantos detalhes sobre suas dificuldades para engravidar, tendiam a manter um silêncio discreto no hospital48. Por isso, priorizamos a aplicação do questionário em salas reservadas ou afastadas das demais pessoas, uma vez que percebemos que não se partilhavam históricos e trajetórias pessoais. Foram aplicados questionários (ver anexo 16) que permitiram não só a
47Bento e Pelúcio (2006/sd) investigaram temas relacionados a práticas sexuais não convencionais como sadomasoquismo, sexo comercial, comunidades transexuais, travestis, gays, lésbicas, no ambiente virtual. Para as autoras, a utilização de vários recursos que garantem o anonimato e a organização de comunidades por temas de interesse foi um fator facilitador do acesso aos sujeitos de pesquisa.
48 Outra situação indicativa do tema tabu que presenciamos foi que, diante de uma equipe de reportagem que preparava um programa sobre reprodução assistida, todas as mulheres presentes no consultório, exceto uma, recusaram-se a ter sua imagem divulgada.
explicação sobre a pesquisa à participante, como também, conhecer melhor sua condição sócio-econômica e colocar questões para além dos aspectos relacionados à anamnese médica que era realizada no primeiro contato com o hospital.
Ao explicarmos sobre a pesquisa, não se demonstrava maior interesse nas questões que sugeríamos. A pergunta que todas faziam (inclusive algumas com quem tive contato virtual sincrônico) era se eu tinha filhos/as. Com isso, buscavam uma explicação das motivações para a pesquisa, assim como alguma forma de empatia. Buscavam também identificar se eu pertencia à comunidade de solidariedade (mulheres com problemas para engravidar). Esta revelação lhes causava alguma decepção, pois tenho (e já tinha naquele momento) um filho e não havia passado por experiências similares as que viviam.
A pesquisa no hospital foi a única oportunidade também de observar e entrar contato com os homens que participavam e acompanhavam os ‘tratamentos’. Os companheiros tinham um papel muito secundário durante o processo. Eles costumavam comparecer nas primeiras entrevistas e, depois, em situações em que fossem especificamente solicitados, por exemplo, para fornecimento ou extração do sêmen. A relativa ausência dos homens nesses espaços é contrastante com a presença das falas masculinas no espaço público e com seus discursos sobre a paternidade e maternidade, majoritários nos fóruns de discussão sobre os projetos de lei.
Como afirmou Vargas, “a invisibilidade masculina frente às questões reprodutivas informa a permanência de valores relativos ao gênero, mesmo considerando a atual convocação dos homens à participação em certos níveis das práticas reprodutivas” (2006:24).
A temática da paternidade, assim, emerge nesse campo, em primeiro lugar, pela presença escassa de pais no cotidiano da vida, no hospital ou nos grupos de discussão (espaço de construção de comunidade de pares e de laços de afetividade). Em segundo lugar, no espaço da normatização, aonde toma dimensões consideráveis, a ponto de após 24 anos do nascimento do primeiro bebê através de técnicas de reprodução assistida no país, a única lei vigente dispor justamente sobre a paternidade de filho nascido por inseminação heteróloga, como vimos no conteúdo legal do Código Civil. É nesta contradição que os discursos sobre a paternidade são apresentados e analisados na tese.
Neste sentido, as mulheres formaram as comunidades de pares em torno do segredo que diz respeito a elas e aos homens, seus companheiros. Invertendo teoricamente a lógica do
sexismo, as mulheres falam pelos homens nos grupos de discussão, no entanto, restritas aos espaços privados de interação.
A sociologia do segredo se presta a pensar a norma e os/as que fogem à norma. A formação de uma comunidade em torno das questões que não devem ser faladas. Também os que podem ter acesso e controle às práticas que envolvem o segredo. No caso específico, evidenciou-se o poder médico sobre moralidades, decisões e acessos. Nesse sentido, realizar uma sociologia do segredo é tangenciar tabus sociais e pressupostos considerados absolutos não apenas relativos às comunidades de segredo, mas a quem circula nelas e sobre elas mantém alguma forma de controle.
No hospital, em alguns momentos me senti como testemunha, ao presenciar cenas em que o nível de discricionariedade da equipe médica pareceu muito alto. Por exemplo, como não havia anestesista no setor, observamos situações de dor intensa. Tanto homens como mulheres se submetiam a procedimentos que, regularmente, são realizados sob anestesia nas clínicas particulares e mesmo na maioria dos hospitais públicos.
Particularmente, foi um choque verificar que havia extração de espermatozóide, diretamente da bolsa escrotal, sem anestesia. Um dia em que comparecemos ao hospital estranhamos a presença de um homem deitado na maca, na sala onde os procedimentos eram realizados. Recebemos a informação de que ele precisava de algumas horas para conseguir se levantar devido ao procedimento realizado sem anestesia.
Havia uma naturalização da dor naquele espaço, que muitas vezes era justificada em nome do sonho de ter filhos/as. Uma das mulheres que se submeteu aos procedimentos de FIV (captação de óvulos) sem anestesia falava com orgulho de si mesma por ter sentido dor sem emitir um gemido ou fazer uma única reclamação.
O problema de se manter instituições impermeáveis ao escrutínio público (e de pesquisadores/as) é que se dá margem a arbitrariedades e condições perniciosas de atendimento e assistência às pessoas.
Se os serviços públicos deixam em geral muito a desejar em relação aos particulares, que formas de controle o Estado pode exercer para que não se faça do espaço do segredo que envolve a reprodução assistida no país um espaço de arbitrariedades?