Apesar da suposta impossibilidade de uma significação da luta apregoada por teorias pós-modernistas, a crítica do ponto de vista dos subalternos, indígenas, negros, mulheres e minorias sexuais constitui uma corrente cada vez mais vigorosa no pensamento latino-americano. Os discursos de gênero no Chile e a crescente produção da escrita feminina encontram-se diretamente em contato com o campo teórico das novas concepções pós-estruturalistas que surgem nos espaços intelectuais.
A história hispano-americana contou com a participação de mulheres que romperam com as estruturas do poder, a exemplo de Sóror Juana de la Cruz33 (México 1651-1695). Poeta, dramaturga, compositora, missivista e prosadora, Juana deixou vasta obra literária e sofreu com a misoginia laica e clerical de seu tempo. Anos antes de morrer, abandonou o campo das letras. As circunstâncias que levaram a seu silenciamento são até hoje controversas. Pela importância literária e por causa da sua forte representação, Sóror Juana é uma das primeiras referências da escrita feminina latino-americana. Em 1982, Otávio Paz dedica a ela um conjunto de estudos na obra
Sóror Juana Inés de la Cruz: as armadilhas da fé.
Algumas outras vozes começaram a aparecer a partir do século XIX, entre elas, Clorinda Matto de Turner (Peru- 1852-1909), Gabriela Mistral (Chile 1889-1957), Juana de Ibarbouru (Uruguai, 1892-1979) e Afonsina Storni (Argentina, 1892-1938). Apesar disso, até o final do século XIX e início do século XX, a participação da mulher era insipiente e as questões epistemológicas feministas só ganharam espaço recentemente nas academias latino-americanas. No Chile, essa consciência gradualmente penetrou as vias de acesso à participação política, especialmente depois que as mulheres conseguiram o direito ao voto em 1949.34 Elena Caffarena é um nome
33 Filha de mãe criolla e pai espanhol, Juana teve desde cedo vocação para o conhecimento; fez parte da
corte do vice-reinado e a todos maravilhava com sua erudição, não esperada em uma mulher. Para possuir maior liberdade e dedicar-se aos estudos, Juana entra para a ordem das Jerônimas, clausura em que permanece até sua morte.
34 O primeiro país em que as mulheres conquistaram direito ao voto e a possibilidade de apresentar
importante para a concretização dessa garantia; a advogada foi uma das primeiras mulheres a participar da federação de estudantes. Sua luta pela emancipação ganhou importantes espaços políticos. Já em 1935, juntamente com outras feministas, fundou o
Movimiento Pro-emancipación de las Mujeres de Chile (MEMCH), cuja maior conquista foi a mobilização de uma boa parte das mulheres e a conquista ao voto em eleições municipais. Caffarena foi determinante para a conquista do voto para presidente em 1949 e para a presença das mulheres nos espaços públicos.35
No entanto, é somente na década de 1980 que o feminismo se fez mais atuante em território chileno. Com a restituição democrática, no Plebiscito de 1988, o movimento ganha maior visibilidade. A década de 1990 foi ideal para a participação das mulheres nas organizações cívicas. Isso se concretizou com o Sernam (Serviço Nacional da mulher), instituição estatal que adquire status de ministério público (LESKINEN, 2007). Atualmente, na academia e nas universidades do Chile,36 importantes pesquisadoras, como Raquel Olea, Nelly Richard, Eugenia Brito, ocupam-se das questões de gênero e do feminino, temas recorrentes também nas representações artísticas de poetas e escritoras como Diamela Eltit, Mercedes Valdivieso, Soledad Farina.
No cenário político recente, é igualmente importante destacar a presença de Michelle Bachelet, representante da nação chilena e primeira presidenta do Chile, que se tornou ícone internacional dos movimentos femininos. De forma inédita, a população chilena, conhecida pelo conservadorismo, votou em uma representante socialista. Bachelet recebeu histórica votação em massa das mulheres chilenas; provavelmente pela identificação com algumas características pessoais da candidata: separada, chefe do lar, e, principalmente alguém que superou diversas crises e dilemas pessoais; escolhida talvez para dar sentido às reivindicações sociais de um país emergente.
Finlândia a primeira nação no mundo onde as mulheres tiveram a oportunidade de participação parlamentar, em 1906; já em 1907, 19 mulheres foram eleitas. Boa parte da Europa conquistou direito ao voto feminino entre as décadas de 1910 e 1920: Noruega em 1913, Dinamarca, 1915, Reino Unido, Alemanha e Polônia em 1918. Os mais atrasados, no entanto, foram: Espanha, em 1936, a França, em 1944 e a Suíça em 1974 (LESKINEN, 2007).
35 No epílogo da obra Emergencias (2000), Diamela Eltit apresenta uma entrevista feita com Elena
Caffarena e a trajetória política da advogada pelo direito ao voto feminino.
36 Após um período de polêmicas e discussões, as questões de gênero o primeiro Programa de Gênero e
Cultura na América Latina foi instalado na Faculdade de Filosofia e Humanidades na Universidade do Chile, em 1998 (LESKINEN, 2007).
A atuação das mulheres nos momentos de crise é apresentada por Nelly Richard no âmbito simbólico da representação do feminino, comumente convocado a estabelecer a ordem e a proteger a legalidade social. Em situações de emergência e crises, as mulheres são chamadas para ajudar a restabelecer a posição hierárquica no jogo político, são assim chamadas a encarnar a vida, graças à relação maternal e “natural” que elas têm, responsáveis também pela continuidade da existência dos indivíduos (RICHARD, 2002).
O corpo feminino intervém nas polaridades e pode tanto respaldar o discurso patriarcal, a exemplo das integralistas no Brasil na década de 1930 e as pinochetistas que defendiam a libertação do general em 1998; quanto formar uma ala dissidente, como as guerrilheiras da revolução cubana ou as mulheres atuantes no comunismo e nos partidos de esquerda. “Invadir a rua é se apropriar de seu território (masculino) de luta e de ação social; é trair o mandato de uma feminilidade burguesa, que deve se recolher, tradicionalmente, à privacidade do lar e da família” (RICHARD, 2002: 97).
Os feminismos no Chile foram marcados pela tradição de movimentos das nações desenvolvidas como Estados Unidos, França e Inglaterra; tentando, contudo, aliar a teoria à pratica local e identitária de um país periférico. Richard aponta que a diferença entre o feminismo latino-americano e o metropolitano se configura na relação dual entre a “experiência”, prática latino-americana, e a “representação”, teoria metropolitana; “contexto” e “experiência” designam o modo contingente e situacional, por meio do qual as feministas latino-americanas produzem teoria (RICHARD, 2002). Essas feministas “comprometidas com a mobilização social, desconfiam da hipertextualização do corpo e da sociedade que professa o desconstrucionismo acadêmico, o que torna culpável, segundo elas, de nos fazer acreditar que o real é um puro artefato discursivo; que o signo “mulher” não tem mais existência que a linguística” (RICHARD, 2002: 144).
A escrita é uma das forças de atuação feminina, mas, além disso, é preciso tratar do que Richard chama de “feminização da escrita”, prática que serviria para “desregular a tese do poder majoritório” (RICHARD, 2002: 132).
Qualquer literatura que se pratique como dissidência da identidade, a respeito do formato regulamentar da cultura masculino-paterna, assim como qualquer escrita que se faça cúmplice da ritmicidade transgressora do feminino pulsátil, levaria o coeficiente minoritário e subversivo (contradominante) do feminino. (RICHARD, 2002: 133, grifos da autora)
A despeito das diferenças geográficas e político-econômicas, o casamento entre experiência e estudos teóricos se faz importante na atuação das minorias, a exemplo do feminismo, na realidade latino-americana. A participação reivindicatória e estudos acadêmicos são, dessa forma, elementos imbricados em um processo sociocultural e que permitem uma melhor compreensão das matrizes da “diferença”. A rejeição da experiência em detrimento do conhecimento teórico pode ser reducionista e continuar contribuindo para a perpetuação do sexismo.