A razão como norteadora das ações humanas passou a ser questionada a partir do final do século XIX. Descartes operou a separação entre corpo e mente, inaugurando a Era Moderna, época em que a razão deveria conduzir o homem à verdade e à solução dos males. As duas Grandes Guerras, a revolução russa, a ascensão do nazismo e o desenvolvimento científico e tecnológico, abalaram profundamente a hegemonia da razão. A noção de inconsciente como a parte irracional e desconhecida da mente humana, capaz de interferir na vontade, ações e pensamentos, pôs em xeque as explicações racionais dos fenômenos.
A psicanálise contribui para a mudança de percepção no entendimento dos males que afligem a humanidade. O domínio público e sociológico cedeu espaço para o privado e psicológico. A teoria psicanalítica fundamenta a psiquiatria até os anos 70, concedendo as bases para a compreensão das doenças mentais. O desenvolvimento de medicamentos psicotrópicos23, a partir dos anos 50, reforçou a corrente biológica da psiquiatria que procura explicar o sofrimento psíquico por meio das disfunções neurobioquímicas. O mal tem, portanto, origem orgânica e pode ser combatido.
A preocupação em reinserir o doente mental na sociedade teve início após a II Guerra Mundial. O objetivo era buscar novas modalidades e condições de tratamento e maior eficácia na recuperação dos pacientes. Ao invés do isolamento que se mostrava ineficaz para a melhora dos doentes, começou-se a buscar alternativas de tratamento fora do espaço hospitalar. A psiquiatria passou a entender que era preciso tratar o paciente de modo mais amplo, considerando a interação social como fator importante para o tratamento do distúrbio. A desinstitucionalização também era uma tentativa de diminuir os gastos com a prática do internamento.
23 Psicotrópicos são medicamentos que atuam no sistema nervoso central e mudam o humor e o
A reforma psiquiátrica integra o imaginário da pós-modernidade que abarca a crise das ciências e metanarrativas como o capitalismo, o marxismo e a psicanálise, as mudanças nas esferas econômica e política e o desenvolvimento das neurociências e da psicofarmacologia que passam a embasar a psiquiatria. Somam-se ainda o fortalecimento dos movimentos sociais e o custo crescente com o tratamento de pacientes psiquiátricos nos manicômios.
Na Itália, Franco Basaglia se destacou no questionamento da psiquiatria tradicional, introduzindo novos métodos terapêuticos no manicômio de Gorizia, na década de 60. A chamada reforma psiquiátrica opera uma reviravolta no conhecimento médico. O doente mental deixa de ser objeto e se transforma em sujeito de experiência da loucura, sendo reinserido na sociedade. O isolamento terapêutico e o tratamento moral, desenvolvidos desde Pinel, cedem espaço à criação de possibilidades para os fenômenos se manifestarem.
A doença mental não poderia mais ser compreendida a partir do paradigma cartesiano que implicava a divisão entre corpo e mente e a noção do universo funcionando como máquina. A ciência que fragmenta e isola as partes do todo não conseguia explicar os fenômenos. A crise científica afeta os conceitos de doença mental e normal/anormal. Portanto, mais do que um fenômeno de ordem psíquica restrito ao domínio da medicina, a doença mental se constitui em problemática social, cultural e discursiva, portanto, remete a um imaginário.
A tradição ocidental repousa da dicotomia e exclusão. As partes simplificam o todo visando tornar o conhecimento mais acessível. A razão, utilizada como mero instrumento para dominar a natureza, serviu de respaldo aos maiores desastres. Como já haviam denunciado Adorno e Horkheimer (1986), a racionalidade instrumental contém nela mesma a razão de ser e transforma tudo em objeto passível de ser conhecido. Como reconhece Maffesoli , p. , e o e dela, hegou-se a um objetivo diferente (hetero telos) do que estava previsto: um não mundo, uma devastação do mundo. Efeito perverso, se se
A reforma psiquiátrica promoveu transformações de ordem técnica e prática e estabeleceu novas relações entre os sujeitos. Amarante (2009) propõe quatro dimensões atinentes à reforma psiquiátrica. A dimensão epistemológica se situa no campo teórico- conceitual e implica a revisão no conceito de ciência como produção de verdade, a neutralidade das ciências e o rompimento com as bases da psiquiatria que criaram o conceito de doença mental. Trata-se de produzir novos conceitos que articulem conhecimentos de diferentes campos do saber buscando construir um novo paradigma no campo da saúde mental.
A dimensão epistemológica possui dois conceitos fundamentais. A desinstitucionalização, que envolve a reestruturação técnica, serviços e terapias, e a reconstrução de saberes e práticas e o estabelecimento de novas relações. O sistema asilar deve ser substituído por um modelo que produza socialidades e subjetividades. O conceito de doença é desconstruído e passa a ser concebido como condição de possibilidade de existência.
A dimensão técnico-assistencial se refere ao desmantelamento do modelo hospitalocêntrico e a criação de novos serviços descentralizados que engendrem formas de socialidade. A rede deve permitir a produção e a expressão de subjetividades e apoiar a autonomia do usuário para a geração de renda e moradia. O modelo centrado no manicômio deve ser superado porque foi constituído a partir da concepção de que o doente mental é privado de razão e precisa ser subsumido à custódia médica. A dimensão jurídico-política imprime nova configuração de poder para a transformação social. Implica fomentar ações em diferentes segmentos sociais para a conquista de direitos e mudanças em leis.
Neste sentido, desinstitucionalização não se restringe à reestruturação técnica, de serviços, de novas e modernas terapias: torna-se um processo complexo de recolocar o problema, de reconstruir saberes e práticas, de estabelecer novas relações. Por isso, é acima de tudo, um processo ético- estético, de reconhecimento de novas situações que produzem novos sujeitos, novos sujeitos de direito e novos direitos para os sujeitos. (AMARANTE, 2009, p.1).
A ciência médica moderna compreende a doença como fenômeno da natureza e procura explicar as causas. A reforma psiquiátrica concebe a loucura a partir da noção de complexidade proposta por Morin (2007a). O conhecimento não pode ser fragmentado e si plifi ado, as deve se to ado o o o ple o, te ido e o ju to , o o i di a a etimologia da palavra. A ciência deve incorporar as noções de desordem, incerteza, acaso, enfim, deve admitir que muitas vezes desconhece, não tem respostas.
O ser humano não pode ser considerado apenas como racional. Os componentes afetivos, emocionais e a imaginação integram e agem nos pensamentos, desejos e comportamentos. Uma parte não exclui a outra, mas interage e dá forma ao homem. A ciência não deve ter a pretensão de abarcar todos os fenômenos à procura de estabelecer leis previsíveis e universais. Onde reina a ordem absoluta, não pode haver criação, não há espaço para possibilidades, apenas determinação.
O homem é marcado pela ambiguidade, tentando se equilibrar entre o interior mental e a realidade objetiva, constituindo-se sapiens e demens. A razão e a loucura são complementares, indissociáveis e fazem parte do ser humano.
Vivemos, de fato, num circuito de relações interdependentes e retroativas que alimenta, de maneira, ao mesmo tempo, antagônica e complementar, a racionalidade, a afetividade, o imaginário, a mitologia, a neurose, a loucura, e a criatividade humanas. (MORIN, 2007b, p. 126 e 127).
E o pleta: A loucura é um problema central do homem, não apenas o seu detrito ou a sua doe ça . MORIN, , p. . Po últi o, a di e s o ultu al da reforma psiquiátrica objetiva modificar o imaginário social sobre a doença mental fomentando a reflexão da sociedade. Por meio de objetos e ações culturais, a sociedade deve refletir sobre sua relação com o fenômeno. É uma dimensão estratégica porque visa transformar a representação social da doença mental por meio de um conjunto de ações. A reforma psiquiátrica relativiza o conceito doença mental e proporciona o estabelecimento de novas relações entre os sujeitos. Este estudo integra a dimensão cultural da reforma psiquiátrica porque envolve a compreensão do jornalismo como prática sociocultural que produz narrativas sobre a doença mental.
Em seguida, tratamos das noções de saturação da identidade; trágico e corpo paroxístico. Relacionamos os sentidos dessas metáforas, a partir de Maffesoli, ao tema deste estudo. Essas noções são utilizadas para descrever e compreender o imaginário pós- moderno, considerando o jornalismo como promotor das doenças mentais.