O Brasil na década de 1960 passou por grandes transformações políticas e econômicas; o golpe militar em 1964 transformou o país em uma ditadura, o que teve fortes implicações na realidade social brasileira. O clima de instabilidade política estava instaurado desde a renúncia do presidente eleito Jânio Quadros em 1961 e embora seu vice, João Goulart, tenha assumido, o clima político era adverso. A fim de evitar uma guerra civil, João Goulart se refugiou no Uruguai e as forças militares tomaram o poder.
Figura 23 - Tanques circulam pelo Rio de Janeiro, em 1º de abril de 1964
Fonte: http://outraspalavras.net/outrasmidias/wp-content/uploads/2015/01/150129-Golpe.jpg
Durante esse primeiro momento, o Brasil foi governado pelo General Castelo Branco, eleito pelo Congresso Nacional em abril de 1964. Castelo Branco, em seu governo, estabeleceu eleições indiretas para presidente e dissolveu os partidos políticos. Em janeiro de 1967 foi imposta uma nova Constituição para o país, que confirmou e institucionalizou o regime militar e suas formas de atuação.
Em 9 de abril de 1964 foi decretado o primeiro Ato Institucional, o AI-1, que reforçava o Poder do Executivo e restringia a ação do Congresso (FAUSTO, 1995). Uma série de Atos Institucionais marcou o governo militar até a redemocratização do país em 1985. Com o AI-2, em outubro de 1965, houve a dissolução dos partidos políticos e foi instaurado um regime bipartidário; de um lado, estava a Aliança Renovadora Nacional (ARENA) representando o governo, e de outro, um partido de
oposição permitida pelo regime, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) (PEREIRA, 2014).
Ainda em 1964 foi lançado o Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG) e os responsáveis pelo programa foram os ministros do Planejamento e da Fazenda, Roberto Campos e Otávio Gouveia de Bulhões. O PAEG reduziu o déficit do setor público, contraiu o crédito e promoveu o arrocho salarial (FAUSTO, 1995).
O PAEG alcançou seus objetivos. A combinação do corte de despesas e aumento de arrecadação diminuiu o déficit público anual de 4,2% do PIB em 1963 para 3,2% em 1964 e 1,6% em 1965. A forte inflação de 1964 tendeu a ceder gradativamente, e o PIB voltou a crescer, a partir de 1966. (FAUSTO, 1995, p. 472)
A figura 24 apresenta uma tabela retirada do livro de Boris Fausto (1995), na qual é possível observar a variação do PIB de 1964 a 1968, e perceber como ele teve um aumento significativo no final da década. Isso, no entanto, não implica em uma melhora na qualidade de vida da população, já que entre as medidas que possibilitaram tais resultados estava a de comprimir o salário mínimo.
Figura 24 – Variação anual da inflação e do Produto Interno Bruto, 1964-1968
Fonte: Fausto (1995, p. 473)
Ainda segundo Fausto (1995, p. 473), um dos fatores determinantes para o sucesso do PAEG foi o fato de o país estar sob um regime autoritário, o que teria facilitado a ação dos ministros. Conforme explana o autor, “para poder funcionar qualquer plano de estabilização dependia de sacrifícios por parte da sociedade”, o que não é fácil de ser alcançado em um sistema democrático, já que depende “de um acordo com concessões recíprocas por parte dos diferentes setores da sociedade”. Em um governo ditatorial, a classe trabalhadora não teve como resistir às medidas impostas por Campos e Bulhões.
Em 1967, o general Arthur da Costa e Silva assumiu a presidência, eleito indiretamente pelo Congresso Nacional. Durante seu governo eclodiram protestos e manifestações sociais devido à crescente oposição ao regime militar. Nos estados de São Paulo e Minas gerais aconteceram greves de operários e a luta armada começou a se organizar.
Durante o governo Costa e Silva foi decretado o Ato Institucional n.º 5 (AI-5), o mais duro do governo militar, visto que dissolveu o Congresso Nacional, aposentou juízes, cassou mandatos e aumentou a repressão militar e policial, possibilitando que o Exército e a Polícia prendessem qualquer pessoa considerada suspeita de subversão (PEREIRA, 2014).
Figura 25 - Repressão militar durante a ditadura
Fonte: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/03/31-de-marco-ou-1-de-abril-qual-e-a-data- correta-do-golpe-de-1964.html
Esse período de 1968 a 1973 também ficou conhecido como “Milagre Econômico”, visto que, nessa época, a economia do país crescia em ritmo acelerado. O PIB brasileiro crescia a uma taxa de 11,2% ao ano, chegando a 13% em 1973, enquanto isso a inflação média ficou na faixa dos 18%. Fausto (1995) alerta, no entanto, não se tratar de um milagre, porque a situação econômica
mundial era favorável, em função da disponibilidade de recursos disponíveis para investimentos. Países em desenvolvimento como o Brasil aproveitaram o momento para conseguir grandes empréstimos, elevando em muito sua dívida externa. Além dos empréstimos, a entrada de capital estrangeiro foi determinante para consolidação das políticas econômicas governistas.
Ao citar Alves (1987), Pereira (2014) explica como se estruturou a política econômica do período, a partir de um “tripé econômico” com base na aliança entre “o capital multinacional, o capital nacional associado-dependente e o capital do Estado.” Nessa lógica, o Brasil teve um desenvolvimento baseado em dependência, elaborado por meio de um “espectro de mudanças em procedimentos tecnológicos, sociais, políticos e culturais que a acompanham e facilitam essa expansão”.
O caso da Borregaard se enquadra exatamente nesses parâmetros; é interessante observar como a gestão norueguesa da fábrica coincidiu com o período do “milagre”.
Porto Alegre a esta altura passava por um fenô meno de urbanizaç ão e transformaç ões estruturais; os meios de comunicaç ão não só informavam, mas também difundiam novos valores culturais e sociais e apesar do rádio ter um alcance maior, as revistas com suas fotorreportagens e uma publicidade marcante, tiveram grande importâ ncia na fixaç ão de uma nova imagem social. Com o crescimento da capital gaúcha, a imprensa começ ou a representar um importante meio de divulgaç ão da transformaç ão da cidade, pois através das fotorreportagens as pessoas tinham noç ão da modificaç ão e modernizaç ão urbana da cidade.
Algumas salas de cinema importantes da cidade foram inauguradas no final da década de 1950 e início dos anos 196036, como o cinema Presidente (1958), cinema Estrela (1955), cine Ok (1955, conhecido posteriormente como Cine Real), cinema Continente (1956), Cine Cacique (1957), a reforma do cinema Astor (1963), Vogue (1959), a remodelação do Cine Guarani (1955) etc. Em 1956 a televisão chegou oficialmente à cidade, com a inauguração da TV Piratini, canal 5, com estúdios no alto do Morro Santa Tereza – nesta época a televisão ainda era em preto e branco. A procura por jornais também cresceu nas décadas de 1950 e 1960, chegando em 1970 a cinco jornais diários na capital.
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Charles Monteiro (2012) esclarece que na década de 1950, Porto Alegre já contava com 400 mil habitantes e apesar de toda â nsia em se tornar uma metrópole moderna, a cidade ainda mantinha ares provincianos. Nesta mesma época também aumentou a marginalizaç ão das populaç ões mais pobres que só iria se intensificar nas décadas seguintes; isto se dá principalmente com o começo das remoções de moradores de determinadas regiões para outras mais distantes – um processo de “higienização” dos bairros nobres e centrais. Segundo Rosemary Brum (2014), é neste período de 1940 a 1960 que ocorre o surgimento da “favelização” em Porto Alegre.
Figura 26 - Região conhecida como Ilhota, na área central de Porto Alegre, antes da sua extinção, como parte do projeto Renascença nos anos 1970
(Arquivo Histórico de Porto Alegre Moysés Vellinho)
Fonte: https://jornaltabare.wordpress.com/2011/12/02/ilhados-na-miseria/
Em 1958, um estudo mostrou que a zona industrial do 4º distrito, região leste de Porto Alegre, fronteira com a Ponte do Rio Guaíba (inaugurada neste mesmo ano), tinha em média 30.000 habitantes (BRUM, 2014). Em 1960, a população de Porto Alegre era de 641.173 pessoas, enquanto Guaíba comportava 21.900 habitantes, número este que em 1970 subira para 33.680 pessoas (CARRION, 1989). Este aumento populacional na cidade de Guaíba também se deu pelo surgimento da empresa norueguesa.
Como metrópole, a cidade de Porto Alegre apresentava também o aumento da marginalidade, prostíbulos e trânsito neste período. No fim dos anos 1950 destacam-se na capital o aumento de edifícios urbanos, a formação da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA) e a federalização da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Em 1959, Porto Alegre conheceu o seu primeiro Plano Diretor, tendo o maior crescimento edilício de sua história, alterando a morfologia urbana da cidade, segundo Helton Bello (2006). No final dos anos 1960 foi inaugurado em Porto Alegre o primeiro tronco sul de telefonia, interligando São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.
Figura 27 - Porto Alegre – Bonde Auxiliadora em 1957
Fonte: http://prati.com.br/porto-alegre-bonde-auxiliadora-1957/
A década de 1960 foi marcada principalmente pelas mudanç as políticas. Houve grande mobilizaç ão da sociedade a favor e contra as mudanç as geradas com a renúncia de Jâ nio Quadros. O Rio Grande do Sul foi um foco muito forte de resistê ncia contra aqueles que se opunham a João Goulart ocupando a presidê ncia. Porto Alegre serviu de palco para aç ões populistas, conforme aponta Charles Monteiro (2012, p. 86) ao narrar que “a cidade inteira foi mobilizada pela cadeia da legalidade através da qual Brizola convocava os gaúchos a resistirem ao golpe e lutarem pelo Estado de Direito”.
Figura 28 - Porto Alegre – Campanha da Legalidade na década de 1960 (Jornal Última Hora)
Fonte: http://prati.com.br/porto-alegre-campanha-da-legalidade-dec1960/
A cidade passava por um processo acelerado de metropolizaç ão; os bondes estavam sendo substituídos pelos ô nibus e automóveis, que ocupavam cada vez mais espaç o nas ruas da cidade. Em virtude do crescimento populacional, a cidade se expandiu para as áreas periféricas, o que causou uma complexa estruturaç ão social. Neste período iniciou-se a construção do anel viário circundando a área central da cidade de forma a distribuir o tráfego para os bairros e desafogar o centro. Foi preciso gerenciar os déficits de serviç os básicos de infraestrutura, bem como pensar em transporte de massas, saneamento, energia, lazer e educação (MONTEIRO, 2012). Esse crescimento decorreu de uma emigraç ão do campo para
a cidade somada à onda de imigracão da Europa para a América, que ganhara fô lego no pós-II Guerra Mundial, arrefecendo apenas na primeira metade da década de 1970. Ainda segundo Monteiro (2012), Porto Alegre tinha 394.000 habitantes em 1950, subindo para 885.000 em 1970; o mesmo se deu com a área metropolitana, que passou de 590.000 na década de 1950 para 1.531.000 em 1970, um crescimento significativo que influenciou a economia urbana da capital gaúcha.