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OBS: A entrevista decorreu na casa da filha, ex-cuidadora, que reside com o marido e uma das duas filhas gémeas. Também aqui se nota um

pouco a linguagem alentejana, embora de forma mais ligeira. Assim, palavras eventualmente mal escritas, são sim a transcrição integral da “fala” do Alentejo

P: (…) Em relação à família, (…) a sua mãe chegou a viver consigo algum tempo, antes de ir para lá (lar) ou quando ficou dependente… Como é que foi a ida dela para a instituição?

FA: A minha mãe morava 7 km. Começou a andar doente e eu tinha que andar sempre para trás e para a frente até que a trouxe para a minha casa. Entretanto fui inscrevê-la num Centro de Dia, ia de manhã para o Centro de Dia e à noite e fim-de-semana ficava aqui em casa. Depois, com o continuar da doença, a doença agravava-se

P: O que é que ela tem?

FA: Olhe, se quer que lhe diga, não sei o que ela tem. P: Alzheimer?

FA: Começou a perder a sensibilidade das pernas, quando ela andava, andava e ‘pois caía. Levantava-se sem força, voltava a cair, soltava-se- lhe o sangue e pronto, foi… um agravar da situação, cada vez mais mal.

P: Mais debilitada?

FA: Mais, mais, mais. E agora desde Setembro do ano passado, mais ainda. Do ano passado, sim está P: Sim, está quase a fazer um ano. Mas não lhe deu AVC? Tem sido só?

FA: Não, não. Ou é dos ossos ou… fez uns exames em (localidade) (…) e diz que é as células que começaram a morrer. E falta de equilíbrio. P: Mas dos ossos, ou do cérebro? Não avançam para demência, nem Alzheimer, não …?

FA: Ela está bem de… não se esquece de nada! Tem já muita dificuldade, agora em se exprimir, em dizer o que sente, mas ela não está esquecida de nada, ela ouve tudo…

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FA: Não, não. Tem já muitas dificuldades, agora, cada vez mais, desde que está ali no Centro (Lar) de dia e de noite, cada vez se nota mais, pronto, tem mais dificuldade em tudo, já em levantar a mão à cabeça, vá, assim no gesto…

P: Portanto, é uma dependência que tem vindo progressivamente a aumentar e os médicos não avançaram com diagnóstico nenhum. Ou não sabem?

FA: Não estão certos. O médico, por acaso não era o médico dela (…) dizia que foi várias tromboses que lhe passaram, várias pelo cérebro. O médico dela, só fazendo a pergunta, eles também não dizem, são pessoas fechadas, não dizia nada e agora…

P: Ela tem que idade?

FA: Fez 69 agora no dia 15 de Março. P: Não é muito idosa, também não é por aí…

FA: Não, não, não. E era uma pessoa muito rija, gostava de se divertir, pronto, da vida. E agora vê-se ali assim, pronto. Ali está, levantam-na, deitam-na, está sempre naquele…

P: Naquela prostração? FA: Sim…

P: Ela vivia sozinha, era autónoma, tinha a vida dela? É viúva já?

FA: Até aos 66 anos foi uma pessoa que não precisou de ninguém para nada. A partir daí, pronto. Começaram a aparecer-lhe os problemas. P: Portanto, esteve aqui convosco ainda algum tempo? FA: Um ano, quase.

P. Como é que é composta a sua família daqui? Quantas pessoas é que? FA: Éramos três pessoas, com ela quatro.

P. Estavam a trabalhar ainda? A S.ª e o seu marido trabalham ainda? FA: Sim, trabalhamos juntos, um com o outro…

P: Trabalham em quê?

FA: Nos mercados, vendemos roupa. P: Que idade é que têm?

FA: Eu tenho 49, o meu marido 51 e as filhas, 28. (são 2 gémeas) P: (…) Que habilitações literárias é que têm?

FA: A minha mãe é analfabeta, eu é a 4ª. Classe, o meu marido também. (…) Esta é Educadora de Infância (a filha que reside ainda em casa), a outra é professora do primeiro ciclo (já é casada e vive fora).

P: Para além da família nuclear, têm mais família exterior, que dê apoio a sua mãe, ou são sozinhos? FA; Não, não. Somos só a gente.

P: Ela não tem mais filhos? FA: Não tem mais filhos.

P: A estadia dela aqui em casa, alterou o vosso dia-a-dia, os vossos tempos livres, de lazer, alterou as vossas rotinas? FA: Um bocadinho porque ela estava dependente, em tudo, de mim… quando eu ia para … pronto

P: Portanto, quando ela ia, já ia preparada?

FA: Exactamente, porque ele (motorista do Centro de Dia) vinha aqui buscá-la mas eu também saía cedo, havia vários horários a cumprir, pronto, era assim. Quando eu tinha que abalar às sete, pedia ao senhor para ma vir buscar um bocadinho antes das sete para eu também ir a trabalhar! Quando eu não ia trabalhar, porque às vezes eu não tinha trabalho, vinham buscá-la às dez horas, era mais um bocadinho. E nos fins-de-semana, ficava aqui. Quando eu ia trabalhar, tinha que ser esta minha filha a tomar conta dela até eu chegar. Porque eu, praticamente, quando eu chegava, é que tratava dela…

P: E à noite, também tinha que estar a horas para a receber, quando vinha a carrinha trazê-la do Centro de Dia? FA: Exactamente.

P: Ela já estava muito dependente nessa fase, já estava muito dependente? FA: Já, já.

P: Não andava sozinha?

FA: Quando veio para a minha casa, o ano passado em Abril, foi quando ela veio para a minha casa – para a minha casa e para o Centro de Dia – ainda vinha com andarilho. Andou com andarilho até aí em Setembro desse mesmo ano e em Setembro tive que ir lá ao Lar pedir uma cadeirinha de rodas porque eu já… ela já não se segurava nas pernas para eu a poder transportar, de casa para a carrinha…

P: E comia sozinha ainda? FA: Comia sozinha ainda.

P: E incontinente? Já estava ou ainda não?

FA: Ainda não. Ainda ela hoje, elas é que lhe põem a fralda, mas ela ainda tem a noção de, assim, de pedir. P: Pede. Não vai sozinha, mas pede?

FA: Pois, sim, sim.

P: Já me disse que a sua mãe vivia na casa dela. Vivia sozinha, tinha vizinhança, amigos, familiares?

FA: Tinha, tinha. Não, ela não vivia sozinha. Ela vivia com um irmão dela, que é solteiro. Tem 76 anos. Viveram sempre um com o outro. Ela começou a ficar como estava, teve que vir para a minha casa, ficou lá ele sozinho.

P: Como é que encara a responsabilidade familiar face à dependência dos idosos, neste caso a sua mãe, como é que… acha que a família tem obrigação de cuidar dos familiares, ou acha que devia ser o Estado, as Instituições?

FA: Obrigação, todos temos, não é? De tratar dos nossos, mas às vezes as vidas não … não permitem tratar deles, que é o meu caso. Eu trabalho com o meu marido, não é? Se eu não for, ele também não vai, não vai ninguém! E pronto.

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