OBS: A gravação foi iniciada com a filha já a falar, uma vez que assim que entrei em casa dela, começou logo a dizer que a mãe estava um
bocadinho agitada nesse dia, não dando espaço para iniciar a gravação antecipadamente.
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FA: ela chama-me, eu vou lá, respondo-lhe e ela diz “pois, pois….” Quer dizer que eu estou aqui. Ela chama muito e então acalma muito quando eu chego ao pé dela… pronto é … é assim como quem dá um calmante a uma pessoa. Ela sabe que… para saber que está ali alguém, que está apoiada, sabe que não está ali sozinha.P: Ela pode ter períodos de esquecimento mas lá no fundo sabe que está acompanhada?
FA: Pois ela ouve muito bem e sabe que, lá no fundo sabe que eu estou aqui, ela sabe, sabe que eu estou aqui com ela, a tratar dela e sabe que sou eu e sabe… porque ela hoje pegou-me na camisola e disse assim “pois” e eu “é bonita?” e ela “é”. Ela notou que eu hoje mudei de camisola por isso lá no fundo ainda tem qualquer coisa…
P: e pode estar a recuperar também a memória?
FA: O médico que vem cá a casa disse-me aqui há dias que às vezes ou pode agravar ou até com a continuação pode ser que o juizinho dela ainda volte … isto agora… não há nada aqui …
P: O andar é que não?
FA: Não, nunca mais! Mesmo ali no hospital fizeram-lhe um exame, não, e isto nem com andarilho nem com nada, não! E ela antes de ir para o hospital dizia “eu queria ir à casa de banho e então eu às vezes levava-a à casa de banho ou outras vezes punha-a ali no bacio alto e ela fazia, agora já não. Faz na fralda xixi e cocó mas não sabe que está suja, deve-se sentir incomodada, começa para ali a... mas… pronto … Mas agora digo-lhe uma coisa, a minha mãe até agora lhe dar isto, como ela tinha a cabecinha dela muito boa, era também uma companhia muito boa que eu tinha! Embora que eu estava muito presa com ela mas ainda era uma boa companhia porque … pronto, era… E até dava bons conselhos! A minha filha mais nova, aqui há tempos eu estava a conversar sobre o marido dela e a falar, a comentar que lhe dissera, com o mau feitio dele… e assim… não devia casar com ele, aquelas conversas, sabe aqueles conselhos que gostamos de dar aos filhos e … não valeu muito a pena, pronto mas …. É assim… E eu comentei “A (nome da filha) não fez muito bom casamento”, eu a dizer para ela e ela respondeu-me “Olha não te preocupes que eles estão os três muito bonitos!” e estão, eu gosto dele, é bom rapaz, é assim, não há ninguém perfeito e temos de aceitar as pessoas… e ela dizia-me “não te preocupes, estão os três muito bonitos” e aquilo até me deixava assim… (pausa)
P: Consolada? FA: Consolada … sim!
P: Quando decidiu ficar com a sua mãe, falámos já ontem, foi pela situação dela e porque entretanto a senhora também ficou viúva. Foi de acordo com ela e com o seu irmão, foi uma decisão familiar?
FA: Foi, foi uma decisão familiar, sim. Ela ficou comigo, o meu irmão disse-me sempre que, prontos, era eu que decidia sempre tudo, ainda hoje me diz, alguma coisa que seja preciso apoiar, ele apoia, se for preciso monetariamente ele ajuda, mas ele diz “tudo da mãe és tu que decides, quando tu vires que não tens saúde, que não podes tomar conta dela, isso está a teu encargo, falas comigo e nós então pensamos para onde é que ela há-de ir”. Para casa dele não, está fora de questão, ele não tem condições
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partilhas…FA: Não, não tenho ajuda
P: Em relação à sobrecarga de actividades domésticas, com a situação de dependência dela, está mais complicado. Como é?
FA: Tenho o horário mais controlado, tenho uma medicação que tem que ser muito controlada, tenho que lhe medir a tensão a horas… Agora tenho que medir às 14 horas, se estiver com a tensão normal toma um comprimido mas se estiver muito alta já tem outro para tomar mas às vezes fica com ela muito baixa, e não pode tomar um que ela toma à noite.
P: Tem que ir vigiando… FA: É, é isso…
P: A rede de vizinhança, já me disse ontem que tem esta Sr.ª aqui de baixo… FA: É, dá-me uma ajuda, se for preciso ficar aqui uns bocadinhos sim P: Para além dela, tem mais amigos ou vizinhos?
FA: Isto aqui, eu não estou muito aqui, isto aqui as pessoas saem para os seus empregos, não é? A minha vizinha do lado também trabalha em Lisboa, está-me sempre a dizer que se eu precisar (…) há outra Sr.ª também me diz “olhe eu trabalho mas alguma coisa que seja preciso, na hora de almoço…” prontificam-se sim mas … na aldeia, lá na minha aldeia é muito diferente, as pessoas são todas muito mais …
P: Estão mais presentes?
FA: Mais presentes, são mais comunicativas, as pessoas olham e entram … e então, nós não temos esta coisa das portas fechadas, a porta está sempre aberta. (ri-se, gargalha…), vou ao café, a porta fica aberta, passam as vizinhas, “ó (nome), então? É preciso alguma coisa? (…) Tenho uma prima que tem uma quinta, com criação e tudo e está sempre a perguntar, “é preciso ir fazer alguma coisa à tia? Olha, eu vou só lá dar-lhe um beijinho…” entram e saem …
P: Aqui é diferente…
FA: Sim, é diferente e mesmo ela gostava muito mais de estar lá, a porta estava aberta, elas passavam e falavam, comentavam a vida, a família…. Ela quando chegava aqui dizia que isto era uma “gaiola”… mas pronto …
P: Fez algumas alterações aqui na casa pelo facto dela estar assim?
FA: Não. A única alteração é que tinha aqueles tapetes no corredor e no quarto dela, tirei tudo. Foi só tirar os tapetes que era para ela não cair e para eu a poder arrastar numa cadeira. Foi a única alteração que fiz foi tirar os tapetes de casa.
P: E na outra casa onde passam o Inverno?
FA: Aí é que fiz. Aí tenho uma cadeira de rodas e uma cadeira própria para ela … que ela agora já não vai …ser preciso P: Como a casa é grande também não fez alterações?
FA: não, não fiz. Foi só comprar as coisas, a cadeira, o andarilho … como a casa é grande e lá tenho poliban para lhe dar banho e é muito melhor do que aqui, que aqui é banheira. Agora até lhe dou banho no quarto. Lá na terra os polibans são muito bons para estas pessoas acamadas. Mas tinha poliban já numa casa de banho, não foi por causa dela que eu fiz …
P: Falou-me ontem dos seus netos, no não poder partilhar um pouco a vida deles, as festinhas, os anos … por estar aqui um bocado presa, no fundo…
FA: É, agora mais, há dois anos para cá. Porque eu ia sempre e levava-a a ela para a festa dos meus netos ou para casa das minhas …. Tanto que os natais agora há dois anos são sempre passados aqui. Elas vêm para aqui. Quando ela podia, desde que o meu marido morreu, íamos para casa da mais velha, ela tinha… tem uma casa muito grande e a mais nova ia para lá também. Ah… e a minha mãe ia também. Desde que está acamada, desde os 90 anos, elas vêm para aqui, olha, a casa não é muito grande mas nós cabemos cá todos!
P: Mas sente-se presa, não tem disponibilidade para ir ter com eles, quando gostaria?
FA: Não, não. Mas por exemplo, no dia de Natal, este ano (explica como acomodou 9 pessoas da família na sala pequena) almoçámos aqui todos (…) Coubemos cá todos muito bem! A minha filha (…) quis ir mostrar… depois quis ir mostrar a casa a eles “olha, calha bem, já que estamos todos vamos ver a minha casa nova, oh mãe, tu também vens, deixas a avó sozinha um bocado” E eu não fui capaz, no dia de Natal, deixar aqui a minha mãe uma hora à tarde sozinha… eu disse-lhe “Oh (nome) eu tenho muito tempo para ir ver a tua casa, é dia de Natal, a avó, coitadinha, também, ficava muito assustada se visse agora esta gente toda sair e eu também. Mas ainda não lhe tinha dado isto. Mas eu não deixei cá a minha mãe sozinha. Pronto, é esta…
P: Tem essa prioridade, porque ela precisa mais…
FA: Sim, eu acho que sim, foi mais importante eu ficar aqui. Mas tem graça que ainda não fui ver a casa, do Natal para cá (a entrevista foi em Maio). Ainda agora o meu genro fez anos e a (nome da filha) quis lá dar uma festa dos anos do meu genro e ela disse “oh mãe, eu vou fazer uma festa que o (nome do marido) faz anos (…) mas olha, eu a ti já nem te digo nada, que tu não vens… Porque eu custa-me muito deixar aqui a minha mãe e ir para um almoço ou para uma coisa… mesmo com uma pessoa, isto também… acho que eu estou a ficar um bocado …(faz uma pausa, resignada).
P: em relação à higiene diária dela, é a Sr.ª que faz, faz sozinha, na cama…
FA: Sou eu que faço, faço muito bem! Sento-a na cama… ainda hoje lhe lavei a cabeça… sento-a na cama de manhã, como a cama tem que ser mudada de manhã… porque ela faz muito xixi de noite e repassa na fralda e passa para a cama e então eu sento-a na cama, com um alguidar grande, ponho-lhe um toalhão e lavo-a toda da cintura para cima. Depois lavo-a da cintura para baixo, ponho-lhe a fraldinha, ponho- lhe o creme e… e faço assim a higiene dela… e por acaso hoje quando ela esteve na cadeira duas horas e quando as enfermeiras vieram ela até estava suja de cocó, que ela está com um bocadinho de diarreia mas, como ela estava presa dos intestinos … e depois eu faço a higiene dela… depois sento-a no cadeirão, ponho-lhe o alguidar com água nos pés para lhe arranjar as unhas, olha, lavo-a assim às prestações. Quando for lá para a terra, ponho-a no poliban, tenho à um banquinho e já toma o duche dela. Porque aqui é muito difícil eu pô-la ali na banheira, não consigo, só se for uma pessoa para me ajudar, tenho medo que ela me caia na banheira… pronto… e ela está assim, coitadinha…