Depois de reformular, no capítulo 36, a questão da definição do conceito de orador ideal, Cícero recupera, nos capítulos 37 e seguintes, a distinção aristotélica entre os três géneros de discurso, sistema que serviu de referência universal para a classificação dos géneros oratórios durante a Antiguidade99, associando-a quer à teoria dos três estilos (75 - 99), já enunciada sumariamente nos capítulos 20 e 21, quer à teoria dos três deveres do orador (69 - 75).
Entendendo a Retórica não como a arte da persusão, mas como a arte que permite determinar quais são os meios de persuasão mais adequados a cada caso100, Aristóteles começa, logo no início da Rhetorica101, por definir cada um dos três géneros de discurso – deliberativo, judicial e epidíctico – com recurso a uma série de critérios (o ouvinte a quem se dirige, o conteúdo, o tempo a que se reporta e o seu fim).
Assim, o discurso deliberativo é o discurso pronunciado perante uma assembleia popular, através do qual o orador procura aconselhá-la acerca da conveniência de uma decisão futura. É a forma por excelência do discurso político, que se reveste de exempla e cujo objectivo é demonstrar se essa acção é conveniente ou, pelo contrário, prejudicial. O discurso judicial é aquele que é proferido diante de um tribunal. Por meio deste discurso, convida-se os juízes a emitir um juízo de aceitação (defesa) ou repúdio
99 Para a elaboração deste sistema de classificação, Aristóteles terá recolhido elementos constantes nos
escritos de Tucídides, Platão, Isócrates e na Retórica a Alexandre, tratado de autor desconhecido. Cf. PERNOT, Laurent - Aristóteles e os seus Precursores. Para uma Arqueologia do Discurso Deliberativo.
100 Rh., I, 2. 101 Rh., I, 3 - 15.
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(acusação) de uma acção passada, mostrando, por meio do entimema, um silogismo simplificado, que ela é justa ou injusta. É o género de discurso em que melhor se expressa o carácter dialéctico, uma vez que perante o tribunal se apresentam duas partes desavindas. São próprias do discurso judicial as provas não-técnicas, nomeadamente as leis, os testemunhos, os contratos, as confissões e os juramentos.
O discurso epidíctico é aquele que é pronunciado perante uma reunião solene em louvor ou vitupério de uma comunidade (pátria ou cidade), uma pessoa (real, histórica ou mitológica), uma actividade (profissão, estudo) ou de qualquer outra coisa que se pretenda celebrar. Este género de discurso é construído sobre a figura da amplificatio, que se vê amplamente reforçada pelo uso do ornato. Winterbottom chama a atenção para o tratamento paradoxal que o género epidíctico recebe no Orator: se, por um lado, é descrito em poucos capítulos (37 - 42), por outro, afirma-se a sua importância para a formação do orador ideal102. De facto, a simples menção dos nomes dos oradores que se notabilizaram neste género parece servir para Cícero como justificação da sua posição segundo a qual desses exempla se deve servir o orador ideal para conseguir um vocabulário mais rico, uma maior variedade e harmonia das frases e uma maior liberdade no que concerne ao ritmo (37 - 38). De todos os autores citados, aquele que Cícero parecer preferir é Isócrates (42), cujo Panegírico é mencionado nos capítulos 37 e 38 e a propósito de quem são recuperadas as palavras que sobre ele escreveu o próprio Platão (41).
As provas técnicas podem ser usadas livremente em cada género do discurso. Distingue Aristóteles três espécies de provas desta natureza: ethos, pathos e logos. No primeiro caso, as provas residem no carácter moral do orador, obtendo-se a persuasão quando o discurso é proferido de maneira a deixar no auditório a impressão de que o
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carácter do orador o torna digno de fé (Rh., II, 1). No segundo caso, as provas encontram- se no modo como reage o auditório, pelo que a persuasão se obtém quando discurso desperta as suas emoções (Rh., III, 7). No terceiro caso, as provas que residem no próprio discurso, que mostra a verdade ou, pelo menos, aquilo que parece ser verdade, ou através do exemplo ou através do entimema (Rh., I, 2).
A única aparição desta teoria no corpus retórico ciceroniano ocorre precisamente no capítulo 128 do Orator, após um breve excurso sobre as noções de tese e amplificação. A distinção subscrita por Cícero parece, à primeira vista, derivar directamente daquela feita por Aristóteles e aproxima-se dos conceitos de natura e consuetudo uitae. Sem se referir expressamente ao logos, Cícero interpreta o ethos como os meios de prova relacionados com a natureza, os comportamentos e as relações da vida, expostos de maneira delicada e agradável e preparada para cativar a benevolência dos ouvintes e o
pathos como os meios de prova que agitam os espíritos, demonstrados pelo uso de
expedientes retóricos violentos, inflamados e impetuosos, sendo relevante a contribuição das emoções do próprio orador para a sua formação. Distingue-se, portanto, o pathos ciceroniano do aristotélico, na medida em que consiste aquele apenas num meio para despertar as emoções do auditório sem que o orador, cujas próprias emoções contribuem para a geração desse pathos, caia no ridículo, enquanto este reside essencialmente na verosimilhança do discurso e da pessoa do orador. Por outro lado, Cícero, o ethos tem a função de beneuolentiam conciliare103.
Afastando o género epidíctico da sua análise, Cícero defende que o orador eloquente é aquele que, nas causas judiciais e civis, fale de modo que prove (docere),
103 GUÉRIN, Charles, “Orator 128: Cicéron et la Catégorie rhétorique de l’ethikon, pp. 143 - 147.
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deleite (delectare) e influencie (flectere)104. Associa assim à problemática dos três géneros de discurso à das três funções do orador (69). A grande inovação no Orator consiste na correspondência perfeita entre as três funções do orador e a divisão, que aparece já na Rethorica ad Herennium, entre os três estilos de discurso (genera dicendi):
docere corresponde ao estilo simples; delectare, ao médio; e flectere, ao elevado (69)105. O estilo simples é tratado nos capítulos 76 a 90. Trata-se de um estilo de discurso aparentemente fácil de imitar (76), que evita os ritmos e o hiato (77), bem como o ornato (78), embora lhe seja permitido usar, desde que comedidamente, a metáfora (81 - 82) e o humor (87 - 90). A este propósito são referidas, no capítulo 79, as quatro qualidades do discurso, tal como definidas por Teofrasto: a correcção, a clareza, o ornato e a adequação106. Esta proposta de Teofrasto parte da divisão tripartida de Aristóteles que entendia o estilo como um somatório de clareza, ornato e adequação (Rh., III, 2 - 12), à qual acrescenta a correcção da expressão linguística. Cícero considera que este estilo é verdadeiramente ático e defende que nele o orador que mais se notabilizou foi Demóstenes (90).
Discute Cícero, nos capítulos 91 a 96, o estilo intermédio, que define como sendo mais rico que o estilo simples e mais simples que o elevado (91). Apresenta como seu
104 Se frequentes vezes são estas três funções identificadas com os três meios aristotélicos de persuasão
(logos, ethos e pathos), discutidos no De oratore, não se pode, todavia, asseverar que as duas classificações sejam idênticas, porquanto a primeira diz respeito a uma análise do estilo ou a uma avaliação da prestação de cada orador individual, enquanto a segunda se preocupa com o conteúdo do discurso (WISSE, Jacob - The Intellectual Background of Cicero’s Rhetorical Works, p. 358).
105 Por isso, o Orator marca uma etapa decisiva tanto na evolução da teoria dos estilos como na das três
funções do orador (GUÉRIN, Charles - “Orator 128: Cicéron et la Catégorie rhétorique de l’ethikon, p. 143)
106 “This is the approach used by Cicero in De oratore (cf. 3.37, 53, 91, 144), and it also occurs in the
discussion in Orator (at 79). Again, there were numerous variants, but Cicero uses Theophrastus’ original foursome: correct use of Latin (in Theophrastus’ version, of course, Greek), clarity, distinction (ornatus, —often translated as ‘embellishment’), and appropriateness” (WISSE, Jacob - “The Intellectual Background of Cicero’s Rhetorical Works, p. 358).
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representante máximo Demétrio de Faleros, destacando o recurso deste ao ornato para embelezar os seus discursos, nomeadamente as metáforas e os tropos (92) e também as metonímias (94). Considera que são apropriados a este estilo de discurso, criado pelos Sofistas (96) todos os ornamentos de pensamentos e palavras (95).
Os capítulos 97 a 99 ocupam-se da descrição do estilo elevado que, caracterizado pela capacidade de manipular as emoções humanas, se tornou responsável pela importância que foi conferida à Retórica no seio das sociedades (97). O orador de estilo elevado, que Cícero prefere em detrimento dos outros, salienta-se por ser o que mais riscos corre com o seu discurso, pelo que deverá exercitar-se também nos outros dois (99).
No capítulo 100, Cícero afirma que o orador ideal é aquele que é capaz de falar com simplicidade sobre assuntos simples, com moderação sobre os assuntos de média importância e com autoridade sobre os assuntos importantes. Nesta adaptação do estilo de discurso ao tema tratado consiste o decorum, de que já se falara nos capítulos 69 a 74, a propósito dos discursos deliberativo e judicial. O orador deve elaborar o seu discurso do modo que se revelar mais adequado à causa que trata (70), a si mesmo e àqueles que o ouvem (71). O orador ideal não é, pois, aquele que se destaca em um dos estilos, mas sim o que consegue servir-se de todos de acordo com as circunstâncias, opinião retomada a partir do capítulo 101. Aludindo brevemente à teoria das ideias de Platão, Cícero sintetiza o seu argumento107 para, seguidamente, apresentar exemplos retirados da sua própria produção oratória (102 - 103) e recordar a figura de Demóstenes (104), cuja grandeza é justificada com a convivência com outros grandes oradores (105). Apenas a
107 “A doutrina da mistura dos três estilos não é uma inovação de Cícero e assenta sobre a preocupação de
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variedade de estilos de discurso pode reflectir a complexidade da personalidade humana, pelo que o orador deve usar todos os estilos de discurso, ao mesmo tempo que obedece às regras da conveniência108. Daí que nunca tenha sido ouvido em Roma nenhum orador verdadeiramente eloquente: todos os oradores romanos da geração anterior à de Cícero se distinguiram em apenas um dos estilos (106), sendo que apenas ele, percebida esta insuficiência, se esforçara por colmatá-la (107 - 108), a exemplo do que fizeram, antes dele, os poetas e os actores nos seus respectivos géneros (108).
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