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5.2 Results of cross-case analysis

5.2.2 Resources adopted by Female Porters

Por altura da composição do Orator já o gosto da juventude romana se voltara para uma corrente estilística que, nascida na Grécia, por volta do ano 200 a.C.120, criticava o excesso ensinado nas escolas de Retórica da Ásia Menor e preconizava um retorno ao estilo mais despojado que identificavam com os autores do período clássico.

Embora a primeira evidência da presença desta corrente em Roma possa ser encontrada em Dioniso de Halicarnasso, que aí se estabeleceu a partir do ano 30/29 a.C., o movimento aticista parece ter surgido por volta de 60 a.C., sob a influência de C. Licínio Calvo121 e foi popularizado pelo apoio que recebeu junto dos poetas neotéricos. Considerando as relações de proximidade que a Roma de então estabelecera com os principais centros culturais da altura, são apontadas três vias possíveis pelas quais os neotéricos romanos podiam ter tido conhecimento desta orientação estilística. Essa adesão poderia ter acontecido no âmbito da reacção global do mundo grego contra o helenismo asiático e o seu estilo de oratória, através dos aticistas alexandrinos ou de uma mediação egípcia. Note-se que essas possibilidades não se excluem mutuamente, antes se

120 “Norden, in his great Kunstprosa of 1898, held that Atticism rose shortly after 200 B.C. as a reaction

against the then dominant bombastic style, and others have likewise favored a date in the 2nd century B.C.67 Wilamowitz, in 1900, noted the absence of any evidence for such an early phase, and posited that Greeks working in Rome must have been at the basis of the movement around 60 B.C. On the basis of this hypothesis, attempts have even been made to pinpoint the Greek who influenced Calvus and his friends. For example, Dihle has argued that the grammarian Philoxenus was responsible for the Roman variant of Atticism (though not for the Greek variant), and recently O’Sullivan has made a case for the Atticist Caecilius of Caleacte— arguing that although Caecilius is known to have worked in Augustan times, the beginning of his activity could be dated to c. 60 B.C. To me, the evidence seems to point not to a Greek origin but to Calvus himself as the originator of Atticism as such, and in that case the movement must have been passed on to Greeks such as Dionysius and Caecilius through a Graeco-Roman intellectual network in Rome; but this stance is bound to remain controversial” (WISSE, Jacob - The Intellectual Background of Cicero’s Rhetorical Works, p. 366).

121 WISSE, Jacob - The Intellectual Background of Cicero’s Rhetorical Works, p. 365.

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complementam122. Porém, ainda a este respeito, não se pode esquecer que, nesta época, se assiste a uma renovação do interesse pelo classicismo, que se manifesta por um lado, por um regresso à retórica isocrática e peripatética e, por outro lado, pela reedição das obras de Aristóteles e Teofrasto123.

A discussão entre Cícero – que a esta polémica dedicou o Brutus e o Orator – e os seus oponentes não pertencia, portanto, somente às escolas de Retórica ou à teoria, mas acontecia entre os oradores que eram também os grandes intelectuais da época124. Os aticistas dividiam a história da Retórica em três períodos distintos: um primeiro, o dos oradores áticos, que idealizavam, um segundo, o período helenístico, que caracterizavam como degenerado e um terceiro, o presente, no qual se debatiam para restaurar os ideais do passado clássico125. Ao estilo degenerado, que rejeitavam, chamavam, não sem controvérsia, asiático, pois teria nascido na Ásia Menor. Esse asianismo seria um produto da cultura helenística, datável do século III a.C., que favorecia um discurso emocional e exagerado que compreendia uma actio muito rápida e rítmica, dependente de um vocabulário e estilo intensamente floridos e ornamentados126. A este estilo pertencia Hortênsio, o grande rival de Cícero no Forum e, segundo eles, o próprio Cícero.

Defendiam, pois, os aticistas um estilo oratório mais simples e elegante, modelado naquele que acreditavam ser o estilo dos oradores áticos dos séculos V e IV a.C.,

122 BICKEL, Ernst - Historia de la Literatura Latina, pp. 219 - 220.

123 DESMOULIEZ, André - Cicéron et son goût: essai sur une définition d'une esthétique romaine à la fin

de la République, p. 70.

124 WISSE, Jacob - The Intellectual Background of Cicero’s Rhetorical Works, p. 365.

125 Note-se que esta recuperação dos ideais estéticos clássicos parece constituir um movimento mais geral

que abrangia também as artes plásticas, uma vez que paralelamente, por volta de 150 a.C., alguns artistas, nomeadamente na escultura, começaram a defender a restauração de uma estética anterior a 300 a.C. (WISSE, Jacob - The Intellectual Background of Cicero’s Rhetorical Works, p. 367).

126 GRANT, Michael - Cicero, pp. 52 - 53.

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nomeadamente o estilo de Lísias (29), um orador ateniense de estilo especialmente austero127, de Tucídides (30 - 32) e de Xenofonte (32). Criticavam, pelo contrário, a arte formal de Isócrates e o período confuso de Demóstenes128. Essa busca da pureza original do aticismo justifica a sua rejeição do período e do ritmo oratório e opção por um minucioso trabalho de redacção129.

Obrigado a defender-se das críticas que lhe eram dirigidas por essa corrente de oradores mais jovens que o viam como excessivo e ultrapassado, Cícero redige o Brutus e, mais tarde, face às explicações adicionais que lhe pedia Bruto (2), o Orator. Logo no capítulo 23, Cícero associa o estilo ático a Demóstenes, o orador que prefere a todos os outros, afirmando que aqueles que desejam falar à maneira ática devem seguir o exemplo do orador ateniense “mais ático que a própria Atenas”, ainda que admita que muitos, entre os quais o próprio Ésquines, não o filiem nesse estilo (26). De acordo com Cícero, isto acontece porque esses críticos acreditam existir apenas um único estilo ático, o que resultaria inclusivamente na exclusão de Péricles do número de oradores áticos (29), quando, na verdade, existem muitos (28).

Nos capítulos 75 e 83, Cícero identifica o estilo ático com o estilo simples, pelo que se recordarmos aquilo que se dissera, no capítulo 20, acerca dos dois tipos de oradores simples, percebemos melhor o argumento da existência de vários tipos de aticismo. Distingue, posteriormente, após recordar que o recurso à mordacidade e ao humor era próprio do aticismo130 (89), os estilos de Lísias e Hiperides, por um lado, Demades, por

127 GRANT, Michael - Cicero, p. 53.

128 BICKEL, Ernst - Historia de la Literatura Latina, pp. 218 - 219.

129 DESMOULIEZ, André - Cicéron et son goût: essai sur une définition d'une esthétique romaine à la fin

de la République, p. 69.

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outro, a todos sobrepondo, mais uma vez, Demóstenes (90). No que concerne à teoria do ritmo, Cícero aponta ainda erros tanto a asiáticos, que dele se servem excessiva e artificialmente (230 - 231), como a aticistas, que o negligenciam por completo (234 - 235)131.

Ainda que não se veja como um asianista, Cícero advoga um tipo de discurso que era recusado pelos aticistas. O orador ideal deve, segundo Cícero, deve persuadir os seus ouvintes sem esquecer o ornamento e a elegância do discurso132. Reside aqui a sua principal crítica ao aticismo, uma vez que este estilo é incapaz de inflamar as emoções dos seus ouvintes de uma maneira eficaz (132 - 133)133.

131 CITRONI, Mario - Literatura de Roma Antiga, p. 290.

132 JESUS, Carlos - O Ritmo na Prosa, p. 42.

133 “It is interesting that Cicero, in representing the vigor of his own emotional eloquence, affirms that it

issues from a real ardor that burns his own heart when he speaks before the public (…) This representation corresponds largely with the one that Antonius, another master of pathos and its very moving effects, had provided of himself in De oratore (2.189 ff.); and it is a representation intended to negate explicitly the possibility that the emotions of the orator might be effective through pure simulation. It is curious, nevertheless, that this is preciseky the position Cicero assumes, on the contrary, in a problematic passage from the Tusculans (4.55)” (NARDUCCI, Emanuele - Orator and the Definition of the Ideal Orator, p. 435).

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