De acordo com Salústio, o primeiro impulso para o estudo da filologia em Roma terá pertencido a Crates de Malos134, que aí fora enviado como embaixador do rei Átalo, por volta de 170 a.C., e onde permaneceu durante alguns meses, os quais ocupou ministrando aulas de interpretação de textos literários. Este célebre gramático, pertencente à Escola de Pérgamo estava no centro de uma polémica relacionada com a natureza da linguagem. Defendia esta Escola que a linguagem não era arbitrária nem convencional, mas que entre as palavras existiria uma relação natural. Nesse sentido, competia ao seu estudante reconstruir a forma e o seu significado original para alcançar um melhor conhecimento da realidade. Esse afastamento da linguagem em relação ao seu estado primitivo, impedia os adeptos da anomalia de aceitar a existência de uma regularidade gramatical e morfológica. Inversamente, defendiam que a língua devia evoluir de acordo com o uso e as necessidades e admitiam a diversidade de dialectos, de flexões e de significados. Aceitavam todas as irregularidades e quase uma anarquia no vocabulário, na morfologia, na sintaxe desde que fossem conformes à natureza135.
Pelo contrário, a Escola de Alexandria admitia que entre as coisas e as palavras utilizadas para as designar existia uma relação arbitrária, instituída por meio de uma convenção, pelo que a comunicação estava dependente do respeito por esse acordo: todos os falantes de uma língua empregavam as mesmas palavras para comunicar e as palavras obedecem a regras de flexão e de nexo gramatical. Era essencial conhecer a lógica interna
134 Crates de Malos (180 - 150 a. C.), cartógrafo, gramático e filósofo estóico. Foi ainda director da
Biblioteca de Pérgamo.
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da língua, cuja componente racional adquiria um valor normativo. Os analogistas pretendiam introduzir na língua a ordem, a simetria, a harmonia e queriam que ela se guiasse pela lógica136.
Um dos filólogos mais importantes deste período inicial foi Lúcio Élio Estilão Preconino, um dos mestres de Cícero. A ele se deveu uma tentativa de conciliação entre as posições divergentes, que, contudo, não impediu que esta controvérsia granjeasse um importante lugar no debate sobre a Retórica, dividindo gramáticos e autores.
Os dois principais defensores da analogia em Roma terão sido César137 que, no tratado De analogia, dedicado a Cícero, defendia a sua adesão a esta Escola, e Varrão138, que se esforçou em estabelecer um compromisso entre ratio e consuetudo como forma de regularizar o uso da linguagem. Preocupações estilísticas juntaram-se a estas questões gramaticais e foi esse desejo de purismo que fez formar, em torno de César, um círculo de autores, que incluía Catulo, Pórcio Lícino, Calvo, Messala, Bruto e Agripa que entendiam a urbanitas como a medida da boa linguagem139.
Por seu lado, se Cícero tomou posição a favor da anomalia140, no Orator adopta uma posição de compromisso141. Nos capítulos 152 a 162, Cícero apresenta vários
136 DESMOULIEZ, André - Cicéron et son goût : essai sur une définition d'une esthétique romaine à la fin
de la République, pp. 71 - 72.
137 Gaio Júlio César(100 - 44 a.C), o célebre conquistador da Gália.
138 Marco Terêncio Varrão (116 - 27 a.C.), filósofo e antiquário romano de expressão latina. Avultam entre
as suas obras o De re rustica e o De lingua Latina.
139 DESMOULIEZ, André - Cicéron et son goût : essai sur une définition d'une esthétique romaine à la fin
de la République, p. 72.
140 DESMOULIEZ, André - Cicéron et son goût : essai sur une définition d'une esthétique romaine à la fin
de la République, pp. 71 - 72.
141 “It has become clear, however, that even if there was such a polemic between analogy and anomaly at
all (which some scholars deny), its importance was very restricted. Caesar’s De analogia, for instance, almost certainly derived its title from its broad subject matter, not from a strong ‘analogistic’ stance on
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exemplos em que o uso da língua, nos discursos quotidianos e nos versos dos poetas, difere da norma linguística. É a medida do ouvido que, em latim, justifica as anomalias aí referidas.
Em primeiro lugar, a proibição do recurso ao hiato (152), admissível em grego (151). Do hiato já Cícero falara anteriormente para dizer que o orador do estilo simples deve evitar juntar palavras a palavras, ainda que o hiato resultante do encontro das vogais revele um agradável descuido por parte do orador, que deve preocupar-se mais com os seus argumentos do que com a beleza das suas palavras (77). Porém, agora, o assunto é retomado para se esclarecer que tal é a influência da medida do ouvido na língua latina que nenhum orador deve evitar a união das vogais (150), como fizeram Teopompo e Isócrates, mas não Tucídides e Platão (151). Em latim, segundo Cícero, essa impossibilidade de separação das vogais decorre da própria língua (152), devendo ser afastado o hiato que não pode ser adoçado pela elisão. Este é admissível pelos poetas mediante as necessidades da versificação (152)142.
De seguida, Cícero fala da tendência de anulação do “s” final que se localizasse depois de uma vogal breve, como são é o caso dos exemplos apresentados no capítulo 153, e antes de uma palavra iniciada por consoante, como são os casos enumerados no capítulo 161. Esta tendência, que se vinha impondo desde o latim pré-clássico143, parecia agora perfeitamente instalada na língua e encontrava-se devidamente atestada na poesia
Caesar’s part; he took a moderate middle position, as Cicero later did in Orator (152 - 162) (WISSE, Jacob - The Intellectual Background of Cicero’s Rhetorical Works, p. 353).
142 MAROUZEAU, J. - Traité de Stylistique Latine, p. 38.
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(161). Porém, dele fugiam os poetas novos (161) que não tardaram a repor o “s” final no latim literário144.
O capítulo 153 menciona ainda outros dois fenómenos. O primeiro é o da alteração, em alguns casos, da consoante inicial “d” para “b” e o segundo, o do desaparecimento da consoante dupla “x” de uma palavra como “aala” que Cícero considera uma contracção de “axila”.
Nos capítulos 154 e 157, apresentam-se vários exemplos de contracção de palavras: Cícero manifesta claramente a sua preferência por formas sincopadas, embora alegue que é admissível o uso quer das formas completas quer das formas abreviadas. Segue-se a crítica das formas arcaicas de genitivo afastadas pelos analogistas (155 - 156), que se mantinham como uma característica sobretudo das fórmulas religiosas145. Cícero afirma usar tanto as formas arcaicas como as aceites pela norma, conforme considera adequadas umas ou outras (156).
Os capítulos 158 e 159 tratam das preposições. Cícero aprova a transformação das preposições “af”, que contém uma letra que, no seu entender, é muitíssimo desagradável (163), “in”, “ex”, “re” e “sub” (159). Considerações adicionais são feitas acerca de fenómenos de apofonia ocorridos em palavras compostas com as preposições “in” e “cum” e do alongamento ou encurtamento consoante ou não as palavras se iniciem pelas consoantes “s” e “f”.
O capítulo 160 é reservado à discussão da aspiração: apesar de saber que os antigos usavam a aspiração apenas na vogal, Cícero usá-la-ia esporadicamente. A omissão do “h” na ortografia seria vista, na época clássica, como sinal de uma instrução
144 NIEDERMANN, Max - Précis de Phonétique Historique du Latin, pp. 97. 145 MAROUZEAU, J. - Traité de Stylistique Latine, p. 124.
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literária pobre146, embora Cícero defenda que a inconsistência da sua utilização é permitida pelo juízo dos ouvidos.
Para concluir o seu raciocínio, Cícero declara que o orador deve escolher as palavras que soem bem a partir da linguagem quotidiana (163), motivo pelo qual deve evitar os helenismos (164).
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