No capítulo quarto, os autores discutem a questão da necessidade do reconheci- mento da mídia como espaço formador, ao lado da escola entendida como espaço da educação formal, desde que nascemos. Trata-se de pensar a educação em uma realidade atravessada pela mídia, conforme contextualizava Paulo Freire, na década de 1960: “vivemos no mundo e com o mundo”. Para Melo e Tosta (2008, p. 49),
um novo espaço teórico capaz de fundamentar práticas de formação de sujeitos conscientes e efetivos cidadãos. Já é consensual que a constitui- ção desse campo é uma tarefa complexa, pois exige o conhecimento da mídia como um lugar do saber, que condiciona e influencia, juntamente com a escola e outras agências de socialização, o processo de formação do indivíduo. O campo que une educação e comunicação representa
Um dos desafios é compreender a mídia como uma dimensão institucional da própria sociedade e “não como uma estrutura que lhe é exterior”, uma vez que ela reconfigura o espaço de instituições de referência, como a família e a escola. A in- sistência dos autores é que se compreenda e se incorpore o cotidiano da sociedade contemporânea onde se entende a comunicação como cultura, e uma nova alfa- betização que se dá pela mídia. Descobrir formas de buscar a convergência, seja pelo uso dos meios tecnológicos, seja pela leitura crítica da mídia, entre outros. Os
autores trazem à memória o teórico canadense, McLuhan, 1968, na sua expressão, “aula sem paredes”, para se referir ao tempo em que as crianças estão expostas à mídia, antes de frequentarem a escola.
No capítulo quinto, Melo faz um percurso sobre as interfaces da comunicação. Recupera teses da UNESCO, na década de 1960, em vista da democratização da comunicação “no período pós McBride, quando os Estados Unidos se retiraram da organização, cortando os subsídios econômicos, momento também marcado pela falência do bloco comunista, o que deixou o ‘terceiro mundo’ com um sen- timento de orfandade” (2008, p. 65). Neste contexto surgiram reações e a busca da democratização e da cidadania, o acreditar que um “novo mundo” era possível.
Lembro-me de que, em São Paulo, fomos a uma reunião sobre a Nova Ordem Mundial da Comunicação e da Informação (NOMIC), coordenada por Marques de Melo, e a grande imprensa havia sido convidada, mas não compareceu. Durante a reunião chegou um ramalhete de flores vermelhas com esta frase: “Cuidado com esta nova ordem!” Nessa ocasião, a CNBB havia publicado a “Carta aos comunicadores”5.
Melo recupera dois paradigmas da educação por meio da mídia, que reper- cutiram fortemente em território brasileiro: o cassete-forum de Mario Kaplún e a Leitura Crítica da Comunicação (LCC) da UCBC (União Cristã Brasileira de Comunicação). A originalidade de Kaplún está em partir do profissional, de um paradigma experimental, na expressão de Melo, para uma pedagogia para os comunicadores populares em vista da formação para a cidadania, sobretudo como o manual El comunicador popular (1985). José Marques de Melo, um dos fundadores da UCBC, diz que o projeto LCC, na década de 1970, se situa
no campo educacional e apresentou-se como uma sugestão de trabalho para educadores, animadores, lideranças de movimentos populares, reli- giosos e agentes de pastoral da comunicação das Igrejas cristãs. O projeto encontrou suas raízes na preocupação dos fundadores da UCBC em discutir a problemática da consciência crítica e do senso crítico frente aos meios de comunicação de massa (2008, p. 68-69).
Sobre o projeto LCC, Melo faz memória dos inícios, sua pedagogia, que princi- palmente na área acadêmica, tentou superar a concepção moralista e adotar os prin- cípios da educação dialógica de Paulo Freire. Em seus desdobramentos o LCC se organizou em quatro grupos: a) professores, estudantes e profissionais liberais; b)
5. Equipe de Reflexão do Setor de Comunicação da CNBB. Carta aos comunicadores. São Paulo, Paulinas, 1984.
grupo voltado às Igrejas cristãs em conjunto com o SEPAC (Serviço à Pastoral da Co- municação) das Paulinas; c) grupos populares na cidade e no campo; d) Seminários de avaliação e capacitação, uma espécie de pastoral da comunicação. A afirmação de que o projeto LCC, “dentro da UCBC, foi uma ação identificada com a opção evan- gélica que as Igrejas cristãs fizeram na América Latina e que as levou ao compromisso com as camadas pobres e marginalizadas do continente” (2008, p. 71).
Uma temática muito apreciada por Marques de Melo é a questão da Leitura crí- tica da comunicação. Como professor universitário, nos tempos da repressão ajudou a pensar e a criar a UCBC, associação cristã ecumênica, que muito trabalhou no pro- jeto da Leitura Crítica, conforme este relato de Pedro Gilberto Gomes (2005. p.17):
Ele dirigiu a reunião que estruturou o perfil da nova entidade e partici- pou da Comissão Provisória, encarregada de fazer o Regimento e con- solidar a nova entidade. A identidade da UCBC, aberta, ecumênica e comprometida com a resistência e o autoritarismo brasileiro, tem muito a ver com a participação de José Marques de Melo.
E a temática da leitura de livros, da mídia e do mundo perpassa outros escritos voltados à educação para a comunicação, buscando motivar o indivíduo à partici- pação, à ação política, à interferência no processo gerador da comunicação na obra: “Para uma leitura crítica da comunicação” (1985)6 que ele abre com esta frase de
Paulo Freire: “A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior lei- tura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquela”. Aqui ele trata das diferentes leituras como na escola, no jornalismo, na televisão, nas relações públicas e a necessidade de uma nova ordem na comunicação com a NOMIC e de novas lin- guagens, traduzidas na expressão de Ramiro Beltrán em seu artigo “Adeus a Aristóte- les”. Nesta obra, Melo também reproduz uma entrevista realizada com Paulo Freire7.
A trajetória de amor aos livros e à cultura em Marques de Melo, iniciou quando ainda jovem, em Alagoas, conforme ele mesmo diz numa entrevista à revista Paulinas8.
Devorava livros que as Paulinas faziam circular pelos mais distantes rin- cões do território nacional. De leitor voraz da literatura de Paulinas, a
6. MELO DE MELO, José. Para uma leitura crítica da Comunicação. São Paulo: Pau- linas, 1985.
7. Idem, “Paulo Freire: o exílio fez de mim um andarilho da obviedade”, p. 185-199. 8. Revista Paulinas, São Paulo, Ano 8, N. 27, Março de 2008, Entrevista do mês, p. 4-5.
única que, na época, chegava aos sertões do meu estado, vi-me repenti- namente convertido em colaborador educacional [...] venho mantendo laços de cooperação intelectual com a congregação desde minha inserção na universidade. A prova maior é o meu vínculo com o SEPAC.
A vinculação de Marques de Melo, em sua relação com Paulinas e com o SEPAC, citado no projeto LCC, foi marcada por sua ajuda na reflexão de uma comunicação voltada para a inclusão e a cidadania. De 1993 a 1997, sobretudo, sempre que possível, dava aulas relativas ao Jornalismo no Curso de Especia- lização, realizado em período de férias. Seu apoio estava na sintonia de uma comunicação comprometida, conforme afirma nesta mesma entrevista: “Pau- linas desenvolve um trabalho meritório, sobretudo aquele realizado junto às comunidades excluídas do banquete cultural”.