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Article II: Diagnosis: Human intuition or machine intelligence? 57

Em meio ao Agreste alagoano, a Santana da religiosidade acentuada mantém sua característica de lugarejo, mas ao longo do tempo, vem experimentando no- vidades que trouxeram mudanças. Das mais rudimentares como a instalação do 2ª Batalhão e da perseguição aos cangaceiros, passando pelos bancos de areia em meio à seca do rio que ajudaram a desenvolver o comércio em torno da Igreja, aos polos educacionais até as tecnologias que incentivam o cultivo da explícita identidade glocal, como afirma Marques de Melo. No que tange à educação, Santana do Ipanema teve o seu tradicional Ginásio Santana, criado em 1950. Formação específica e profissional chegou 6 anos depois com o curso técnico de Contabilidade. Em 1996, a Universidade Estadual de Alagoas realizou o primei- ro vestibular do Sertão para os cursos de Zootecnia e Pedagogia com 69 alunos iniciando o Ensino Superior. Vale destacar que todos os projetos de conclusão de curso deviam ser voltados a contribuições para o desenvolvimento regional. Em 2010, a UFAL, com sede em Delmiro Gouveia, surge com 8 cursos no Sertão.

Em meio à sua formação histórico-cultural, a presença do coronelismo que não temia ninguém a ponto até de destruir o cemitério da cidade na calada da noite. No primeiro setor, a produção de algodão teve destaque na passagem do século XIX ao XX em um processo que foi da manual bolandeira até as máqui- nas industriais. A chegada do automóvel fez as vias se alargarem, pois, até então, serviam como trilhas para o tráfego de montarias. A primeira estrada, chamada de rodagem, foi inaugurada nos anos 40 e ligou Santana do Ipanema a Palmeira dos Índios. Quando se pensa em tecnologia, um longo processo durou até que associemos o termo apenas a computadores e digitalização. O sistema de ilumi- nação que passou de base de gás acetileno aos candeeiros foi um marco tecnoló- gico, embora isso só pudesse ser visto nas casas de famílias mais abastadas assim como o rádio e a televisão anos a fio. Qualquer viagem ocorria de madrugada com as pessoas carregando em seu deslocamento todo o dinheiro que possuíam. Mas não se partia sem antes assistir a missa e comungar, pois, havia a crença de que se a morte ocorresse, a alma já estaria encomendada. Se os caminhos por Santana do Ipanema permitiram a passagem de montarias, depois automóveis, os trilhos também chegaram à região e o trem trouxe significativo desenvolvi- mento, sobretudo, para o comércio local. Energia, rádio, telefone, rodovias, televisão e internet foram marcos da chegada da modernidade a Santana do Ipanema que viu muito de sua tradição se transformar em folclore.

Mesmo com este leque de mudanças, talvez retardatárias se comparadas aos grandes centros, mas inovadoras para a pequena Santana do Ipanema, assim como os intelectuais da diáspora, o sonho de todo jovem, com alguma condi-

ção, era correr atrás da modernidade e não esperá-la chegar em meio ao Agreste. A vida nova buscada tinha o sustentáculo de pedir e agradecer na fé. Um desejo talvez tal qual um repente, ou seja, feito de improvisos. E esse futurismo era o ingrediente para a desvinculação do passado.

Um passado do qual José Marques de Melo faz questão de não deixar para trás. Sua intenção de reunir histórias de escritores alagoanos em “Sertão Glocal” faz com que o tempo esteja presentificado. Que a história tenha sido escrita pelos ruídos das ruas, como aponta Maria do Socorro Ricardo em seu capítulo dedicado aos tipos populares que povoam as margens do Ipanema. Nele, ela traz (ALMEIDA apud RICARDO, 2010, p.292):

Não existe um tempo, existe o tempo, sempre presente; nem passado e nem futuro. A memória factual do tempo é presente, a lembrança só ocorre no instante presente. Os tempos verbais são diferentes de todos os tempos. O presente eterniza-se no próprio presente e tudo se presen- tifica, o que se escreve, escreveu-se ou escrever-se-á, ainda assim, pode-se chamar de presentigrafia do tempo presente, e se falta à verdade nesta presentigrafia do tempo presente é a presentificidade do tempo.

Resgatar a tradição é manter a cultura viva a ponto de reconhecê-la em trânsito nos caminhos cruzados, ou como se adotou na atualidade dos estudos comunica- cionais, na convergência ou hibridismo entre tradição e modernidade. “A história de um povo só estará completa quando a participação de todos puder ser devida- mente contada” (GAIA, 2010, p.141). A tradição dessa Santana do Ipanema que manifesta sua cultura com naturalidade. Das lendas e simbolismos em torno do rio como as escaramuças, o filhote de anaconda, os funi-Ô, a Lua que bebeu água do rio, o porco que virava lobisomem, curupira, gigantes sepultados na areia do rio, peixes boca-de-pedra que comiam os pregos das canoas que atravessam o rio, da bola que sumia ao cair nas águas do rio. A Folkcomunicação que nasce da fantasia do imaginário ao realismo de um mundo separado pela tela de um computador ou do celular em uma rede que dá a alguns santanenses o direito de imaginar o real.

Por isso é “Ser tão Sertão” como intitula a reitora da UFAL, Ana Dayse Rezende Dorea, na apresentação do livro. Ou na condição de metrópole-aldeia como quer a poética de José Geraldo W. Marques. Abram as portas para a ora- lidade da tradição local com as narrativas contadas ou cantadas. Conecte-se ao mundo para o qual a Internet revestida de Tecnologia simbolicamente emoldura a aldeia santanense tal qual uma janela com vistas ao horizonte. O mesmo hori- zonte do emigrante sempre no afã de ir e vir!

Referências

ALMEIDA, Mércia Ricardo. Poemas que moram em um tempo encantado: a história do tempo só o tempo a eterniza. Florianópolis: Literatura em Santa Catarina, 2007.

GAIA, Rossana. Conquistas Santanenses: o progresso cognitivo do ginásio a universidade. In: MARQUES DE MELO, José; GAIA, Rossana (Orgs.). In:

Sertão Glocal – Um mar de ideia brota às margens do Ipanema. Maceió:

EDUFAL, 2010. 389 p.

RICARDO, Maria do Socorro. Tipos populares que povoam as margens do Ipanema. In: MARQUES DE MELO, José; GAIA, Rossana (Orgs.). In: Sertão

Glocal – Um mar de ideia brota às margens do Ipanema. Maceió: EDUFAL,

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