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Apesar de suas especificidades, as filosofias aqui examinadas têm alguns pontos convergentes quanto à idéia de causalidade. Em todas elas, segundo as interpretações aqui ensaiadas, há a aceitação de que, de algum modo, enquanto as relações causais ocorrem entre objetos, as descrições dessas relações envolvem eventos. Isso significa que apesar de tais relações poderem ser ditas de diversos modos, elas constituem transformações em objetos,

isto é, interações entre objetos, ainda que esta pareça ser ainda uma formulação confusa, pois como veremos adiante, caracterizar um objeto físico acarreta alguns problemas; em todo caso, são essas interações cujas descrições chamamos de eventos. Esse é, inclusive, um dos pontos centrais da argumentação que será levada a cabo neste trabalho.

Ao que parece, nada estamos fazendo além de expor obviedades, pois não há nenhum problema aparente em assumir que relações causais envolvem objetos e que suas descrições envolvem eventos, sejam eles ações, mudanças, ou razões. No entanto, aquilo que estamos visando é uma tese que de algum modo ecoa na filosofia desde Aristóteles: a de que as discussões acerca da causalidade podem ser enquadradas em dois grandes âmbitos de descrições: em uma, relações causais são descritas envolvendo coisas como objetos, eventos, ações, razões, respeitando como tais coisas comparecem em nossa lida cotidiana; em outra, se espera averiguar a possibilidade de que tal multiplicidade de tipos de descrições envolvem fundamentalmente um número reduzido de entidades, às quais aquelas possam ser reduzidas, ou delas sejam supervenientes.

Um primeiro passo dado nessa direção está na afirmação de que para tudo o que ocorre na natureza há um substrato material que o suporta, ainda que em nenhum momento se tenha apontado o que, em última instância, constitui a substância a partir da qual os objetos se compõem, embora se estivesse declarando peremptoriamente que os objetos são determinações particulares desse substrato.

Isso conduz a um ponto que julgamos importante, segundo o qual a variedade de tipos de enunciados causais – e de entidades assumidas –, são construídos para satisfazer nossas necessidades práticas, com uma boa dose de arbitrariedade, típicos dos consensos socialmente estabelecidos, de acordo com as necessidades de diferentes grupos. Com isto estamos querendo dizer que, para descrevermos as ocorrências do mundo, nos valemos de esquemas

conceituais para subsumir a diversidade de objetos e situações que vivenciamos. Daí, por conseguinte, que seja possível descrever processos causais de diversas maneiras.

No entanto, isso parece conduzir à possibilidade de tratarmos os objetos tanto nesse nível de nossas experiências mais “grosseiras”, quanto em nível de uma discussão mais refinada em que objetos sejam definidos com o auxílio da ciência física; questão que enfrentaremos mais adiante.

Quando falamos de uma descrição causal situada na perspectiva das ocorrências envolvendo um possível sujeito fundamental, estamos nos referindo àquilo que ocorre na estrutura íntima das relações causais, remetendo aos objetos fundamentais que constituem os objetos de nossa experiência ordinária. Estamos, portanto, tratando de uma teorização que espera subsumir todo tipo de relação causal numa definição que seja capaz de abarcá-las quando desconectadas dos significados do mundo de nossas vivências cotidianas.

Dar uma definição satisfatória acerca da causalidade tomando por base os enunciados de nossa experiência imediata parece culminar, sob essa perspectiva, numa tarefa ingrata e pouco frutífera, porque se os enunciados causais são criados acerca de eventos selecionados arbitrariamente, em todo caso, uma boa definição da causalidade parece desse modo, só poder ser dada para este sujeito fundamental, que se tem pouca utilidade prática, pode servir como uma simplificação da ontologia dos relata, contribuindo para o esclarecimento de problemas tais como o da relação entre leis e enunciados causais singulares.

Curioso que estes âmbitos não são excludentes, mas complementares, porque descrições causais cujo enfoque esteja nesse sujeito fundamental teriam o máximo de generalidade, uma vez que seriam capazes de abarcar a totalidade dos processos causais, entretanto, nesse nível, os poderes explicativos são extremamente reduzidos, haja vista que na nossa vida prática nós oferecemos aos objetos, às propriedades, aos eventos, a partir de determinados esquemas conceituais, uma semântica que nos seja conveniente.

Conseqüentemente, enquanto deste último ponto de vista não se consiga uma definição tão geral de causalidade, são tais descrições que possibilitam algum poder explicativo interessante praticamente.

Foi a isso que estivemos nos referindo ao apontar que, em Aristóteles, Hume e Kant, embora seja possível construir enunciados causais de diversos tipos, havia sempre a menção a uma estrutura fundamental subjazendo ao que se diz. Não cremos, e ao que nos parece, eles também não, que este subjacente seja alguma estrutura ou substância metafísica, mas apenas algo como um material que constitui os objetos do mundo, mais especificamente, entidades físicas básicas.

O que nos interessa é, sobretudo, que uma vez fixadas estas considerações, tenhamos já algum ponto sobre o qual se apoiar para nossa posterior discussão acerca das idéias de Donald Davidson.

Há decisivamente uma mudança no enfoque do tratamento da causalidade em Davidson, para quem o debate pretende se manter na análise lógica dos enunciados causais. Contudo, julgamos que essa pretensão não consegue mantê-lo longe, explícita ou implicitamente, dos mesmos problemas que os filósofos que o precederam, apesar da diferença dos métodos utilizados.

CAUSALIDADE E ONTOLOGIA EM DAVIDSON