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Bueno (2002) afirma que o uso do método biográfico, embora bastante recente na área das ciências da Educação, é uma perspectiva metodológica que foi largamente empregada nos anos 1920 e 1930, pelos sociólogos da Escola de Chicago, animados com a busca de alternativas pela Sociologia positivista. Davis (2003) cita como a primeira tentativa de se utilizar histórias de vida como material de pesquisa para questões sociológicas foi feita por Thomas e Znaniecki (1918/20) – “The Polish Peasant in Europe and America”. Após esse sucesso, conforme Bueno (2002), o método sofreu um colapso súbito e radical, caindo em quase completo desuso nas décadas seguintes, em razão da preponderância da pesquisa empírica entre os sociólogos americanos.

Segundo Bueno (2000), depois disso, só por volta dos anos 1980, o método passa a ser novamente utilizado no campo da Sociologia, dando ensejo a muitas discussões, sobretudo quanto aos procedimentos e aspectos epistemológicos da abordagem. Na América Latina, especialmente no final dos anos setenta e particularmente na década de oitenta, em meio aos regimes autoritários, a história oral, acompanhando o desenvolvimento da diversidade de movimentos sociais desse mesmo período, encontrou expansão e desenvolvimento (DURÁN, 1996).

Ferrarotti (1988 apud BUENO, 2000) afirma que o interesse crescente nos últimos anos pelo debate sobre esse método responde a dupla exigência. De um lado, à necessidade de renovação metodológica, em decorrência de crise generalizada dos instrumentos heurísticos da Sociologia e o questionamento de seu caráter exageradamente técnico e objetivo que, por suposta neutralidade de seus procedimentos resultaram o artificialismo da separação sujeito- objeto e o formalismo das “leis” sociais buscadas pelas investigações. Estes fatores, segundo Ferrarotti, contribuíram para a valorização crescente do método autobiográfico. Além disso, esse método corresponde à exigência de nova antropologia, devido aos apelos vindos de vários setores para se conhecer melhor a vida cotidiana, já que as teorias sociais voltadas para as explicações macroestruturais não davam conta dos problemas, das tensões e dos conflitos que tomam lugar na dinâmica da vida cotidiana, mostrando-se, portanto, “impotentes para compreender e satisfazer esta necessidade hermenêutica social do campo psicológico individual” (p. 20).

Nesse contexto, o método biográfico apresenta-se como opção e alternativa para fazer a mediação entre as ações e a estrutura, ou seja, entre a história individual e a história social. O exposto por Ferrarotti (1988 apud BUENO, 2000) é confirmado por Nóvoa (1995), ao mencionar que a utilização contemporânea das abordagens autobiográficas é fruto da insatisfação das ciências sociais em relação ao tipo de saber produzido e da necessidade de uma renovação dos modos de conhecimento científico. Para Ferrarotti (1988 apud NÓVOA, 1995), o interesse crescente pelo uso da biografia justifica-se devido à crise dos paradigmas hegemônicos da sociologia e da ciência:

O homem é o universal singular. Pela sua práxis sintética, singulariza nos seus atos a universalidade de uma estrutura social. Pela sua atividade destotalizadora/retotalizadora, individualiza a generalidade de uma história social coletiva. Eis-nos no âmago do paradoxo epistemológico que nos propõe o método biográfico. [...] Se nós somos, se todo o indivíduo é a reapropriação singular do universal social e histórico que o rodeia, podemos conhecer o social a partir da especificidade irredutível de uma práxis individual. (FERRAROTTI, 1988, p. 26- 27).

Apesar de todas as fragilidades e ambigüidades, segundo Nóvoa (1995), é inegável que as histórias de vida têm dado origem a práticas e reflexões extremamente estimulantes, fertilizadas pelo cruzamento de várias disciplinas e pelo recurso a grande variedade de enquadramentos conceituais e metodológicos. O autor enfatiza a importância da história de vida como procedimento com a finalidade de uma maior compreensão do indivíduo:

Só uma história de vida permite captar o modo como cada pessoa, permanecendo ela própria, se transforma. Só uma história de vida põe em evidência o modo como cada pessoa mobiliza os seus conhecimentos, os seus valores, as suas energias, para ir dando forma à sua identidade, num diário com os seus contextos. Numa história de vida podem identificar-se as continuidades e as rupturas, as coincidências no tempo e no espaço, as “transferências” de preocupações e de interesses, os quadros de referência presentes nos vários espaços do cotidiano. (NÓVOA, 1995, p.116-117)

Faraday e Plummer (1979) também mencionam as contribuições que a técnica de história de vida pode proporcionar, já que conseguem captar o indivíduo e sua subjetividade em relação a sua compreensão de mundo, sem deixar de dar conta da totalidade de seu contexto e suas experiências de vida. Segundo os autores, a técnica de história de vida é capaz de lidar com os problemas de:

a) A realidade subjetiva do indivíduo. As técnicas de história de vida documentam as experiências íntimas do indivíduo, como eles interpretam, compreendem e definem o mundo ao redor deles. Esta compreensão poderia ser conseguida através da observação participante, mas o foco da história de vida é acima de tudo ligado aos significados subjetivos dos indivíduos.

b) O foco no processo e ambigüidade. A técnica de história de vida é peculiarmente indicada para as descobertas das confusões, ambigüidades e contradições que acontecem na experiência do cotidiano.

c) O foco na totalidade. O método da história de vida busca localizar antes de tudo o indivíduo na totalidade de suas experiências de vida e, em segundo lugar, dentro de contexto sócio-histórico em que ele vive.

As características inerentes ao procedimento de história de vida parecem ser apropriadas para auxiliar no atingimento dos objetivos desta dissertação, já que se busca justamente entender os significados subjetivos que os gerentes dão a suas experiências de aprendizagem, tentando identificar em que momentos e de que forma o processo de reflexão ocorre. Para tanto, é preciso entender o indivíduo e sua relação com seu ambiente social de forma integrada, holística, sem fazer meros recortes que desconsideram aspectos relevantes do indivíduo e deixam escapar fatores primordiais ao entendimento da amplitude do processo.

Ferraroti (1988 apud BUENO, 2000) enfatiza que a biografia é subjetiva em vários níveis: primeiro, porque através dela o pesquisador lê a realidade do ponto de vista de um indivíduo historicamente determinado e depois, porque os materiais – em geral autobiográficos – estão sujeitos a inúmeras deformações: se escritos, decorrem do fato de ser um sujeito-objeto que se observa e se reencontra e, se orais, das interações entre o observador e o observado.

Appel (2005) afirma que há quatro princípios cognoscitivos que orientam a apresentação da história de vida pessoal:

1) A narração está ligada à perspectiva pessoal do narrador como dono de sua biografia. Devem introduzir a si mesmo como protagonista, identificar e descrever os personagens significativos em sua vida para entender sua história de vida e ambiente social. Mas, o narrador sempre regressa a história pessoal, significativamente, quando argumenta ou avalia a respeito de experiências pessoais, ou seja, quando se preocupa com a identidade pessoal.

2) Há um conjunto de experiências e acontecimentos ou um fio condutor que faz entender como o narrador está ligado a acontecimentos externos e às respectivas mudanças de seu estado interno. Os sedimentos desse conjunto de experiências se acumulam e se expressam como segmentos narrativos que têm uma ordem consecutiva.

3) A apresentação de marcos sociais (situações, meio ambiente social e mundos sociais) orienta a apresentação da história de vida. A apresentação de situações sociais de maneira cênica muitas vezes acompanha momentos marcantes ou experiências de vida inusitadas. Marca a passagem de um processo estruturado ao próximo.

4) A narração está ordenada sob um aspecto temático dominante. Tem uma gestalt global (uma história triste, de sofrimento, de superar obstáculos, de sucesso, de aprendizagem, etc.). Comunica, no preâmbulo e em passagens de avaliação, e explica a teoria pessoal do narrador sobre sua história de vida.

As características apresentadas por Appel (2005) vão ao encontro do que Seibert e Daudelin (1999) identificaram como reflexão ativa: um tipo de reflexão que definiram como sendo do tipo narrativa, caracterizada por seu aspecto pessoal, pela qual o gerente busca o significado da experiência para si quase pela construção de uma história pessoal. O termo narrativa é usado para descrever investigação e interpretação que são orientados para o eu (self) porque os gerentes expressam essa reflexão apesar de estarem construindo uma história pessoal. A história de vida pode identificar aspectos subjetivos, construídos de fora para dentro no gerente, a partir de experiências individualizadas que ganham interpretações e significados únicos. A história de vida propicia conhecer de forma profunda o indivíduo e suas interpretações em relação a experiências que vivencia, proporcionando melhor compreensão de seu comportamento. Segundo Becker (1993):

O sociólogo que coleta uma história de vida cumpre etapas para garantir que ela abranja tudo o que quer conhecer, que nenhum fato ou acontecimento importante seja desconsiderado, que o que parece real se ajuste a outras evidências disponíveis e que a interpretação do sujeito seja apresentada honestamente. O sociólogo mantém o sujeito orientado para os temas nos quais a sociologia está interessada, questiona-o sobe acontecimentos que exigem aprofundamento. [...] Assim procedendo, ele dá seqüência ao trabalho a partir de sua própria perspectiva, a qual enfatiza o valor da “história própria” da pessoa. Esta perspectiva difere daquela de alguns outros cientistas sociais por atribuir uma importância maior às interpretações que as pessoas fazem de sua própria experiência como explicação para o comportamento. Para entender porque alguém tem o comportamento que tem, é preciso compreender como lhe parecia tal comportamento, com o que pensava que tinha que confrontar, que alternativas via se abrirem para si; é possível entender os efeitos das estruturas de oportunidade, das subculturas delinqüentes e das normas sociais, assim como de

outras explicações comumente evocadas para explicar o comportamento, apenas encarando-as a partir do ponto de vista dos atores (BECKER, 1993, P. 102-103).

Abordar-se-á mais sobre a história de vida nas seções seguintes, quando será feita a apresentação dos sujeitos, do instrumento de coleta de dados e da metodologia de análise das informações obtidas nas entrevistas de campo.