A experiência de aprender uma segunda língua por adultos tem sido proposta como sendo diferente quando comparada àquela de crianças. Dessa forma, enquanto crianças adquiririam uma segunda língua tão facilmente como sua língua materna, os aprendizes adultos de L2 teriam de se esforçar bem mais e ainda assim nem sempre seriam capazes de conseguir atingir proficiência semelhante a de falantes nativos.
Segundo Nichols (2013), os efeitos de idade de aquisição de segunda língua e proficiência durante o processamento de L2 têm sido largamente estudados ao longo dos anos. A autora sugere que historicamente, o foco de pesquisas em segunda língua tem sido predominantemente a idade de aquisição.
Desde então a Hipótese do Período Crítico (LENNEBERG,1967) tem sido adotada para explicar diferenças durante a aprendizagem de L2 relacionadas à idade. Segundo Johnson & Newport (1989), após uma certa idade, a habilidade de adquirir uma segunda língua tenderia a diminuir consideravelmente ou até a inexistir em aprendizes adultos, que, ainda que se tornassem fluentes, estariam mais propensos a manter sotaque de sua língua materna e enfrentar dificuldades na língua-alvo, mais notadamente, no que diria respeito ao desenvolvimento de sentenças gramaticalmente complexas. Em contraste, nas palavras dos autores, antes da puberdade seria mais provável de se adquirir alto nível proficiência em uma L2.
No entanto, pesquisas têm mostrado que apesar de tais dificuldades serem assumidas como reais, a aprendizagem de uma segunda língua por adultos não seria impossível. Estudos como os de Nicol & Greth (2003) e de Mueller, Hahne, Fujii, & Friederici (2005) têm inclusive oferecido evidências de que aprendizes adultos seriam capazes de alcançar alto nível de proficiência.
Se L1 e L2 são assumidas, de fato, como passíveis de diferenças durante rotinas de processamento, conforme proposto em diversos estudos psicolinguísticos (COOK, 1991, 1997; GROSJEAN, 2008; LIU & NICOL, 2010), outros fatores também poderiam influenciar durante esse processamento que não só a idade de aquisição. Dessa forma, aspectos como o status da língua; se uma das línguas foi adquirida após a outra ou se L1 e L2 foram adquiridas simultaneamente; ou ainda, como se dá o armazenamento da L1 e da L2 na mente de um falante bilíngue; e como tais línguas seriam acessadas ou ativadas durante o processamento, também seriam fatores igualmente importantes mediante a afirmação (e para a compreensão)
de que L1 e L2 seriam processadas diferentemente.
Segundo Nichols (2013, p.04), um fator que poderia complicar a interpretação da literatura sobre idade de aquisição de segunda língua estaria relacionado à variabilidade observada em relação aos aprendizes de L2. Nas palavras da autora, comparar grupos de falantes com idades precoce e tardia de aquisição de segunda língua poderia ser difícil, uma vez que a proficiência seria raramente compatível entre esses grupos.
Assim, por existirem evidências reais de que L1 e L2 seriam processadas qualitativamente de modos diferentes devido às diferenças no nível de proficiência de um dado falante, seria importante considerar que tanto a idade de aquisição, quanto a proficiência seriam capazes, não apenas de influenciar, mas também de auxiliar a compreensão do fenômeno em análise.
Nichols (2013, p.05) ainda reforça que a relação entre proficiência e idade de aquisição seja bastante complexa, posto o fato de que aprendizes tardios tenderem a ser menos proficientes do que aprendizes precoces estar relacionado apenas em parte à idade de aquisição.
Para a autora, aprender uma língua tardiamente involveria muitos aspectos capazes de refletir na baixa proficiência de um falante, por existir variabilidade nos níveis de proficiência em L2 que não se poderia atribuir apenas à idade de aquisição. Fatores como status socioeconômico, motivação, exposição à L2, tipo de instrução, qualidade do input e entre outros, poderiam também, em último caso, afetar o desenvolvimento de proficiência na língua-alvo.
Por mais que se saiba que existam prováveis e inevitáveis diferenças entre a aprendizagem de L1 e L2 que possam surgir em virtude da idade de aquisição, achamos conveniente, no entanto, assumir que também possam existir diferenças envolvendo o processamento de L2 que vão além das atribuíveis à idade de aquisição.
Nichols (2013, p.06) também sugere que existam inconsistências em como idade de aquisição tem sido assumida e avaliada na literatura de estudos de segunda língua. Segundo a autora, alguns autores têm assumido idade de aquisição como a idade em que o indivíduo foi incialmente exposto a uma língua, como nos estudos propostos por Newman et al (2012); e outros, por exemplo, têm assumido idade de aquisição como a idade em que um falante mudou para o país em que é falada a L2 estudada, conforme proposto por Weber-Fox & Neville (1996).
Além disso, segundo Nichols (2013), nem todos os estudos envolvendo aquisição e aprendizagem de L2, ou ainda a comparação entre o processamento de L1 e L2 têm
empregado medidas objetivas de proficiência. Na maioria das vezes estudiosos têm optado por medidas de autoavaliação de proficiência por parte dos participantes (De Diego Balaguer et al., 2005); outros têm utilizado séries ou módulos de curso de idiomas (Chee, Tan, & Thiel, 1999) e outros ainda têm se valido de desempenhos apresentados em tarefas de tradução de textos (Perani et al., 1998, Perani et al., 2003) como medidas de proficiência.
Em contrapartida, o presente estudo utiliza-se do Vocabulary Level Test (NATION, 1990) que tem sido utilizado em estudos sobre o bilinguismo enquanto teste padronizado de proficiência (SOUZA e SOARES-SILVA, 2015).
Estudos sobre o bilinguismo têm realizado comparações entre as diferenças entre L1 e L2 não apenas entre grupos de sujeitos, mas também para cada um dos grupos de sujeitos em análise. Assim, ao tratar a proficiência como medida objetiva e usar grupo de falantes nativos e bilíngues (com diversos perfis de bilinguismo) para comparações, acreditamos ser possível, a partir do presente estudo, não apenas descrever com mais precisão, mas sobretudo, entender como ocorre o processamento de L2 por pessoas que possuem duas línguas em sua mente, quando comparadas àquelas que a tem apenas como L1.