3.6 Forskningsetiske perspektiver
4.3.2 Ressursteam
Ainda que por vezes o clima festivo pareça predominar na cobertura e seja utilizado para compensar as desigualdades sociais, estas não são esquecidas e formam a sexta categoria mais presente no corpus, em 21 textos. Desapropriações, violações de direitos, exploração sexual e exploração infantil fazem parte da rotina da cidade e foram influenciadas pela Copa do Mundo; portanto, fazem parte da abordagem dos jornais. Como todas as outras temáticas, há também ocasiões em que as desigualdades aparecem de forma genérica, mas mencionamos aqui os textos em que elas estão presentes de forma mais destacada.
Pouco se trata de desapropriações e remoções: há menção em apenas cinco textos. São dois no Diário do Nordeste, em que aparecem listadas na pauta dos protestos que
ocorreram no início da Copa; e três no jornal O Povo, dois de forma superficial, apenas para dizer que ocorreram ou ainda ocorreriam, e um de forma bastante aprofundada: em Entre a emoção e a luta, de 13 de junho, uma jornalista acompanha o jogo de estreia da seleção brasileira na comunidade Lauro Vieira Chaves, que teve parte de seus moradores desapropriada para a construção do VLT. É um dos únicos momentos em que se trata de consequências negativas da Copa do Mundo para a população da cidade; no restante do corpus, esse legado é esquecido e apagado, o que ajuda a construir um discurso positivo em torno do megaevento.
A notícia traz evidente um viés negativo das desapropriações, por vê-las sob a ótica de quem é afetado por elas. Em termos de linguagem, mais uma vez, O Povo se utiliza do jornalismo literário e da liberdade de linguagem para tratar de temáticas relacionadas à Copa do Mundo. O título, por exemplo, não tem a obrigatoriedade do verbo. O texto é narrativo, carregado de subjetividade e tem a imprecisão como marca de estilo. Dessa forma, constroem-se efeitos de sentido dramáticos à ocasião.
Do meio-dia pra tarde, se fez um domingo pelas ruelas e becos da comunidade Lauro Vieira Chaves, no bairro Vila União. Cláudio fechou a oficina de bicicletas, Expedito ocupou-se das pipocas, Janelane começou a pintar de verde e amarelo o rosto de uma fileira de meninas e meninos vestidos de Brasil, colocaram uma televisão na porta da casa da dona Maria, sortearam quem faria o primeiro gol brasileiro da partida, apostaram no placar contra a Croácia. A comunidade se enfeitou de bandeiras e flores para o primeiro jogo da Copa do Mundo no Brasil. O bougainville desabrochou um caminho rosa na entrada do beco, onde antes era receio. […] Valdenir da Silva Sales, 46, operador têxtil que trabalha madrugada adentro, passou maio “comprando plástico verde e amarelo e dando nó nos barbantes”, pra desenhar outro céu. Juntando com o pôr do sol no horizonte do velho trilho, ficou bonito de ver. Mas faltou o encanto de quando todos viviam a vida de sempre, cada coisa e cada um em seu lugar. É que, com o anúncio das obras de mobilidade urbana necessárias à Copa, a comunidade Lauro Vieira Chaves ia deixar de existir. A implantação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), ligando a Parangaba ao Mucuripe, passaria por cima de 203 casas, rotinas e amizades.
A exploração sexual e a exploração infantil também aparecem, principalmente por meio das ações especiais de combate a essas desigualdades e como uma espécie de alerta. A Copa é apresentada como um momento de exacerbação das violações de direitos já comuns, mas com o qual a cidade não estava preparada para lidar. O turismo sexual não aparece de forma recorrente, mas a imagem de Fortaleza como destino desse segmento é lembrada: nem todo turista é bem-vindo à cidade. Nessas notícias, vem à tona alguns dos aspectos negativos da Copa do Mundo. É o caso de Entidades alertam para violações de direitos, d’O Povo de 14 de junho:
Em realidades cotidianas que já são repletas de violações de direitos, grandes eventos, como a Copa do Mundo, aumentam os riscos de casos de violência e exploração sexual contra crianças e adolescentes. Em um cenário em que a rede de combate e de assistência ainda sofre com a precariedade, como em Fortaleza, a preocupação com a situação aumenta.
O Diário do Nordeste segue a mesma linha em Registros de violações de direitos crescem 150% em menos de dez dias, de 27 de junho. No início do trecho, a festa e a alegria, vistas sempre como positivas, acabam colocadas por um viés negativo:
Encobertos pela euforia em torno dos jogos da Copa do Mundo, as situações de violação dos direitos da criança e do adolescente em Fortaleza, que tendem a crescer durante os grandes eventos, vêm se alastrando desde o início do campeonato. No último dia 18, a Agenda de Convergência do Estado, rede formada por 41 instituições de defesa da infância e da juventude no Ceará, revelou que, em dois dias de plantão ao longo do Mundial, foram registrados 79 atendimentos a meninos e meninas da Capital vítimas de exploração, descaso, abuso e outros crimes. Agora, menos de dez dias depois, o número de casos já chega a 199, um aumento drástico de mais de 150%.
Turista leva imagem positiva do CE, que já teve outros trechos citados, traz representações predominantemente positivas da cidade, principalmente na fala dos turistas. O contraponto é feito por uma fonte especialista – e cidadã local –, para quem o clima de festa do megaevento ajuda a direcionar a percepção dos visitantes. Esse direcionamento é fruto também do próprio percurso limitado do turista pela cidade, que se prende à orla turística e ao Castelão.
A professora Maria Cleide Bernal comenta ainda que a desigualdade social, embora esteja presente no cotidiano da cidade, não possui grande influência na percepção dos turistas estrangeiros sobre Fortaleza. ‘Na maioria das vezes, o turista não tem nem a oportunidade de se atentar para a questão social, pois ele vem num clima de festa’, comenta. Maria Cleide Bernal continua, afirmando que, mesmo no clima da Copa do Mundo Fifa 2014, os próprios fortalezenses enfrentam dificuldades no âmbito da inclusão social. ‘A desigualdade é sentida muito mais pelo fortalezense de classe média-baixa, que acompanha toda a movimentação, mas quase sempre não tem condição de acompanhar a festa dentro do estádio. Temos outros problemas como o desrespeito À diversidade sexual, mas a sociedade brasileira está se abrindo mais para essa natureza antropológica. Há uma abertura e uma aceitação cada vez maior, e isso é perceptível para quem vem de fora’, assevera a professora da Universidade Federal do Ceará.
A fonte ouvida menciona um ponto importante de debate nas pesquisas sobre os megaeventos: o público que pode consumir a Copa do Mundo de forma oficial é formado por turistas, em sua maior parte, e pelos cidadãos locais que podem arcar com o preço dos ingressos. A Copa é, por si só, um evento excludente; e essa exclusão é exacerbada pela concentração dos investimentos realizados. O restante da população local precisa procurar
outras maneiras de experimentar a Copa realizada na própria cidade, que é apenas o palco do
“espetáculo”, obrigada a oferecer uma conjuntura específica e determinada por agentes
externos. É o único momento que essa questão é mencionada, apenas por meio da citação direta da fonte. Dessa forma, num contexto mais amplo, o jornal mais uma vez coloca em segundo plano as possíveis consequências negativas que a Copa pode gerar.
Indiretamente, essa exclusão é vista em outros textos, que têm como objetivo mostrar como os moradores do entorno da Arena Castelão experimentaram o megaevento. Quando tratamos da categoria de preços e serviços percebemos que esses moradores foram apresentados como criativos exploradores das oportunidades de faturamento trazidas pela Copa do Mundo – o que se traduz também em um cidadão a serviço do turista. Os textos mostram ainda como o cidadão precisa do turista não apenas para ter uma renda extra, mas também para consumir o megaevento e assistir aos jogos. Os moradores não podiam comprar os ingressos, que sobravam na mão dos turistas: o abismo financeiro entre os públicos fica evidente. A facilidade para os turistas, principalmente os estrangeiros, é apresentada quase como uma caridade. Nesses textos, as mudanças negativas na área também são mencionadas, como a limitação do direito de circular na região. O trecho abaixo é de Moradores do Castelão faturam renda extra com a Copa, de O Povo de 5 de julho:
Impedido de faturar com o estacionamento no terreno da família, o motorista Paulo Jamerson, 29, apostou na venda de bebidas e churrasquinho. O dinheiro já ajuda na reforma da casa. “Teve uma vez que vendi um coco a R$ 50. Quando ia dar o troco, ele saiu”, lembra. Ele conta que pôde ir aos jogos - exceto os do Brasil. “Eles ofereciam mesmo”. Assim foi com o estudante Luis Henrique Meireles, 11. “Fui bater uma foto com os alemães e eles me deram um ingresso sobrando”.
Ainda que o “clima de festa”, como disse Maria Clara Bernal, influencie a
percepção dos turistas sobre a cidade, eles não deixam de identificar também as desigualdades, mesmo que as citem de forma esporádica. Algumas passagens do corpus mencionam essa percepção negativa. Isso acontece porque a fragmentação de Fortaleza é visível mesmo na orla, devido às formas de ocupação distintas, ao descaso das autoridades, à ação da atividade imobiliária e até ao mau comportamento de quem frequenta as praias.
Simbora no chunche, por exemplo, traz a fala de um turista costarriquenho:
Em Fortaleza, no entanto, a quantidade de sujeira nas praias e a falta de infraestrutura em algumas comunidades chamaram atenção. “Você vê áreas que são claramente abandonadas, como em toda cidade latino-americana. A parte da orla é impressionante, mas tem muito lixo. Na Costa Rica, as praias são limpas. Aqui tem
muita gente que toma uma cerveja, por exemplo, e deixa a latinha por lá”, fala Sebastián.
Simbora no chunche, aliás, é também exemplo do uso de uma linguagem mais livre nos textos que tratam da Copa do Mundo. Da editoria de esportes, que historicamente traz essa informalidade, a reportagem conta a história de três amigos costarriquenhos que
percorreram de carro a América do Sul para acompanhar o Mundial. “Chunche” é uma gíria
da Costa Rica que nomeia o carro utilizado por eles; já “simbora” é uma expressão comum
no Ceará que quer dizer “vamos embora”. A escolha por esse título curto se aproxima da
oralidade, presente também em outros textos do corpus, principalmente na editoria esportiva.