No corpus analisado, hospitalidade é a quarta categoria mais citada, em 28 ocorrências, e aparece tanto na fala de fontes, com citações diretas e indiretas, quanto nos
91 Interessante perceber que, mesmo antes do início da Copa do Mundo, o jornal já a qualifica como “dos
protestos”. Essa “previsão” está relacionada às manifestações que marcaram a Copa das Confederações, em 2013, mas que acabaram tendo pouca força em 2014. O tema da reportagem também indica a preocupação do jornal e as dúvidas que caracterizaram o período pré-Copa. A qualificação, no entanto, não se concretizou.
textos, sem citação explícita. Os textos mencionam e reproduzem estereótipos e discursos já arraigados, contribuindo, assim, para ampliá-los. Copa do Mundo também deixa herança imaterial, de 15 de julho, é um dos principais exemplos. Nele, os estereótipos são reforçados
por fontes especializadas. O pronome “nosso” mais uma vez aparece como uma marca de enunciação, uma inserção do próprio jornalista no “povo cearense”:
De acordo com o sociólogo Antônio Fernando Pereira, nada foi mais digno de elogios e destaque no mundo inteiro do que o carisma do povo brasileiro e, em particular, do cearense. ‘Só isso compensou, com sobras, a falta de uma melhor estrutura e nem a derrota da Seleção Brasileira para a Alemanha, irá apagar, o que gerou frutos para o turismo [...]’, avalia. A nossa ‘tal cearensidade’, nosso jeito ímpar de ser, do acolhimento, a generosidade, a capacidade de viver com as diferenças e se adaptar a elas conquistaram aqueles que vieram ao nosso Estado, aponta a psicóloga Jânia Câmara.
O trecho fala de uma “cearensidade”, algo intrínseco ao cearense que faz alusão a
um povo vibrante e receptivo. O uso do termo corrobora com o que afirma Gilmar de Carvalho, para quem essa definição, ao mesmo tempo em que trata da construção de uma identidade, reforça estereótipos. Pelas falas das fontes, em citações diretas e indiretas, percebemos como a ideia de hospitalidade intrínseca é absorvida pelo menos por parte da população. É uma questão de orgulho e de autoestima, de uma percepção positiva de si que de fato pode se refletir na maneira com a qual o cearense trata quem vem de fora – embora ressaltemos que, como toda representação, é uma homogeneização da realidade.
O trecho revela ainda, na fala do sociólogo, o que Ireleno Benevides (1998) já havia identificado: a hospitalidade como característica do povo é utilizada para contrabalançar a falta de profissionalização dos serviços turísticos, que não se traduzem em atendimento eficiente. A qualidade dos serviços prestados ao turista aumentou desde a pesquisa de Benevides, no fim dos anos 1990, mas alguns problemas, percebemos, permanecem.
O discurso oficial também mostra essa compensação, como na já citada entrevista
com a titular da Secretaria Especial da Copa. “Não ter a disciplina do alemão”, dito pela
secretária, funciona quase como uma desculpa, uma justificativa, pelas obras que não ficaram prontas a tempo e pelos problemas de infraestrutura e logística enfrentados. A comparação é com um povo estereotipado como organizado, mas também como frio e antipático. Uma característica compensa a outra:
‘Nos planejamos e somando isso à hospitalidade do cearense, à energia positiva que nos inspira e dá a certeza que, ainda que não tenhamos a disciplina e a previsibilidade do alemão, por exemplo, a gente pode fazer benfeito e ainda melhor’.
Já vimos que os problemas no serviço turístico são citados em outros textos do corpus e um dos entraves é a comunicação entre turistas e cidadãos, que falha pelo
desconhecimento do idioma. Nós, fortalezenses, “arrumamos a casa” - uma metáfora
recorrente – para receber os turistas, mas eles esbarraram na dificuldade no atendimento do comércio e até no atendimento policial, como aponta o turista que não encontrou quem falasse inglês ou espanhol na Deprotur (Delegacia de Proteção ao Turista ganha reforço, 13 de junho, O Povo).
A comunicação falha até de quem trabalha diretamente com os estrangeiros, porém, é compensada pela boa vontade dos cidadãos locais, como em Sobra boa vontade no fortalezense, de 23 de junho. Nessa reportagem, duas jornalistas de O Povo percorrem a orla turística da cidade e testam os serviços, passando-se por estrangeiras. É um quadro chamado
Entrei na história, fixo no jornal, em que os próprios repórteres experimentam atividades e profissões e escrevem sobre a vivência. O texto é escrito em terceira pessoa, mas a subjetividade é presente na própria narrativa da experiência. Estratégias do tipo aproximam o jornal de seu leitor, na tentativa de criar um elo entre eles e de fidelizar a clientela. Elas são mais comuns em O Povo, em comparação com o Diário do Nordeste, e fazem parte da linha editorial do jornal.
A boa vontade citada no trecho abaixo é caracterizada pelo atendimento e pelas informações dadas por moradores, por um taxista e por funcionários de uma empresa de
ônibus, mesmo por meio de mímicas. O advérbio de lugar “aqui” ancora o texto na realidade – uma das estratégias de real citadas no capítulo um.
Não deve ser fácil estar na Capital e precisar descobrir tudo por conta própria, e, apesar das dificuldades, a boa vontade local parece facilitar a vida de quem aparece por aqui. [...] Na terra que se orgulha da sua tradição turística, o idioma ainda é uma barreira, mas não um empecilho. A boa vontade parece suprir a carência de internacionalidade.
A criatividade do cearense é o que compensa a comunicação falha. No trecho abaixo, o jornalista aproveita o regionalismo dito pela fonte para acrescentá-lo ao próprio texto, mostrando, mais uma vez, que a cobertura da Copa do Mundo não ficou presa à
linguagem típica do jornalismo informativo. O parágrafo traz ainda uma mirada ao processo de apuração da notícia.
O comerciante Renam Harlen de Souza, 23 anos, não tem dúvidas de que é assim que vai faturar pelo menos 30% a mais do que o habitual nos próximos 30 dias. “Fazendo ‘mungango’ todo mundo se entende”, brinca. Foi fazendo ‘mungango’ que o seu companheiro de barraca conseguiu vender duas camisas para um casal de uruguaios. Nem deu atenção à reportagem. Sem dominar o idioma dos clientes, precisou se concentrar ao máximo nos gestos do casal. “Quando é na hora de dizer o preço mostro na calculadora e eles entendem”, ressalta (grifo nosso).
No que diz respeito aos serviços turísticos, como é fato para outros tipos de serviços prestados, é fundamental uma comunicação efetiva para que o cliente – nesse caso, o turista – tenha suas necessidades atendidas e o serviço seja de qualidade. Os investimentos em qualificação e treinamento em outros idiomas são necessários, portanto, mas não se pode exigir que cidadãos locais que não estejam inseridos diretamente nessa indústria sejam obrigados a aprender novos idiomas exclusivamente para atender bem os visitantes
estrangeiros. É o que parece querer o jornal, quando fala em “carência de internacionalidade”: mesmo Fortaleza sendo um destino turístico mundial, não está ainda
inserida numa rede globalizada. Isso faz parte das transformações vistas como necessárias para competição do mercado de cidades. Nesse ponto, o povo é colocado a serviço do turista.
As qualidades dos habitantes locais, principalmente a hospitalidade, são identificadas como atributos do lugar. Em Turista leva imagem positiva do CE, de 29 de junho no Diário, as autoridades enfatizam discurso semelhante:
Para o secretário de Turismo [de Fortaleza, Salmito Filho], um dos diferenciais de Fortaleza sentido pelos turistas é a boa recepção por parte dos fortalezenses. “O fortalezense é um dos povos mais hospitaleiros do mundo. A alegria da nossa gente é um dos índices mais destacados pelos turistas em pesquisas realizadas pela Embratur, autarquia do Ministério do Turismo”.
A escolha de alguns termos para representar a cidade e o comportamento dos
fortalezenses ilustra bem essa ideia. Ambos os jornais recorrem a expressões como “abrir as portas”, “cidade acolhedora por excelência”, “acolher bem”, “cidade que sabe receber os turistas”, “arrumar a casa”, metáforas que marcam o papel de anfitrião do fortalezense, como
em A Fortaleza que abriu as portas ao torcedor, de 14 de junho:
Várias famílias afastaram os móveis da sala para receber em casa turistas estrangeiros que vieram assistir aos jogos do Mundial. Depois de cinco anos de
obras, reparos de emergência e um bocado de polêmicas, a casa ficou mais ou menos arrumada para este sábado histórico, data em que Fortaleza recebe, pela primeira vez, um jogo de Copa do Mundo. A cidade que de algum modo se adaptou ao megaevento é a mesma que encontrou um jeitinho de afastar os móveis e acomodar, no próprio lar, torcedores estrangeiros que vieram para a competição.
O que o jornal e os moradores da cidade dizem é também referendado, em várias passagens, pelos turistas estrangeiros e brasileiros ouvidos. O cearense é visto ainda como simpático e amigável. Em Turista leva imagem positiva do CE, o Diário do Nordeste realiza uma pesquisa informal para descobrir que imagem do estado os turistas têm. Nesse caso, a
pergunta feita é “O que você está achando de Fortaleza?”, que, na forma escrita, parece não
ter nenhum direcionamento para respostas positivas ou negativas. Cinco são os estrangeiros citados, que reproduzem visões muito semelhantes da cidade e das pessoas. As citações de duas fontes são tão parecidas que levantam a possibilidade de ter havido um erro no processo
de escrita: “Sabíamos muito pouco sobre Fortaleza antes de vir, mas as praias são muito lindas e as pessoas são amigáveis, estão dispostas a ajudar. É um paraíso’, comenta Helena Wanni, natural do Equador” e “ [...] eu gosto muito daqui. As pessoas são muito amigáveis e dispostas a ajudar, além das praias que são lindas’”, da sueca Caroline Starkman.
É um discurso circulante reforçado pelas autoridades e pelas fontes consideradas especialistas (como é o caso da psicóloga e do sociólogo ouvidos em uma reportagem citada anteriormente). A hospitalidade e a alegria de sua população seriam, nessa perspectiva, o diferencial de Fortaleza como cidade turística. Percebemos, porém, que essa estratégia é comum a vários lugares: a visão do povo como atributo e atração não é um discurso novo e está de acordo com as ideias do Plano Aquarela, que orienta a promoção do Brasil no exterior. A estratégia está também em consonância com Kotler et al. (2005), que considera a promoção do povo como um dos recursos a serem mobilizados no marketing de lugar. O que é visto como um diferencial, na verdade é uma padronização.
O cidadão faz parte da experiência de consumo da cidade e é vendido como tal. Como vimos no capítulo anterior, o discurso oficial busca orientar uma autoimagem do povo como protagonista da Copa do Mundo, como imprescindível para o sucesso do megaevento, o que garantiria a adesão e a coesão social em torno do modelo de gestão da cidade- mercadoria. Esse discurso é enraizado nas representações históricas também anteriormente citadas, reproduzido e reforçado tanto pela propaganda da cidade-sede da alegria quanto pelo jornalismo.
Vale ressaltar, no entanto, que uma das representações históricas vinculadas ao povo brasileiro, a da mulher bonita, quase não aparece no corpus – apenas uma menção, na fala de um turista. Embora essa seja uma representação ainda recorrente no imaginário internacional, isso pode ser atribuído, em parte, aos esforços da promoção nacional, que parou de promover oficialmente a mulata como atrativo turístico brasileiro. A consolidação de novas representações, substituindo outras, é um processo demorado, mas essa ausência já pode ser um indicativo de que representações não desejadas, oficialmente, do povo brasileiro estão sendo reduzidas.