3.3 Ethics
4.1.3 Response per sentence
Após a revisão dos dois trabalhos que têm o romance de Inso como um dos objetos de estudo, podemos resumir que no excerto estudado na presente tese, Simas, tendo o objetivo de esclarecer algumas rotas para localizar a cultura de Macau, antes de se dedicar ao romance de Inso, demonstra com destaque a génese cultural da obra – definida com base no pensamento de Eduardo Lourenço – e, aproveitando-se dos argumentos de Homi Bhabha sobre a questão da “ambivalência do discurso colonial”, examina a relação entre a autoridade de Portugal e a alteridade (sobretudo da China) que existia em Macau e que está presente no romance. Além disso, Simas expõe a outra face de Macau – a comunidade macaense – a que a obra dá visibilidade. No entanto, o artigo de Brookshaw, realçando nomeadamente os aspetos político e histórico do contexto em que foi criado o romance, trata a obra principalmente sob a orientação das teorias de Edward Said. Por conseguinte, através da revisão destes dois trabalhos, observámos e refletimos sobre os comentários que uns são os complementos dos outros e que, considerando-se como um conjunto, constituem uma abordagem global do romance.
Depois de terminarmos a revisão dos três trabalhos que se ocupam da análise da escrita de Maria Ondina Braga, notamos, primeiro, um tópico comum entre os três, isto é, ao indicarem, respetivamente, a transmissão das “suas próprias interrogações existenciais” e da “observação de realidades outras” (cf. Graziani 2010, 142), concretizada por Ondina Braga através da escrita; o mecanismo da configuração da
alteridade e da identidade, que funciona no romance Nocturno em Macau (cf. Gago 2010, 173, 175); “a margem de ilusão que reside no processo de interação com o outro” e a sondagem conseguinte das “instáveis fronteiras que envolvem a identificação de si próprio em relação aos valores culturais do outro lado da margem” (cf. Simas 2007, 257- 258); Graziani, Gago e Simas demonstram unanimemente a existência de um duplo percurso – ao passo que face ao mundo exterior a escritora/ as protagonistas se encontra(m) com, conhece(m) e até participa(m) na realidade do Outro, rumo ao seu íntimo, descobre(m) e esclarece(m) constantemente a própria identidade – que é vivenciado pela escritora/ pelas protagonistas dos livros criados, durante a sua errância sem parar.
Em relação à semelhança entre os trabalhos de Graziani e de Gago, observamos que, nas conclusões de ambas, sintetizam a coexistência das duas realidades (portuguesa e chinesa) em Macau e a imagem da cidade, que são representadas na escrita de Ondina Braga, das seguintes formas: “[…] Portugal e a China aparecem como dois mundos fortemente unidos […]; um entrelaçamento […] representado pelo papel unificador que Macau revestiu […] como ‘porto entre dois impérios’” (Graziani 2010, 148) e “[Macau] assume-se como a ponte entre dois mundos, onde o Ocidente e o Oriente se mesclam numa harmonia cultural, espiritual e humana sem barreiras físicas nem espirituais” (Gago 2010, 175). Assim, parece-nos que Graziani e Gago incorrem na repetição de uma “fórmula simplista que afirma ser Macau um espaço especial porque é um lugar de encontro de culturas” (Simas 2010, 35). Nesta situação, é razoável pensar que as afirmações supracitadas de Graziani e de Gago se desviam de representações originais feitas por Ondina Braga nos seus textos “orientais”.
No que toca à analogia que existe entre os trabalhos de Gago e de Simas, no seu artigo, Gago refere-se à “força” vital que impulsiona Ester a realizar o seu deslocamento rumo ao Extremo Oriente (cf. Gago 2010, 170), e, no excerto extraído do livro de Simas, encontrámos a equivalência dessa “força” – a “busca” mental e física do “equilíbrio” que resulta do facto de que “[a escritora] ‘viera a Macau movida pelo sonho do Extremo Oriente’” (cf. Simas 2007, 265-266).
Ao compararmos os trabalhos de Graziani e de Simas, que fazem retrospetivas de obras da escritora, percebemos as seguintes diferenças: na sua análise, Simas examina a trajetória da escritora pelo mundo inteiro (tanto percorrida no sentido geográfico como gravada na sua própria memória), todavia, no seu trabalho, Graziani realça o percurso existencial da escritora no Extremo Oriente. Além disso, Simas demonstra-nos a tendência da escritora para “reunir seu ser dividido e disperso pelos lugares”, ou seja, para “solidificar sua própria identidade” (ibid., 262 e 261, respetivamente), no entanto, por sua vez, Graziani destaca a identificação quase completa da escritora em relação à cultura chinesa (cf. Graziani 2010, 144, 149).
Para concluir a revisão literária, precisamos de indicar que raramente há trabalhos que abranjam simultaneamente O Caminho do Oriente e Nocturno em Macau como objetos de estudo e, de entre os trabalhos que aqui incluímos, somente o livro de Simas aborda ambas as obras. Contudo, após ponderarmos sobre os dois passos relevantes para o nosso trabalho, entendemos que, com a análise de O Caminho do Oriente, Simas procura examinar “o estranhamento que o reconhecimento das diferenças implica” e demonstrar o papel intermediário da comunidade macaense, a que o romance dá
visibilidade (cf. Simas 2007, 132 e 142); e que, no estudo destinado a Nocturno em Macau, a autora contempla a identificação da protagonista em relação à cultura chinesa e daí propõe “a apreensão impossível do mundo chinês pelo sujeito português” (cf. ibid., 266).
Nestas circunstâncias, podemos afirmar que o nosso trabalho possui um lugar distinto entre os trabalhos dedicados às experiências e às criações literárias de Jaime do Inso e de Maria Ondina Braga, em relação a Macau e à China, uma vez que focalizando os dois romances, os principais pontos de interesse da investigação que iremos desenvolver nos seguintes capítulos do presente trabalho são 1. delinear as autoperceções portuguesas; 2. examinar as atitudes das personagens portuguesas ao contactarem com a realidade chinesa em Macau e ao interagirem com os chineses que lá encontram; 3. demonstrar as representações do mundo chinês e da coexistência entre as comunidades portuguesa e chinesa em Macau; e 4. refletir sobre as semelhanças e as mudanças manifestadas nas duas obras, de uma visão comparativa.
Apesar disso, os trabalhos anteriores comentados neste capítulo e os de outros críticos, a que, ao longo do desenvolvimento do presente trabalho, nos iremos referir eventualmente e que aqui não são incluídos (Besse 1994; Brookshaw 2003; Martins 2017; Mateus 2017; Puga 2016; Pereira 2015; Simões 1981; Simões 2010; etc.), merecem o nosso agradecimento uma vez que servem do fio condutor das nossas inspirações e reflexões e poderão oferecer apoios à nossa futura argumentação.