A perspectiva de expansão do setor sucroalcooleiro , a modernização das usinas existentes e a maior capacidade de gerar excedentes de energia por tonelada de cana tem dado ao setor um papel relevante no parque gerador de energia elétrica nacional.
A importância do setor sucroalcooleiro se potencializa ao considerar o risco de racionamento igual a 30% em 2011, estimado pelo Instituto Ascende Brasil e a PSR Consultoria, divulgado em (CAMARGO, 2007). Caso a demanda de energia elétrica aumente motivada pela intenção do governo de acelerar o crescimento econômico do país e as principais obras de expans ão no fornecimento de gás e no aproveitamento hídrico atrasem, o risco de racionamento de energia é bem alto em 2011.
A capacidade instalada do Bras il (30/11/2007), considerando todo o parque gerador, inclusive os aproveitamentos existentes que compõem os Sistemas Isolados, as interligações internacionais já em operação e também a parcela de Itaipu importada do Paraguai, é da ordem de 108. 407 MW (ANEEL, 2007t).
Desconsiderando as interligações internacionais, são 1. 674 empreendimentos de geração que compõem a capacidade instalada brasileira , 100.267 MW, em detalhe na tabela 6.10
(ANEEL, 2007t).
Tabela 6.10 - Matriz de energia elétrica
Empreendimentos em Operação Tipo Capacidade Instalada % Total % N.° de Usinas (kW) N.° de Usinas (kW) Hidro 662 76.821.261 70,84 662 76.821.261 70,84 Gás Natural 78 10.193.502 9,40 108 11.344.480 10,46 Processo 30 1.150.978 1,06
Petróleo Óleo Diesel 575 2.917.986 2,69 597 4.387.880 4,05
Óleo Residual 22 1.469.894 1,36 Biomassa Bagaço de Cana 237 2.986.641 2,75 281 4.044.615 3,73 Lixívia 13 794.817 0,73 Madeira 26 224.207 0,21 Biogás 2 20.030 0,02 Casca de Arroz 3 18.920 0,02 Nuclear 2 2.007.000 1,85 2 2.007.000 1,85 Carvão Mineral Carvão Mineral 7 1.415.000 1,30 7 1.415.000 1,30 Eólica 16 247.050 0,23 16 247.050 0,23 Importação Paraguai 5.650.000 5,46 8.170.000 7,53 Argentina 2.250.000 2,17 Venezuela 200.000 0,19 Uruguai 70.000 0,07 Total 1.673 108.437.286 100 1.673 108.437.286 100
Conforme a tabela 6.10, as centrais térmicas que utilizam biomassa como fonte primária de energia representam 3,73% da matriz de energia elétrica brasileira, considerando as interligações internacionais. As centrais térmicas cogeradoras de bagaço de cana representam 73,83% das geradoras que utilizam biomassa como fonte de energia e 2,75% da matriz de energia elétrica brasileira , cerca de 2.986 MW, em 237 empreendimentos.
A oferta interna de energia elétrica, formada pela importação e geração nacional foi de 460,5 TWh em 2006. Desse montante, a parcela importada corresponde u a 41,4 TWh, cerca de 8,9% da oferta interna de energia elétrica. A geração nacional corresponde u a 419,1 TWh, composta por centrais elétricas de serviço público e autoprodutoras (EPE, MME, 2007).
A energia gerada em centrais elétricas de serviço público corresponde u a 377,6 TWh em 2006, sendo 88,9% de centrais hidroelétricas, 335,8 TWh e 11,1% de centrais termoelétricas, 41,8 TWh (EPE, MME, 2007).
As centrais autoprodutoras geraram 41,7 TWh, 13,0 TWh tiveram origem em centrais hidroelétricas, 14,3 TWh em centrais termoelétricas a partir de biomassa e 14,4 TWh foram gerados a partir de fontes fósseis (EPE, MME, 2007).
A geração termoelétrica a partir da biomassa sendo fontes principais aí incluídas o bagaço da cana e a lixívia, teve a cana com a maior participação, 8,3 TWh, ou o equivalente a 954 MW médios de energia, cerca de 2,0% da geração nacional e 1,8% da oferta interna de energia elétrica. A tabela 6.11 apresenta dados da evolução da energia gerada por autoprodutores (EPE, MME, 2007).
Tabela 6.11 - Energia gerada por centrais elétricas autoprodutoras
1994 2005 2006 % aa 94 / 063 %05 / 064 % 06 / 065 Hidráulica 3.238,0 12.403,7 13.044,5 12,3 5,2 31,3 Biomassa 5.387,0 13.873,0 14.279,3 8,5 2,9 34,2 Lenha 666,1 617,8 459,8 -3,0 -25,6 1,1 Lixívia 2.165,7 4.814,8 5.198,9 7,6 8,0 12,5 Bagaço de Cana 2.313,7 7.603,1 8.356,6 11,3 9,9 20,0 Outras 241,5 837,3 264,0 0,7 -68,5 0,6 Gás Natural 479,2 4.913,6 5.209,3 22,0 6,0 12,5 Derivados de petróleo1 3.136,1 3.433,7 4.206,1 2,5 22,5 10,1 Carvão mineral2 346,7 305,1 240,0 -3,0 -21,4 0,6 Gás Industrial6 1.579,0 4.852,9 4.713,3 9,5 -2,9 11,3 14.166,0 39.782,0 41.692,5 --- 4,8 ---
1Derivados de petróleo inclui gás de refinaria 2 Carvão mineral inclui alcatrão
3 Taxa média de crescimento ao ano que reproduz variação do parâmetro entre os anos 1994 e 2006 4 Variação do parâmetro entre os anos de 2005 e 2006
5 Participação do parâmetro no total do ano 2006
6 Gás industrial inclui gás de alto forno, gás de coqueria e gás de aciaria e enxofre Autoprodução por fonte de energia
(GWh)
Autoprodução total de energia elétrica
Conforme a tabela 6.10, a energia elétrica de centrais térmicas cogeradoras de bagaço de cana teve um crescimento de 11,3% ao ano entre 1994 a 2006, saindo de 2.313 GWh para
8.356 GWh. Cabe observar que a maior taxa de crescimento durante a última década ocorreu no período de 2001 a 2003, proporcionado pelo aumento n o custo da energia adquirida (reserva de capacidade) e no alto valor da energia comercializada no mercado de curto prazo, remunerando investimentos na geração de energia excedente (EPE, MME, 2007).
Do total da energia elétrica gerada por biomassa de cana em 2006, 85% foi consumido pelo próprio setor sucroalcooleiro, 7.103,9GWh e o restante, 1.252,7 GWh, exportado. De 2005 a 2006 a energia exportada pelo setor teve um crescimento de 13,6%, saindo de 1.102,9 GWh para 1.252,7GWh (EPE, MME, 2007).
O consumo final de energia elétrica brasileiro descontadas as perdas na rede alcançou 390 TWh em 2006. Os setores mais representativos fo ram o industrial com 47% do consumo de energia elétrica do país, 183,4 TWh, seguido do residencial e do comercial com 22% e 14% do consumo total do país, respectivamente (EPE, MME, 2007).
O mercado de fornecimento livre e regulado, representado pelo consumo faturado e/ou medido por agentes de distribuição, transmissão e geração, excluídos os autoprodutores em que a produção e o consumo se dão no mesmo sítio, atingiu 348,3 TWh em 2006. Destaca- se o crescimento de 21,2% do fornecimento de energia elétrica no mercado livre em relação ao ano anterior, que representou em 2006, 24,2% do montante total de fornecimento, 84 TWh (EPE, 2007 c).
A parcela da autoprodução de energia transportada nos Sistemas Interligado e Isolado representou 3,7% do mercado de energia elétrica em 2006, 9,2 TWh. Desta forma, a exportação de energia elétrica do setor sucroalcooleiro representou 13% da autoprodução de energia transportada, 1,252 TWh (EPE, MME, 2007), (EPE, 2007c).
O subsistema Sudeste/Centro -Oeste, que faz parte do Sistema Interligado, é o de maior representatividade nacional com 60% de todo o mercado, 207,4 TWh. A parcela da autoprodução transportada do subsistema Sudeste/Centro -Oeste representou 4,3% do fornecimento de energia elétrica naquele subsistema e 97,8% da parcela de autoprodução transportada nacional, 9,0 TWh (EPE, 2007c).
A grande representatividade do subsistema Sudeste/Centro -Oeste na autoprodução transportada caracteriza, em partes, as exportações de energia do setor sucroalcooleiro, já que 88,6% da produção canavieira nacional concentra-se na região (CONAB, 2007). Embora a oferta da biomassa de cana-de-açúcar e a cogeração de energia sejam sazonais, no caso da região sudeste de maio a novembro, este coincide com o período de estiagem na região Centro-Sul, em que a geração termelétrica pode complem entar a geração hidrelétrica.
Como externalidades positivas à geração de energia via biomassa da cana pode-se citar (EPE, MME, 2007), (EPE, 2007c), (MAUÉS, 2007), (PRADO, 2007):
a) a grande parte do potencial de geração de energia via bagaço da cana localiza-se próxima aos grandes centros de consumo, acarretando baixos custos de transmissão e/ou conexão às redes de distribuição em baixa tensão com redução das perdas no transporte; b) a cogeração de bagaço é realizada por tecnologia dominada e que pode ser disponibilizada em prazos relativamente curtos, com equipamentos fabricados no país; c) o uso da biomassa de cana como fonte primaria de energia é positiva porque reduz o risco da dependência de chuvas, sem aumentar a dependência por combustíveis fósseis; d) o incremento do parque gerador reduz a dependência de energia brasileira por terceiros países, que cresceu 5,7% de 2005 a 2006, saindo de 39,2 TWh para 41,4 TWh;
e) trata-se de uma energia renovável de menor nível de emissões de poluentes atmosféricos; e
f) fonte de geração de energia com metodologia aprovada dentro do Protocolo de Quioto com possibilidades reais de receber investimentos com a comercialização dos Créditos de Carbono.
De acordo com o Plano Decenal de Expansão de Energia 2006-2015 elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética existe no país um potencial de oferta superior a 500 MW por ano, em termos de capacidade instalada em novos projetos de cogeração à biomassa da
cana. Até o fim do período decenal, a capacidade instalada terá um acréscimo de 6.000 MW, capaz de contribuir com cerca de 3.000 MW médios de energia por ano ao SIN (EPE, 2007c).
Assim, de acordo com as projeções elaboradas pela EPE, em 2016 o setor sucroalcooleiro terá a capacidade de gerar 3.138 MW médios de energia por ano ao Sistema Interligado Nacional (EPE, MME, 2007), (EPE, 2007c).
Este potencial está distribuído na região Sudeste/Centro Oeste, principalmente nos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Goiás na proporção de 80% e na região Norte-Nordeste, principalmente nos estados de Alagoas, Pernambuco e Maranhão na proporção de 20% (EPE, 2007c).
Para fins deste Plano Decenal foram adotadas como premissas a evolução da safra, próxima a 7% ao ano e o potencial anual das ofertas formado pela soma dos montantes de energia das novas usinas, na proporção de 90% e usinas reformadas na proporção de 10%. As projeções realizadas por (MAUÉS, 2007) revelam o acréscimo de 5.500 MW médios de energia ofertada à rede em 2015, caso as noventa e oito novas usinas anunciadas para entrar em operação adotem caldeiras de 85 bar /480ºC.
A União da Indústria de Cana -de-açúcar estima o potencial de 9.699 MW médios de energia ofertada à rede em 2013 assumindo que 75% do bagaço e 50% da palha da safra 2012/2013 sejam utilizados em caldeiras de alta pres são para gerar energia (UNICA, 2007).
Ademais, o potencial de oferta identificado que poderia ser viabilizado a partir da utilização da biomassa dependerá em grande parte das condições para a comercialização desta energia elétrica nos ambientes regulado e livre, das linhas de crédito disponibilizada s para o financiamento desses empreendedores e da reestruturação das usinas que atualmente operam com baixa eficiência.
6.6 - COMPETITIVIDADE DA COGERAÇÃO DA BIOMASSA DA CANA EM