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O relato de Jorge Melo suscita o debate quanto à produção artística e cultural naquele início de anos 70, quando claramente alguns se consolidavam na indústria fonográfica, mesmo no caso de Jorge Melo, tendo assinado contrato com a gravadora depois do Festival. Percebe-se, no entanto, que cada um desses artistas tomou suas próprias decisões e percursos e, por vezes, dividindo-se na busca pela sobrevivência entre o eixo Rio de Janeiro e São Paulo que acabou tornando-se mais fatídico e mais doloroso para alguns do que outros.

Todavia, antes do sucesso e logo após a chegada, esses artistas fixaram-se entre Rio de Janeiro e São Paulo. Belchior ficou morando em São Paulo em uma casa do cineasta Mário Kupermann, Fagner e Ednardo ficaram no Rio de Janeiro transitando nesses dois pólos. Por

intermédio provavelmente d da USP, teria ocorrido o con almoço, conhecido como ba presença dele, Belchior, Ro suas apresentações, o jornal à nossa casinha na rua Osca feliz e assustados”.268 Por outro lado, o jornalista Maia na Rádio e TV Bande Rogério deixou Brasília par frente à casa de Belchior.

Ficha Técnica do programa da R

268 EDNARDO. OP. Cit., p. 15.

e de um estudante que era presidente de um dos convite para o “Pessoal do Ceará” apresentar-se bandeião. Segundo Ednardo, a primeira aprese

odger e Teti, que havia chegado de Brasília. D alista Júlio Lerner que trabalhava na TV Cultu car Freire e felizes um convite que nos deixou,

ta Júlio Lerner já havia entrevistado o Belchior, deirantes em São Paulo antes de ele chegar. Par ara lecionar Física na USP em 1972 alugando u

Rede Tupi de Televisão, 1972. Cedido por Jorge Melo

os diretórios estudantis se no intervalo do sentação teve a . Diante do sucesso de ltura de São Paulo, “foi

u, assim, totalmente

or, o Cirino e o Petrúcio articularmente, Rodger o um apartamento em

Cedido por Jorge Melo.

Logo no primeiro mês de sua chegada, o jornalista Júlio Lerner os procurou, uma vez que pretendia inaugurar, na TV Cultura, o programa “Proposta”. Em verdade, Júlio Lerner teria convidado inicialmente o grupo MPB 4 que, ao saber da proposta do programa, que era fazer músicas, imediatamente, recusou. Diante da recusa do MPB 4, Júlio Lerner procurou

Belchior, pois o conhecia antes, marcando uma reunião com o grupo do “Pessoal do Ceará”, que aceitou a proposta. Jorge Melo teria participado do primeiro programa, contudo deixou-o, visto que estava gravando o seu disco, e Fagner, apesar de ter sido convidado, não participou porque também estava envolvido na gravação de seu disco.

No programa “Proposta”, Júlio Lerner convidava personalidades do mundo artístico para entrevistá-los. Os artistas cearenses participavam da seguinte maneira: conversavam entre seis a oito horas com o convidado no dia anterior; no dia seguinte, na hora da entrevista, Júlio Lerner preparava um roteiro e pedia uma música de acordo com a resposta do entrevistado, ou uma música para preparar uma pergunta ou, ainda, uma música para comentar a resposta do entrevistado. Conforme Rodger: “Ele entregava em um dia, e com dois dias a gente tinha que estar com a resposta pronta; letra e música, já ensaiada para gravar. A gente tinha uns dois a quatro dias para fazer tudo isso”.269

Certamente, esse programa foi de grande importância na perspectiva da ampliação dos contatos para o “Pessoal do Ceará”, já que todos entrevistados eram bastante respeitados no mundo artístico e cultural no Brasil. Portanto, foi descoberto que a canção “Ingazeiras” foi inspirada na entrevista do internacional artista plástico cearense Aldemir Martins. Assim, Ednardo narrou: “Ingazeiras” foi justamente quando ele disse assim: “eu nasci lá pelas Ingazeiras (...) eu sou uma pessoa muita atirada, fui criada na verdade foi no ôco do mundo”.270

Nascido pela Ingazeiras Criado no oco do mundo Meus sonhos descendo ladeiras Varando cancelas, abrindo porteiras Sem ter o espanto da morte

269 Entrevista com Rodger Rogério em sua residência na cidade de Fortaleza no dia 02.06.2002, p. 10. 270 Id. Ibidem, p. 16.

Nem do ronco do trovão O sul, a sorte, a estrada Me seduz É ouro, é pó É ouro em pó Que reluz É ouro em pó É ouro em pó Que reluz

O sul, a sorte, a estrada Me seduz271

Apesar de não ser longa, a letra da canção revela muito da perspectiva dos artistas, músicos ou não em alcançar o sucesso em terras desconhecidas. A expressão “ôco do mundo” enuncia bem o lugar do artista nordestino em relação à grande mídia; do ôco do pau seco do sertão, isolado, sem a possibilidade de sua arte ter maior visibilidade e reverberação na cidade grande. Por outro lado, o arranjo seguro do maestro Hareton Salvanini conseguiu expressar muito bem o desejo revelado na letra com uma harmonização melódica elaborada, casando-se com a orquestração e dando a medida certa às informações ao inserir cada instrumento ao longo da canção.

Além da canção “Ingazeiras” de Ednardo, outra canção, “Chão Sagrado” de Rodger Rogério, despertou atenção por ter sido composta nas circunstâncias do programa “Proposta”, ao entrevistar o compositor Paulo Vanzolini. No decorrer da entrevista, Paulo Vanzolini teria comentado o seguinte: “Ah! Meu filho, eu conheço tudo isso... já viajei pelo nordeste. Aquilo lá é um chão sagrado, Rodger fez essa música”.272

Você conhece o nordeste Palmilhou seu chão sagrado Viu cascavel e colunas Sol quente pra todo lado Você conhece o nordeste Morro branco e Quixadá Palmilhou seu chão sagrado Por isso pode falar

Minha viola em meu peito Canta e nunca desafina Ela que sabe dos modos Da cantoria nordestina Minha viola em meu peito Canta e nunca desafina Ela que sabe dos modos

271 EDNARDO. Ednardo e o Pessoal do Ceará. São Paulo: Continental, 1998, LP. Faixa 1, “Ingazeiras”, música

e letra de Edanrdo.

Da cantoria nordestina273

O arranjo revela a tradição nordestina, pontuando um início melancólico, seguido de um baião com os solos de viola feitos por Manassés de Souza. “Chão Sagrado” foi gravada e tornou-se o título de um disco lançado por Rodger Rogério e Teti que teve alguns problemas com a censura para ser lançado.

Jorge Melo, assim como Ednardo e Rodger, participou e reafirmou o modo como eram feitas as entrevistas do programa “Proposta”, de Júlio Lerner, contando que vários foram os

entrevistados, contudo enfatizou a entrevista com o ator Paulo Autran. Conforme Jorge Melo: “Eu entrevistei Paulo Autran. Você sabe, né? Que ele é bacharel e fez carreira militar; uma série de coisas... sendo ator. Eu fiz uma canção que é do meu primeiro disco”.274

O que pensa você da vida, rapaz? O que pensa você fazer da vida, rapaz? Se coronel ou tenente ou marinheiro do cais Ou será que o Brasil vai ter um doutor a mais O que pensa você fazer da vida rapaz?

Jorge Melo não relatou o nome da canção. Contudo, ao analisar as letras, de “Ingazeiras” e de “Chão sagrado”, percebe-se que esses artistas estavam enunciando, nessas letras

indiretamente, as suas histórias de vida, ao abandonarem suas carreiras como universitários, deixar a terra natal e se arriscarem como artistas. Outro fato curioso é que, não obstante trabalharem em grupo conversando com os convidados do programa, a produção das canções era individual, fato que revela as poucas parcerias existentes entre esses artistas, como

Ednardo, Rodger, Jorge Melo e Belchior. Para Fagner havia uma disputa mesmo entre eles, uma disputa de sobrevivência, onde todos queriam vencer. Sobre essas tensões que envolviam o grupo, Fagner revelou: “Existia muito isso de eu ser prejudicado, as pessoas viam isso. Nas reuniões, me davam pouco espaço, por conta disso, eu abandonei o barco e fui para o Rio de Janeiro”.275

Essas tensões entre o grupo revelam-se, sobretudo, na memória de Jorge Melo quando afirma que ele, Belchior e Wilson Cirino eram os artistas cearenses que participavam do programa “Proposta”, não fazendo nenhuma referência a Ednardo, a Rodger e a Teti, afirmando, inclusive, que Rodger Rogério teria participado dos programas finais do projeto. Por outro lado, pelos depoimentos e indícios, provavelmente Jorge Melo tenha participado apenas do primeiro programa, afastando-se deste para dedicar-se à gravação do seu novo disco. Portanto, percebe-se a suscetibilidade de suas memórias de acordo com seus interesses e suas relações dentro do grupo, fazendo lembrar Roger Chartier quando afirma que “a identidade de cada indivíduo situa-se sempre no cruzamento da representação que ele dá de si mesmo e da credibilidade atribuída ou recusada pelos outros a essa representação”.276

273 CHAO SAGRADO. Rodger e Teti – do Pessoal do Ceará. São Paulo: RCA. Arranjos e regência Hareton

Savanini; coordenação artística e direção de estúdio, Walter Silva, 1975.

274 MELO, Jorge. Op. Cit., p. 22. 275 FAGNER, Raimundo. Op. Cit., p. 14.

276 CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,

Jorge Mello. Um trovador eletrônico.

O programa “Proposta”, da TV Cultura de São Paulo, teve uma duração de cerca de três meses. Por esse programa, passaram como entrevistados, dentre outros: Paulo Autran, Luis Gonzaga, Frota Pessoa (geneticista da USP), Paulo Vanzolini e o radialista e produtor Walter Silva, que lançou muitos artistas famosos como Elis Regina, Jair Rodrigues, João Gilberto, só para citar alguns dos muitos artistas produzidos por ele. Suas produções no teatro Paramount chegavam a mil pessoas na platéia. Seu programa de rádio chamava-se “Pick-Up do Pica- pau”. Desse modo, ficou conhecido como Pica-pau; Walter Silva, também, foi produtor musical da TV Cultura de São Paulo. Ao terminar a entrevista no programa “Proposta”, Walter Silva teria ficado muito impressionado com a musicalidade e a inspiração dos jovens artistas cearenses, daí a aproximação deste ao grupo e o convite para o grupo visitar sua casa onde teriam tocado e bebido muito à noite toda, conforme Rodger Rogério: “Ele gostou muito e ficou encantado... perguntou se a gente já tinha gravadora, a gente disse que não; então, ele disse que iria arranjar uma gravadora”.277

3.4 O CORPO ESTAVA GASTO COM A VIAGEM, MAS NA EMBALAGEM UMA