O nome Araguaia, para denominar uma canção naqueles anos de chumbo, seria bem sugestivo para os censores. O próprio Ednardo relativamente sofrerá algum tipo de censura. Antes, para o lançamento do disco “Meu Corpo Minha Embalagem Todo Gasto na Viagem” ou do “Pessoal do Ceará”, Ednardo foi chamado à Polícia Federal, pois os militares achavam que a frase “braços, corpos suados / a praia fazendo amor” da letra “Terral” seria uma apologia e incitação à sexualidade. Assim, o produtor Walter Silva teria sugerido modificar a frase, “fazendo amor” para “falando amor”. O disco “Berro”, que incluía a canção “Araguaia” levou oito meses para ser liberado devido seus a problemas com a censura em várias canções. Para liberar a canção “Araguaia”, Ednardo teve que argumentar com o censor para convencê- lo a liberar a música; disse-lhe que era uma pessoa ecológica, que já tinha visitado o pantanal
301 RIDENTI, Marcelo. Em Busca do Povo Brasileiro: artistas da revolução, do CPC à era da tv. Rio de janeiro:
Editora Record, 2000, p. 279.
e o Rio Araguaia e que a canção não tinha nenhuma relação com a guerrilha. Mesmo sabendo que as canções carregam uma diversidade de intenções, o censor teria que ser muito tolo para crer apenas na intenção ecológica da canção, pois partes da letra como “triste guerrilha, companheiro morto / suor sangue do corpo / medo só”, denunciavam também seu caráter político.
Outra canção do disco “Berro” que a censura emperrou foi “A Manga Rosa”. Segundo Ednardo, os censores deram a conotação “Manga Rosa” a um tipo de maconha especial. Como o disco já estava emperrado oito meses na censura, Ednardo contou que, para
convencer o censor, tentou sensibilizá-lo a um viés mais humanizado contando-lhe a intenção verdadeira da canção:
Olha, eu fiz essa música para minha mulher, minha mãe e minha filha. Minha mulher chama-se, Rosa (Rosane), minha filha Joana e minha mãe Maria Ester. Então, eu juntei o nome das três e coloquei, “Rosa, Maria, Joana”. (...) O lance da manga rosa me lembra muito o seio da mulher. O peito de uma mulher eu acho lindo; aquela ação da criança mamar sugando sabe aquele seio gostoso como se fosse uma manga. Eu estava falando de maternidade.303
Por outro lado, Ednardo comentou que, mesmo um censor “linha dura” ‘brutalizado pelo sistema’, carregava em si um lado humanitário. Relatou assim uma história recente que remetia à canção “A Manga Rosa”. Contou, que, por volta do começo do ano de 2003, foi fazer uma temporada de shows durante quatro dias no Rio de Janeiro. Ednardo observou que uma senhora bem idosa havia estado nos quatro shows sempre na primeira fila do teatro e, no momento da canção “A Manga Rosa”, a senhora cantava de forma emocionada, o que lhe chamou atenção. Depois do terceiro dia de show, a senhora foi ao camarim conversar com Ednardo:
Olha, meu nome é Lourdes e eu gosto muito de música, especialmente desta. Aí eu falei: “ô coisa maravilhosa!”. Olha, meu filho eu tenho uma coisa para te dizer. Eu sou a pessoa que prendeu essa música durante oito meses na censura federal. Eu era a censora federal aqui do Rio de Janeiro. Eu vi agora que essa música é bela. Eu falei assim: Pois, olha, amanhã, se a senhora vier, eu vou oferecer essa música para você. No outro dia ela estava lá. Eu falei: Essa senhora que está aqui, maravilhosa curtindo a música; eu ofereço pra ela; ela foi a pessoa que prendeu essa música durante oito meses na censura federal, porque ela achava que era coisa de maconha, e sabe agora ela tem filhos e filhas e sabe agora que isso foi besteira.304
Mas essa é uma visão da censora sobre a canção no presente, noutro momento histórico. Na época, de fato, os censores eram designados para questões que não entendiam, como as que se referiam a questões culturais. Em verdade eram incentivados a rebuscarem, a enxergarem coisas que estavam além das intenções do artista, contudo, por outro lado, justificava a esquizofrenia dos militares, que viam os artistas como possíveis contraventores do regime instaurado. O próprio nome do disco “Berro” que para Ednardo fazia referência às “pelancas, ossos; de que do boi só se perde o berro”, porém soava para os militares como o “berro” dos que eram torturados nos porões ou dos que gritavam contra a ditadura.
303 EDNARDO. Op. Cit., p. 17. 304 Id. Ibidem., p. 18.
Ednardo. do boi só se perde o BERRO. LP. RCA, 1976.
Ednardo chegou a ouvir de um censor o seguinte comentário: “A Manga Rosa” tem essa coisa de maconha e “Araguaia” fala de guerrilha, então esse disco não vai sair, pode esquecê-lo”.305 Depois de oito meses, todo o processo de divulgação da gravadora, o lançamento, os shows tinham sido desmontados; perdendo assim o impacto do disco.
Pelo que foi percebido não houve de fato um confronto aberto, tampouco os artistas cearenses sofreram uma perseguição acirrada por parte da censura. Ouvi essas histórias de Ednardo e Ricardo Bezerra quando se referiu à canção “Cavalo Ferro”:
A letra tratava da questão política, da situação de Brasília, o local onde emanava o poder naquela época. Era uma música que dava uma cutucadazinha na política, mas não era panfletária, ela fazia isso com uma certa educação. Não era aquela coisa querendo esconder, usando palavras com duplo sentido e nem querendo escrachar. Foi uma dose certa.306
Ou quando Ricardo Bezerra disse ter vencido com Raimundo Fagner o “Festival da Astra”, não foi encontrado nada em jornais sobre este, apenas a letra com a aprovação da censura, e Belchior, quando em uma entrevista comentou sobre censura e auto-censura, afirmou que procurava criar suas canções com a mais ampla liberdade e despreocupação, mas que já teve algumas de suas composições retidas pela censura: “Apenas Um Rapaz Latino Americano” cuja letra seria “parentes militares” e depois, “parentes importantes” e “Não Leve Flores” e uma que na época demorou ser liberada, “Caso Comum de Trânsito” que, segundo explicação do próprio Belchior: “ falava sobre sinais fechados, do fato de ser difícil você falar, cantar, no meio de tanto farol vermelho”.307 E Jorge Melo, ao referir-se à censura, contou que sua parceria com Belchior, “Rock Romance de um Robô Goliardo” havia sido várias vezes censurada.
305 Id. Ibidem., p. 16.
306 Entrevista com Ricardo Bezerra em sua residência na cidade de Fortaleza no dia 19. 07. 2004, p. 3. 307 Belchior: Cantando sua Vida e a de sua Geração. O Povo. 30 jun. 1976.
Cedidas por Ricardo Bezerra e Jorge Melo, respectivamente.
Muitos festivais também existiam naquele momento em Fortaleza como o chamado, Grande Festival de Carnaval, promovido pelo programa “Show do Mercantil”, de Augusto Borges, que trazia no próprio anúncio: “As músicas devem ser enviadas em 10 vias, uma devidamente censurada pelo departamento especializado da Polícia Federal”.308
Em verdade, não só artistas, engajados, politizados, ícones da MPB como Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Geraldo Vandré, Taiguara e outros tiveram músicas censuradas ou que passaram pelo crivo da censura, como os cearenses. Para os militares, qualquer canção que trouxesse idéias, termos ou palavras que ameaçassem a integridade moral da sociedade deveria ser coibida; assim, aconteceu também com os cantores, antes, tachados como bregas como Odair José e Waldik Soriano. O caso de Odair José é emblemático, para não dizer cômico. Vetada pela censura, a canção “Uma Vida Só” (Pare de Tomar a Pílula), Odair José teve que se defrontar com o próprio mentor e articulador do golpe militar, o general Goubery do Couto e Silva.
Aconselhado pelos dirigentes de sua gravadora, Odair foi morar uma temporada na Inglaterra. De acordo com o historiador Paulo César de Araújo, a censura à canção “Pare de Tomar a Pílula” estendeu-se fora do Brasil, assim, foi proibido de cantá-la em outros países comandados por ditaduras na América Latina, demonstrando a esquizofrenia dos regimes autoritários não só com as guerrilhas, mas com o efeito que as palavras das canções produziam na cabeça das pessoas. Assim, enfatizou Araújo:
“Pare de Tomar a Pílula” permaneceu proibida durante os governos dos generais Médici e Geisel, só deixando a clandestinidade em 1979, quando o presidente João Batista Figueiredo assinou um decreto oficializando a liberação de todas as músicas que estavam vetadas pela Censura
Federal. Além da canção de Odair José, foram anistiadas na mesma época “Pra Não Dizer Que Não falei das Flores, Cálice, Apesar de Você e Outras.309
O bolero “Tortura de Amor” composto por Waldik Soriano em 1950 que alcançou sucesso com gravações de nomes representativos da MPB como Cauby Peixoto, Altemar Dutra, Nelson Gonçalves e do cearense Raimundo Fagner, acabou sendo alvo da censura com os versos do bolero, “Hoje que a noite está calma / e que minha’ alma esperava por ti / aparece afinal / torturando este ser que te adora...”, regravado pelo próprio Waldik Soriano. De fato, os censores por menos censuravam como a já comentada canção “Terral” quando Ednardo foi obrigado a retirar a frase “fazendo amor” para “falando amor”, quiçá, uma canção com a palavra “torturando”.
Ao que parece, o efeito da repressão militar sobre os artistas citados rendeu maior efeito prático na pressão psicológica e no trauma de ter que deixar o país a contra-gosto, como foi o caso de Odair José e pelos prejuízos causados pela demora da censura em liberar as canções, os discos saíam atrasados e eram tardiamente lançados no mercado fonográfico como nos casos de Odair e de Ednardo. Por outro lado, os jovens artistas não se rendiam à repressão. Antes, enfrentavam-na produzindo canções com letras carregadas de ironia, canções de protesto, quebrando os comportamentos estabelecidos e organizando eventos musicais, os quais atraiam muitos jovens, como o “Festival da Tabuba”, que não agradou os militares.