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bakhtiniana (Bakhtin, 1999, 1981), a qual considera a linguagem como ideologicamente saturada e parte de um sistema organizado de comunicação social. Nesse sentido, a linguagem é considerada como inteiramente determinada pelas relações sociais organizadas. Ela mantém unicidade com uma situação bem precisa do contexto social imediato (o qual engloba os interlocutores concretos e os participantes explícitos ou implícitos do ato de fala), com o meio social mais amplo (pressões sociais mais substanciais e duráveis a que está submetido o locutor e o contexto amplo que constitui o conjunto das condições de vida de uma determinada comunidade) e com a ideologia.

Desta forma, a situação social determina completamente e, por assim dizer, a partir do seu próprio interior, a estrutura da enunciação, o contexto apreciativo, a forma e o estilo ocasionais da enunciação; determina, ainda, quais serão os ouvintes possíveis e o ângulo social em que será recebida. Entende-se, assim, que o interlocutor não pode ultrapassar as fronteiras de uma classe e de uma época bem definidas, sendo que cada época e cada grupo social têm seu repertório de formas de discurso, na comunicação sócio-ideológica.

Além disso, o discurso, como propõe Bakhtin, representa um elo na cadeia da comunicação, sendo provocado por algo, dirigindo-se a alguém, perseguindo uma finalidade qualquer. As enunciações são, assim, consideradas como a fração de uma corrente de comunicação verbal ininterrupta no curso histórico das enunciações, isto é, elos de cadeia de enunciados com os que o precedem e, também, com os que o sucedem e envolvem o interlocutor. O discurso, portanto, apresenta a capacidade de agir e de fazer agir, como efeitos de sentido, e que tem lugar numa problemática das relações

intersubjetivas, das condições de existência e das estratégias de poder (Landowski, 1992).

De acordo com Bakhtin, o signo não existe apenas como parte de uma realidade; ele também reflete e refrata uma outra parte, adquirindo um sentido que ultrapassa suas próprias particularidades. Esse signo, ainda, é considerado como um fragmento material dessa realidade, sendo a realidade do signo totalmente objetiva e, portanto, passível de um estudo metodologicamente unitário e objetivo. O próprio signo e todos seus efeitos (todas as ações, reações e novos signos que ele gera no meio social circundante) aparecem na experiência exterior. Portanto, o signo tem uma concretude, uma encarnação material. Segundo Bakhtin, essa materialidade manifesta-se sob diferentes formas, podendo ocorrer tanto como som, como massa física, como cor, como movimento do corpo ou como outra coisa qualquer - o signo é um fenômeno do mundo exterior.

Para ele, a palavra é o fenômeno ideológico por excelência e é o modo mais puro e sensível de relação social, onde formas ideológicas mais gerais de comunicação semiótica são reveladas. A palavra acompanha e comenta todo ato ideológico. E, ainda, todas as manifestações da criação ideológica – todos os signos não-verbais – banham-se no discurso e não podem ser nem totalmente isoladas e nem totalmente separadas dele.

Apesar do status que Bakhtin atribui à palavra, ele diz que não significa que ela possa suplantar qualquer outro signo ideológico. Segundo ele, nenhum dos signos ideológicos específicos é inteiramente substituível por palavras. Nem sequer existe um substituto adequado para o mais simples gesto humano. Todavia, embora nenhum desses signos ideológicos seja substituível por palavras, cada um deles, ao mesmo tempo, se apóia nas palavras e é acompanhado por elas. Mais ainda, todas as manifestações verbais estão, por certo, ligadas aos demais tipos de manifestação e de interação de natureza semiótica (como a mímica, a linguagem gestual, os gestos condicionados, etc.).

Finalmente, baseados nesses pressupostos, em especial nas noções de materialidade do signo, infere-se que, se a matriz sócio-histórica tem uma natureza semiótica, ela própria se encontra encarnada, concretizada no aqui-agora das situações das pessoas em desenvolvimento.

2. OBJETIVO

A presente pesquisa parte da premissa de que o desenvolvimento humano ocorre a partir das intrínsecas inter-relações da pessoa em desenvolvimento com o contexto no qual ela se encontra inserida, sendo que desse contexto fazem parte elementos sociais, econômicos, políticos, históricos e culturais. A esses elementos vimos denominando de matriz sócio-histórica, a qual apresenta uma natureza fundamentalmente semiótica. É entendida, portanto, como encontrando-se concretizada nos diferentes contextos, contribuindo para circunscrever o desenvolvimento das pessoas nas situações.

Decorrentes dessa definição, emergiram questões relativas a como é que essa matriz sócio-histórica se articula com os níveis macro e micro. Isto é, qual é o lugar ocupado pela e como se dá a articulação da matriz sócio-histórica com as pessoas em interação, em cenários específicos? Como é que os elementos sócio-históricos e culturais contribuem para a circunscrição dos processos de constituição da pessoa em desenvolvimento, no aqui-agora das situações? Como a matriz sócio-histórica - e seus aspectos sociais, econômicos, políticos, históricos e culturais - participa do veio de circunscrição dos processos de desenvolvimento humano?

Nesse sentido, traçou-se como objetivo investigar, a partir da situação de freqüência de bebês à creche, como a matriz sócio-histórica se concretiza. Portanto, a meta desta tese é identificar, a partir de um estudo empírico, como a matriz sócio- histórica se encontra concretizada no aqui agora das situações, das relações e do desenvolvimento das pessoas.

3. ESTUDO EMPÍRICO

De modo a se trabalhar com o objetivo da tese – verificar como se dá a concretude da matriz sócio-histórica, em situações de desenvolvimento -, estruturou- se uma investigação que tivesse como base uma situação de crise. Esta foi escolhida pelo fato de que, usualmente, em uma crise, ocorrem urgentes e intensas reestruturações de fatores e significações, com a abrupta transformação de práticas, emoções e concepções, podendo levar à emergência de conflitos no grupo social. Em tal situação, portanto, os diferentes elementos envolvidos ganham visibilidade, contribuindo com o pesquisador em seus esforços de atribuição de sentido.

A situação de crise escolhida foi definida a partir de um recorte temático – o ingresso de bebês na creche e a ocorrência de episódios de doença durante essa freqüência -, e o material empírico foi obtido a partir do Banco de Dados do Projeto Integrado Processos de Adaptação de Bebês à Creche (Rossetti-Ferreira, 1994). Este projeto acompanhou, ao longo de todo o ano de 1994, processos que envolveram 21 bebês (4-13 meses de idade), suas famílias e as educadoras, após o ingresso dos bebês em uma creche universitária.