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Superada a fase de seleção dos casos, passamos a trabalhar com as entrevistas e cenas de vídeo. Todas as 72 entrevistas foram lidas e, em cada entrevista, foram identificadas todas as falas relativas às crianças e aos demais sujeitos relacionados aos casos. As falas foram recortadas (mesmo no caso de terem sido referidas por educadoras que não eram as responsáveis diretas pelos cuidados da criança) e arquivadas cronologicamente em arquivos individualizados por episódio. Esse trabalho resultou em sete arquivos, contendo de 25 a 80 páginas cada (no ANEXO 7, constam as tabelas que indicam as entrevistas utilizadas, em cada caso).

Todos os arquivos das crianças foram cuidadosamente lidos. Inicialmente, excluiu-se tudo o que não se referisse à situação em análise. E, ainda, marcou-se no texto todo o conjunto de informações que pudessem se mostrar relevantes, relativas ao ingresso da criança, às características e à forma com que se estabeleceram as relações entre os principais envolvidos na situação (mãe, bebê, educadoras), à identificação de outras pessoas importantes no processo (avó, pai, psicóloga), ao modo como usualmente cuidavam da criança, a dados relativos ao evento de doença e às concepções, emoções e práticas com relação aos cuidados da criança. Nessa fase, foram feitos breves comentários, no próprio texto das entrevistas, relativos a elementos considerados como ligados à matriz sócio-histórica.

Todos os trechos que tratavam do tema em estudo foram, então, separados em um outro arquivo, na forma de uma história do episódio. Vários de seus elementos foram separados por temas ou por interlocutores, o que ajudou a visualizar bem do que cada um tratava e a verificar a existência de predominâncias de determinados assuntos. Destacou-se, também, disposições afetivas geradas diante dos eventos, através do que falavam, de como falavam e do que resgatavam. Além disso, em cada um dos períodos, buscou-se evidenciar as diferentes vozes (das pessoas presentes ou de outras a que elas se referiam) com relação a um mesmo tópico. Finalmente, buscou-se identificar quando e como os discursos se transformavam.

Como se trabalhou diretamente com o material já transcrito e arquivado no computador, entendeu-se que foram perdidos vários canais expressivos presentes no diálogo (como o riso, o silêncio, o vacilo, etc.), os quais participam do processo co- construtivo do significado. Essa compreensão se deu, apesar de se ter encontrado

escrito, nas transcrições, referências a risos, por exemplo. No entanto, após a leitura de várias das entrevistas verificou-se, por um lado, que a forma de apresentar esses elementos expressivos variavam muito (já que as transcrições haviam sido feitas por diferentes pessoas). Além disso, elas contribuíam com pouco significado, já que a mera menção de “risos” não nos dava indicação se o mesmo representava um riso nervoso, alegre, reticente ou um tique da pessoa, por exemplo. Optou-se, portanto, por eliminar essas menções e por olhar mais especificamente ao conteúdo das falas. No entanto, esse tipo de elemento expressivo não estaria totalmente perdido e fora de nossa investigação, já que com a outra fonte de dados - cenas de vídeo – far-se-ia uma análise dos mesmos, mesmo que em outro contexto.

Com relação às gravações em vídeo, todas as 54 fitas foram vistas, de modo a identificarmos todos os momentos em que os sujeitos (bebê, sua mãe e as educadoras) apareciam em cena. Todos os aparecimentos foram recortados e editados cronologicamente, em fitas individuais, referentes a cada episódio.

Os arquivos individuais foram vistos e transcritos em detalhe, indicando o local onde se desenvolveu a situação, as pessoas presentes, atividades realizadas e interações estabelecidas. Procurou-se, ainda, descrever a concomitância com diferentes eventos, a seqüência com que cada um ocorre e afeta o outro, além das ações, olhares e falas dos principais sujeitos envolvidos. Dada à idade de um dos grupos de sujeitos investigados (bebês no primeiro ano de vida) e de suas habilidades de comunicação verbal ainda em desenvolvimento, procuramos discriminar além das falas dos adultos, a comunicação e ações não-verbais dos vários sujeitos, captando-se o choro e os balbucios dos bebês, além dos olhares, posturas, movimentos corporais, sorrisos, expressão emocional, em associação à situação como um todo e ao contexto no qual estavam inseridos.

O corpus para análise foi organizado a partir da integração desses dois conjuntos de dados: trechos das entrevistas e transcrições das cenas de vídeo. Construíu-se, assim, uma história do episódio, que abarcava desde o ingresso do bebê na creche, até a resolução do episódio de doença. Com isso, foi possível analisar os comportamentos dos adultos (educadoras, técnicas e familiares) e bebês, através dos diferentes períodos, analisando-se seus movimentos de transformação. A meta foi apreender os diferentes elementos que envolviam as pessoas na situação e, principalmente, identificar e tornar explícitos elementos da matriz sócio-histórica.

4. ANÁLISE DOS DADOS

À análise dos sete episódios, identificou-se um grande número de elementos relacionados à matriz sócio-histórica. Diante dessa multiplicidade, fez-se uma opção por focar em alguns elementos mais específicos, entendendo-se que outras possibilidades de análise seriam possíveis. A seleção destes elementos foi feita, predominantemente, com base no que emergia da análise dos dados. Além disso, a própria perspectiva da Rede de Significações serviu como norteador desse processo. Foi a partir de um diálogo de questões teóricas com o material empírico que se definiu analisar mais profundamente e discutir as características das famílias analisadas, a situação de freqüência à creche, a construção das relações nesse ambiente e os episódios de doença.

Além disso, optou-se por fazer a discussão desses tópicos em separado. É importante frisar, no entanto, que essa divisão é apenas didática, de modo a explicitar e colocar em foco determinados aspectos da matriz sócio-histórica, organizando sua apresentação. Partindo-se da perspectiva da Rede de Significações, entende-se que, na dinâmica das relações e do desenvolvimento dos processos, esses diferentes elementos não podem ser pensados separadamente uns dos outros, pois é da articulação dos mesmos que a história de cada episódio se construiu e que as diferentes pessoas se constituíram e se desenvolveram, na situação.

Finalmente, de modo a se evitar repetições desnecessárias, decidiu-se por restringir os casos apresentados àqueles que contribuíssem com elementos novos na discussão específica. Assim, recortes foram feitos no conjunto total de dados e somente uma parte deles será apresentada dentro de cada tópico.