1.1 Land cover and land cover changes
1.1.3 Modelling of land cover changes and soil landscapes
O ponto central do pensamento teórico de Vygotsky (1991) envolveu caracterizar aspectos tipicamente humanos do comportamento e elaborar hipóteses de como essas características se formaram ao longo da história humana e de como se desenvolvem durante a vida de um indivíduo. Em especial, seu foco de interesse foi o estudo do desenvolvimento do pensamento e da linguagem, sendo que aspecto relevante da compreensão desses processos envolve a noção da intrínseca relação entre os seres humanos e seu ambiente físico e social.
Para ele, desde os primeiros dias de desenvolvimento da criança, suas atividades adquirem um significado próprio num sistema de comportamento social e, sendo dirigidas a objetivos definidos, são refratadas através do prisma do ambiente da criança. O caminho do objeto até a criança e desta até o objeto passa através de outra pessoa, sendo o produto de um processo de desenvolvimento profundamente enraizado nas ligações entre história individual e história social.
Com o desenvolvimento, a criança passa de uma inteligência prática a um raciocínio técnico, constituindo-se a fase inicial do desenvolvimento cognitivo. A partir desta, emergem os primeiros esboços de fala inteligente e a fala passa a ocupar um
lugar de destaque. Pelas palavras, a criança supera a estrutura natural do campo sensorial e forma novos centros estruturais. Ela começa, então, a perceber o mundo não somente através dos olhos, mas também através da fala. O mundo passa a não ser mais visto simplesmente em cor e forma, mas também como um mundo com sentido e significado. Nesse processo, os signos e as palavras passam a constituir para as crianças, primeiro e acima de tudo, um meio de contato social com outras pessoas (fala socializada). Antes de controlar o próprio comportamento, a criança começa por controlar o ambiente.
Interligado a esse processo, ocorre o desenvolvimento da memória da criança que, através de formulações verbais de situações e atividades passadas, liberta-a das limitações da lembrança direta. Ela não somente torna disponíveis fragmentos do passado, como os sintetiza, e, ainda, transforma-se num novo método de unir elementos da experiência passada com o presente. Criado com o auxílio da fala, ainda, o campo temporal para a ação estende-se para diante. A inclusão de signos na percepção temporal cria as condições para o desenvolvimento de um sistema único que inclui elementos do passado, presente e futuro, através dos quais novas motivações socialmente enraizadas dão direção à criança. Como resultado, a criança adquire a capacidade de engajar-se em operações complexas dentro de um universo temporal.
Assim que a fala e o uso de signos são incorporados a qualquer ação, esta se transforma e se organiza ao longo de linhas completamente novas, surgindo a função planejadora da fala. Passa a ocorrer, então, um amálgama entre fala e ação, então duas linhas completamente independentes de desenvolvimento. Isso produz novas relações com o ambiente, além de uma nova organização do próprio comportamento. Nesse processo, a fala socializada (previamente utilizada para dirigir-se a um adulto) é internalizada. Com isso, o movimento descola-se da percepção direta, submetendo-se ao controle das funções simbólicas. O sistema de signos reestrutura a totalidade do processo psicológico, tornando a criança capaz de dominar seu movimento, de dirigir e determinar o curso de sua ação. Ao invés de interpelar ao adulto, as crianças passam a apelar a si mesmas; a linguagem passa a adquirir uma função intrapessoal, além do seu uso interpessoal.
Assim, de acordo com Vygotsky, todas as funções superiores originam-se das relações reais entre indivíduos humanos, em ambientes culturalmente organizados.
Através dessas relações, um processo interpessoal é transformado em um processo intrapessoal. Nesse sentido, ele afirma que todas as funções no desenvolvimento da criança aparecem duas vezes em sua vida. Primeiro, no nível social e, depois, no nível individual; primeiro, entre as pessoas (interpsicológico) e, depois, no interior da criança (intrapsicológico). A essa reconstrução interna de uma operação externa ele denominou de internalização, a qual constitui, para ele, o aspecto característico da psicologia humana.
Essa internalização de formas culturais de comportamento envolve a reconstrução da atividade psicológica tendo como base as operações com signos. Assim, signos externos transformam-se em signos internos, criando novas formas de processos psicológicos enraizados na cultura. O signo passa então a constituir-se como um meio da atividade interna, a qual possui ação reversa, isto é, é orientado internamente, de modo a controlar o seu próprio comportamento.
Segundo Vygotsky (1991, 1993), o desenvolvimento dessas características, consideradas como tipicamente humanas, representa a diferenciação de funções psicológicas. E esse processo nasce da história do entrelaçamento de duas linhas qualitativamente diferentes de desenvolvimento, as quais diferem quanto à sua origem. De um lado, a dos processos elementares, que são de origem biológica. De outro, a das funções psicológicas superiores, de origem sócio-cultural. Nesse entrelaçamento, a diferenciação se dá das funções elementares ou inferiores (involuntárias, não mediadas, total e diretamente determinadas pela estimulação ambiental), para as superiores (voluntárias, mediadas, ou estimulação autogerada, isto é, a criação e o uso de estímulos artificiais – signos - que se tornam a causa imediata do comportamento).
O aspecto mediado das operações psicológicas constitui uma característica essencial dos processos mentais superiores. Seu desenvolvimento é considerado como o resultado de um processo prolongado e complexo, que surge de algo que originalmente não é uma operação com signos, tornando-se uma operação desse tipo, após uma série de transformações complexas e qualitativas de uma forma de comportamento em outra. Cada uma dessas transformações cria as condições para o próximo estágio e é, em si mesma, condicionada pelo estágio precedente. Desta forma, as transformações estão ligadas como estágios de um mesmo processo e são, quanto à sua natureza, históricas. Ainda, as conexões e relações entre as diferentes funções constituem sistemas que se
modificam, ao longo do desenvolvimento da criança, tão radicalmente quanto as próprias funções individuais. Finalmente, a natureza do próprio desenvolvimento se transforma, do biológico para o sócio-histórico.
Valsiner (1996) afirma que, apesar de Vygotsky destacar o lugar de relevância do ambiente e da cultura no desenvolvimento da criança e, ainda, de colocar a noção de mediação semiótica que ligou sua perspectiva com a filosofia da linguagem, o autor não conseguiu resolver o papel da cultura no estabelecimento das funções psicológicas.
Nesse mesmo sentido, Van der Veer (1996), discutindo a noção de cultura empregada por Vygotsky em seu pensamento teórico, considera-a como um conceito relativamente limitado. Ao apresentar as noções de cultura com que ele trabalhou, Van der Veer refere que Vygotsky não incluiu toda a gama de fenômenos culturais que foram usados na análise por etnógrafos contemporâneos a ele, escolhendo se concentrar largamente sobre elementos como contar, escrever e linguagem (nos termos da fala) (Van der Veer, pp.256).
Além disso, de acordo com Van der Veer, Vygotsky considerou que as ferramentas lingüísticas são adquiridas das nossas culturas como sendo da maior importância e que a palavra é uma ferramenta de progresso. Sem ela, nenhum progresso ou mundo civilizado teria sido possível. Porém, Van der Veer entende que Vygotsky, ao considerar a palavra como a ferramenta chave ao funcionamento individual, como o primeiro meio ao progresso, concentrou-se sobre os signos e significados e no modo como eventos ambientais eram conceitualizados pela criança ou adulto, ao invés de discutir a significância do evento ambiental como tal (Van der Veer, ibid, pp. 259).
Segundo Van der Veer, ainda, Leontiev tece críticas a Vygotsky, argumentando que a evolução dos significados da palavra não deveria ser vista como baseada na evolução da palavra em si ou mesmo na interação social vista de forma isolada e abstrata. Ao contrário, deveria ser baseada nas relações entre a pessoa e a natureza, na emergência e desenvolvimento do trabalho e das relações societais. É como se Leontiev criticasse o fato de Vygotsky ter ignorado amplamente os aspectos sociais ou societais e, ainda, os aspectos materiais da cultura. É como se a crítica afirmasse que Vygotsky prestou muita atenção ao papel da linguagem no desenvolvimento da criança, em detrimento do papel dessa ferramenta em si (Van der Veer, ibid, pp. 259-260).
Nesse sentido, nos principais trabalhos de Vygotsky, a palavra “cultura” é equivalente ao conceito ou significados das palavras existindo na cultura, ao invés de práticas culturais. Nesse sentido, Van der Veer considera que o conceito de cultura de Vygotsky é poderoso, mas limitado e viesado. É poderoso porque permite explicar o modo com que indivíduos dominam os aspectos mediados da linguagem de sua herança cultural e o modo com que são modificados nesse processo. No entanto, é limitado, porque serve pouco para explicar a inovação da cultura por indivíduos e, ainda, a transmissão de aspectos da cultura presumivelmente não lingüísticos. É, ainda, viesado, no sentido de que tira proveito de pensamentos abstratos, descontextualizados, considerando outras formas de pensamento como inferiores ou menos desenvolvidas (Van der Veer, ibid, pp. 260).
Marti também aponta críticas às noções de cultura de Vygotsky. Segundo ele, indubitavelmente, a ferramenta baseada na linguagem desempenhou um papel fundamental no modo de moldar o funcionamento cognitivo e foi crucial de modo a garantir as transmissões culturais de geração a geração. No entanto, segundo aquele autor, deve-se aceitar que formas verbais de comunicação e pensamento representam somente um aspecto particular das regulações das ações. Nesse sentido, ele diz que não é estranho que aspectos importantes da cultura devam ser encontrados não somente nas ferramentas baseadas na linguagem, mas também em outras formas de significados envolvidas nas regras de ação, nos valores e sistemas da regulação da ação. Ainda, que se teria que assumir que a cultura também se apresenta através de importantes aspectos não lingüísticos (Marti, 1996, pp. 266-267).
Considerando-se o conjunto dos aspectos abordados acima, gostaríamos de deixar claro o nosso reconhecimento de que as proposições aqui apresentadas, referentes aos autores Kurt Lewin, Urie Bronfenbrenner e Lev Vygotsky, foram realizadas com uma diferença de até 80 anos com relação à perspectiva da Rede de Significações (que contém a noção de matriz sócio-histórica). E que foram feitas em diferentes condições de produção, marcadas por diferentes discursos e interlocutores, levando à diversas concepção dos processos de desenvolvimento, as quais carregam diferentes implicações teórico – práticas.
Apesar disso, a relevância da apresentação dos diferentes trabalhos nessa introdução reside na busca de apreensão de como diferentes aspectos relacionados ao contexto ou à cultura foram elaborados em seus trabalhos de pesquisa, contribuindo com a orientação da continuidade do trabalho nessa linha, tanto por aproximações, como por afastamentos. É importante frisar, no entanto, que as diferenças aqui demarcadas referem-se não à proposição como um todo, de cada um dos autores, mas a partir do foco específico relacionado aos aspectos sócio-históricos e culturais.
Nesse sentido, como nossa intenção é enfocar elementos históricos e culturais do contexto social em que a pessoa em interação e desenvolvimento se encontra inserida, essa perspectiva nos leva a uma ampliação das proposições feitas por Lewin e Vygotsky. Por outro lado, por entendermos que esses aspectos sócio-históricos e culturais são carregados semioticamente, determinados aspectos das proposições de Bronfenbrenner e Vygotsky passam a ter maior relevância no presente trabalho.
Porém, avanços para um maior aprofundamento desse tema esbarram em alguns problemas, um dos quais se refere à necessidade de se ter, dentro do escopo deste presente trabalho, uma melhor elaboração do próprio termo referente à matriz sócio-histórica.