ATUAL
O espaço geográfico, assim como a sociedade que o dá forma, passa por constantes evoluções. Essas evoluções são materializadas de acordo com o estado das técnicas num determinado momento da história, ou seja, ao conjunto ou sistemas de técnicas inerentes a um determinado período. “As épocas se distinguem pelas formas do fazer, isto é, pelas técnicas” (SANTOS, 2009, p.177). A forma como essas épocas ou períodos se estruturam está condicionada aos conjuntos de técnicas de que a sociedade dispõe em seu movimento de realização no espaço, num dado momento histórico.
Apreendemos de Santos (2008b, p.117) que apesar de o período que antecede a II Guerra Mundial já ser portador da técnica e da ciência, é somente no Pós-Guerra que uma nova realidade, onde técnica e ciência passam a atuar de forma interdependente emerge. Essa interdependência se faz sentir “em todos os aspectos da vida social, situação que se verifica em todas as partes do mundo e em todos os países” (SANTOS, 2008b, p.117).
Nesse período, que se afirma na década de 1970, tanto no Brasil como em outros países periféricos, as bulas a serem seguidas são: a expansão das grandes corporações, a otimização da produção, o aumento da produtividade e consequentemente do consumo, a expansão das grandes indústrias e corporações em busca de novos mercados, na ânsia pela otimização dos lucros, a valorização exacerbada da inteligência ou trabalho intelectual, a competitividade e a busca pela fluidez na circulação do capital. Essas características fazem com que este período também se confunda com o processo de globalização. Na verdade, o
progresso técnico, assim que “alcança um nível superior” é a condição para a realização da globalização. (SANTOS, 2004, p. 64-65).
São ainda características inerentes a esse período a fusão entre técnica ciência e informação, a dinamização acentuada do território, reforçada pela intensificação dos fluxos (materiais e imateriais) e pelas facilidades propiciadas pelo avanço das tecnologias da informação, que garantem maior poder de articulação entre empresas em níveis regionais e globais e, consequentemente, resultam em maiores possibilidades para a expansão do capital financeiro e produtivo que se estabelece mundialmente (SANTOS, 2008b, 2009; CASTILLO & FREDERICO, 2010).
Os avanços alcançados nesse período, onde a sobreposição espaço-tempo permite o acesso instantâneo ao acontecer do mundo, inaugura um período de grandes possibilidades que são utilizadas sem parcimônia pelas grandes empresas, garantindo às mesmas um poder jamais visto nos períodos anteriores. Isso porque a junção técnica-ciência-informação abre possibilidades para o conhecimento do espaço geográfico como nunca se viu antes. Esta realidade permite às empresas conhecer e obter informações sobre as melhores áreas que servirão à reprodução do capital e, consequentemente, à sua reprodução.
É assim que a produção de biodiesel no Brasil tem-se apresentado como grande atrativo para as empresas, que tem se distribuído estrategicamente pelo território. Isso explica, por exemplo, o fato de a maioria das usinas estarem situadas nos estados do Mato Grosso e do
Rio Grande do Sul, estados que são grandes produtores de soja5.
A instalação de uma fábrica da indústria alemã “BASF - The Chemical Company” – para produzir Metilato de Sódio (um catalisador utilizado na produção de biodiesel) no
território brasileiro (no Complexo Químico em Guaratinguetá – SP, onde a empresa já possuía
instalações) também é representativa dessa realidade. Atraída pelo potencial do mercado
produtor - não só do Brasil, mas da América Latina – onde a Argentina tem se destacado - a
empresa resolveu inaugurar (em fevereiro de 2012) sua segunda fábrica em nível mundial para a produção deste catalisador, em território brasileiro, segundo informações expostas no
site da empresa.
A informação é com certeza, a protagonista desse novo arranjo do mundo nesse
momento da história. É ela que vai “presidir” todo o sistema de técnicas alcançado pelos
5 Segundo Boletim do Biodiesel da ANP, de Outubro de 2012, a soja respondeu por 72,74% da matéria-prima utilizada na produção do biodiesel no Brasil. Em termos regionais, a soja representa 82,08% no Centro-Oeste; 79,81% no Sul; 29,23% no Sudeste; 57,38% no Nordeste e; a região Norte, na referida data do boletim, não destacava a soja como matéria-prima, demonstrando a gordura bovina como maior contribuidora.
avanços da ciência nesse período. É ela quem vai fazer a ponte entre a técnica, a ciência e os lugares.
Por meio da informação os novos sistemas técnicos passam a ser onipresentes, isto é, todos os lugares sentem sua presença, ainda que não tenham acesso direto a eles. Aliás, ainda que um subespaço não tenha acesso aos novos sistemas técnicos na sua plenitude, ele acabará respondendo, de alguma forma, por não possuí-lo, ou seja, o fato de não possuí-lo em sua plenitude poderá lhe trazer consequências, como por exemplo, servir a atividades econômicas de menor relevância no cenário nacional e internacional. O fato de que em determinados pontos do território a agricultura familiar encontre dificuldades para inserir-se no circuito de produção do biodiesel, pode ser um bom exemplo de que os sistemas técnicos são onipresentes, mas não homogêneos. É com base nessa realidade expressa nos territórios que as grandes corporações podem escolher os melhores pontos de um território para se instalar de acordo com seus interesses.
A constituição dos circuitos espaciais de produção e círculos de cooperação só é possível mediante o conjunto de fatores que se apresentam no momento atual, onde técnica, ciência e informação realizam o enlace perfeito que gera essas novas formas de organização do espaço e que marcam as novas dinâmicas no uso dos territórios.
Assim, o território será mais propício à realização do capital, se ele apresentar as características valorizadas pelas empresas, dentre elas, ser dotado de objetos técnicos (fixos) que facilitem os fluxos de mercadorias e de pessoas, isto é, a circulação, que por sua vez propiciará a redução do tempo gasto entre a produção e o consumidor final do produto.
Nas duas últimas décadas do século XX o mundo tornou-se muito mais dinâmico e essa condição refletiu-se em todos os subespaços, embora de formas distintas. Fazendo parte dessa totalidade, como não poderia deixar de ser, o uso do território brasileiro passou por grandes transformações que estruturaram ou reestruturaram espaços (alguns mais que outros) dotando-os de infraestruturas modernas. Nesse período ocorrem importantes mudanças na composição técnica do território, que remodelam tanto o meio rural quanto o meio urbano (SANTOS, 2009). Ainda segundo esse autor, além dos investimentos maciços em infraestrutura foram feitos grandes aportes na composição orgânica do território com grandes investimentos em biotecnologias, novas químicas, informática e eletrônica etc. O autor também ressalta o grande desenvolvimento da configuração territorial, com a inserção de grandes sistemas de engenharia (próteses) que servem aos sistemas de transportes, telecomunicações e produção de energia com a finalidade de viabilizar as novas condições de trabalho que se impunham àquele momento.
Essas mudanças estavam atreladas à divisão territorial do trabalho em nível nacional e sendo assim, beneficiou de forma distinta cada porção do território, o que resultou em diferenciações espaciais que se fazem sentir até os dias atuais. Assim, para compreender essas diferenciações é preciso considerar o espaço geográfico como sinônimo de território usado, como resultante de um processo histórico, resultado de ações passadas e presentes (SANTOS & SILVEIRA, 2008, p. 247) mais as ações presentes materializadas em ações. Se quisermos entender a forma como o território do Rio Grande do Norte vem sendo usado pelo circuito espacial da produção de biodiesel, temos que entender que esse território se insere num conteúdo maior, que levou às diferenciações espaciais dentro do território e que cada lugar tem suas particularidades e responde de diferentes formas aos estímulos (ações) dos agentes que nele atuam.