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Mesmo os animais e os primitivos, que costumam ficar alienados à margem de nossa cultura, não são esquecidos por Benedito Nunes, pois conformam tema de criação do filósofo: ele assina o ensaio O animal e o primitivo: os Outros de nossa cultura (NUNES, 2007d) – onde antropologia é palavra-chave – apresentado sob a forma de conferência, proferida em Manaus, no ano de 2005, como parte de seminário organizado pela FIOCRUZ. Esse trabalho do ensaísta foi depois publicado na revista científica História, Ciências, Saúde Manguinhos72 em 2007, por meio de suplemento especial dedicado ao evento. Na conferência

Um conceito de cultura, analisada no item 4.1, já ficou evidenciado o interesse de Benedito pela antropologia. Em O animal e o primitivo: os Outros de nossa cultura, isso aparece mais

69 Para Benedito, o pensamento selvagem definido por Lévi-Strauss não é o pré-lógico como entendia

Levy-Brühl, mas “é apenas um pensamento em estado selvagem, distinto do pensamento [...] domesticado com a intenção de obter um rendimento” (NUNES, 1997, p. 548-549).

70 “O pensamento de Bené – como todos os amigos lhe chamavam – é uma presença viva em sua

cidade natal, por exemplo a citação sobre a relação com a natureza logo à entrada do Mangal das Garças, um dos pontos turísticos locais” – apresentação de Renato Lessa na matéria da revista Ciência

Hoje que veiculou entrevista de Benedito Nunes (LESSA; KAPLAN, 2011, p. 61).

71 O Quadro 2 também serve de apoio na análise do texto.

72 Entre outros colaboradores do suplemento especial da revista alusiva ao seminário, estão: Jane

Felipe Beltrão – professora da UFPA–; Júlio César Schweickardt e Nísia Trindade Lima (pesquisadora da obra de Euclides da Cunha), que conjuntamente focalizam viagens científicas à região amazônica empreitadas por Oswaldo Cruz e Carlos Chagas; André Fernando, então diretor da Federação das

Organizações Indígenas do Rio Negro, responsável pela apresentação de O mundo e o conhecimento

explícito e Benedito coloca seu foco de análise nas nossas relações com animais, índios, selvagens:

O animal continua sendo o grande Outro, o maior alienado da nossa cultura, “exceto que essa cultura, aumentando o nosso conhecimento, talvez possa algum dia restabelecer os estreitos laços que a ele nos unia nos tempos mitológicos, mas quando isso acontecer – comenta Elias Canetti – já quase não mais haverá animais entre nós” (NUNES, 2007d, p. 284).

O segundo Outro da nossa cultura é o primitivo (o índio, o selvagem), que chegou a gerar uma questão teológica, dirigida sob forma de consulta ao papa: os índios têm alma? Na mesma época, na sociedade brasileira, começava a aparecer o negro como instrumento de trabalho. Os índios fugiam ao trabalho, mas adotavam a religião dos senhores que lhes era incutida por meio da catequese que entretanto também teve seus paradoxos (NUNES, 2007d, p. 286).

O seminário, ocorrido na unidade amazonense da FIOCRUZ denominada Centro de

Pesquisas Leônidas e Maria Deane, recebeu o título de Saúde, Meio Ambiente e Cultura: 100

anos de Oswaldo Cruz na Amazônia, em menção “às viagens de inspeção dos portos marítimos e fluviais do Brasil realizadas por Oswaldo Cruz” (PENIDO, 2007, p. 7). Nos anos de 1905-1906, “Belém, Santarém, Óbidos, Parintins, Manaus e a ilha de Tatuoca” foram locais visitados por Oswaldo (PENIDO, 2007, p. 7). Observo que, em outra apresentação enfeixada no periódico da FIOCRUZ, Schweickardt e Lima (2007, p. 15, grifo meu) escrevem que as viagens científicas à Amazônia – e as de Oswaldo Cruz estão inseridas nesse contexto – “colaboraram na construção de representações e imagens sobre a região”, tópico de interesse nos estudos do pensamento social brasileiro.

A Carta da Editora da revista da FIOCRUZ, que publicou a conferência de Benedito, veicula comentários sobre os saberes tradicionais dos índios, assunto debatido nesse encontro de 2005 em Manaus:

Em 2005, quando era o presidente do Ibama, Marcus Barros foi um dos mentores da ideia de outorgar ao pajé Tukano Gabriel Gentil o título honorífico de pesquisador da Fiocruz no campo do conhecimento tradicional. Este gesto legitimou parcerias na luta pelo reconhecimento dos saberes tradicionais dos índios e fortaleceu o diálogo entre as comunidades indígenas e a científica. [...] Durante a palestra que fez no seminário de outubro de 2005, Gentil, paramentado com seu colar de quartzo branco, explicou com palavras e gestos como o pajé se transmuta em onça para exercer seus poderes de cura.

A atuação do pajé-onça ganhou novos sentidos com a palestra do filósofo paraense Benedito Nunes sobre o animal e o primitivo, dois entes à margem de nossa cultura greco-latina (PENIDO, 2007, p. 7, grifos meus).

O crítico paraense começa a mostrar ângulos dessa questão, de relevância para os estudos da Amazônia e de suas culturas, ligando os animais e as sociedades primitivas – os Outros de nossa cultura – sob a denominação comum de “bárbaros”, em referência explícita à denominação que recebiam dos antigos gregos como “estranhos da cultura” (NUNES, 2007d, p. 282). O roteiro analítico de Benedito é cinzelado com erudição73, mas sem esconder aspectos que demonstram ou expõem a sua sensibilidade74 quanto à temática. O texto está diagramado com inserções de imagens, mas não é possível identificar a autoria dessas ilustrações (Fotografia 14).

Fotografia 14 – Imagens inseridas no ensaio editado pela FIOCRUZ.

Com relação aos animais, Benedito articula ideias de autores de várias áreas do conhecimento, como:

a) Charles Darwin – citado a respeito do homem estar no topo da evolução das espécies, mas ser visto como um animal, de acordo com tal teoria.

73 O Quadro 2, inserido em páginas anteriores, aponta os 20 autores referenciados por Benedito na

apresentação da FIOCRUZ.

74 Por exemplo, ao se referir à possibilidade de ser vegetariano, diz que “é tarde [...]; eu teria que

aprender um novo sistema de vida, e na idade em que estou não é o caso de fazê-lo” (NUNES, 2007d, p. 286).

b) Nicolau Copérnico – referido pelo sistema conceitual contrário à concepção geocêntrica de Ptolomeu.

c) René Descartes – considerado fundador da filosofia moderna, via o animal como um corpo sem alma por não ter capacidade de pensar.

d) Platão – na Antiguidade, fez reflexões sobre a alma.

e) Aristóteles – seguidor das ideias de Platão sobre a alma, elaborou sua formulação própria no tratado De Anima, entendendo que os animais têm capacidade de discriminação, revelando que possuem portanto alma perceptiva.

Quando o darwinismo colocou-nos no topo da evolução, abrindo-nos a segunda ferida narcísica, depois daquela que Copérnico nos infringira, o pensamento filosófico moderno já havia separado o homem do animal. Homem e animal se tornariam cada vez mais estranhos entre si quanto mais se consolidasse, a partir do século XVII, na filosofia cartesiana, a identidade entre pensamento e consciência. Com efeito, Descartes efetuaria, depois da demonização cristã do animal, o primeiro corte moderno entre este e o homem, aproximados na Antiguidade por meio da noção de alma, tanto em Platão quanto em Aristóteles, que reconhecia uma alma sensitiva, uma alma racional e uma alma vegetativa (NUNES, 2007d, p. 282).

f) Hegel – Benedito lembrou seus conceitos, firmados no século XIX, de contradições manifestadas pelo espírito ou Geist, o que fez o animal, no homem, como “o bas-fond do espírito” (NUNES, 2007d, p. 284).

g) Gustave Flaubert – citado por seu livro As tentações de Santo Antônio, quando o diabo ataca a fé do solitário e o submete a visões animalescas.

h) Jorge Luis Borges – o foco de Benedito é a obra Manual de zoologia fantástica.

i) Heidegger – esse filósofo, estudado profundamente por Benedito, desenvolveu a

tese de que o animal é rico de ambiente mas pobre de mundo, reflexões que constam de Os conceitos fundamentais da metafísica: mundo, finitude, solidão75.

j) Rainer Maria Rilke76 – referido poeticamente pelos versos de Elegias de Duíno, especialmente os da oitava elegia, que elucidam a afinidade do poeta “com as coisas e os animais”, pois “a humanidade não lhe é particularmente preciosa” (ANDRADE, 2001, p. 10).

k) Clarice Lispector – grande estudioso da escritora, Benedito cita o conto O búfalo (faz parte de Laços de família, de 1960), no qual a protagonista, querendo se

75 Benedito conversou comigo sobre o conteúdo do livro (informação verbal).

76 O livro A clave do poético contém um ensaio de Benedito denominado A gnose de Rilke (NUNES,

encontrar com o ódio, passa em frente, na incansável busca, de muitas jaulas de animais no Jardim Botânico, até seu olhar finalmente cruzar com o de um búfalo, entrando assim “em conexão com os sentimentos mais violentos do homem” (NUNES, 2007d, p. 284).

l) Elias Canetti – o escritor, que ganhou o Prêmio Nobel, aborda inclusive as relações entre homens e animais como parte do livro Massa e poder, entendendo que as culturas se fundam em princípios de dominação e autoridade.

m) John Maxwell Coetzee – ficcionista, também detentor do Nobel, criou a personagem Elizabeth Costello que profere conferências, denunciando, muitas vezes, a crueldade como são tratados os animais pelo homem.

n) Arthur Schopenhauer – citado por Benedito porque o filósofo de O mundo como

vontade e representação entendia que o caráter do ser humano precisa estar obrigatoriamente ligado à compaixão pelos animais.

[A questão da crueldade] foi focalizada [pelo] [...] filósofo Arthur Schopenhauer.

[...] fez alusões ferinas a respeito do tema. Nenhum animal maltrata apenas por maltratar, mas o homem sim, e nisso constitui o seu caráter demoníaco, muito mais grave do que o caráter simplesmente animal (NUNES, 2007d, p. 285).

o) Jeremias Bentham – em sua obra Introdução aos princípios da moral e da

legislação, coloca como questão fundamental o fato do animal sentir dor, pois esse pensador via o mundo como regido por dois princípios: o da dor e o do prazer. p) Peter Singer – de certa forma, o escritor contemporâneo reconstrói o pensamento

de Bentham e propõe a libertação dos animais em relação ao homem e o vegetarianismo.

Depois de recuperar, de forma histórica e com lato embasamento bibliográfico, o pensamento ocidental – inclusive seus embates ao longo do tempo – quanto às relações entre o homem e o animal, Benedito passa então a organizar suas impressões em torno do primitivo, o segundo Outro de nossa cultura, incluindo, em tal designação, o índio, o selvagem e, em certos aspectos, também o negro.

O autor aborda, em sua conferência, questões religiosas e o “estranhamento” dos portugueses e jesuítas quanto à “antropofagia entre os índios” no Brasil (NUNES, 2007d, p.

288). Trata também das “grandes concentrações indígenas” decorrentes do “aldeamento” que considera um “paradoxo da catequese” (NUNES, 2007d, p. 288).

Benedito direciona então seu foco para expoentes da antropologia. O tema ocupa sua atenção, especialmente com alusão a dois nomes muito conhecidos: Lucien Lévy-Bruhl (faleceu em 1939) e Claude Lévi-Strauss (faleceu em 2009 e, entre seu trabalhos mais destacados, figuram estudos de povos indígenas no Brasil).

A referência mais antiga, a Lévy-Bruhl, tem como esteio a obra A mentalidade

primitiva: para o escritor francês, os “primitivos tinham uma mentalidade diferente da nossa,

chamada „pré-lógica‟, não-lógica porque antecede a lógica” (NUNES, 2007d, p. 288). Mais ainda: segundo o pensamento de Lévy-Bruhl invocado por Benedito, o índio e o negro “estavam ligados à natureza e dela participavam” (NUNES, 2007d, p. 288).

O grande avanço da antropologia, obtido principalmente com a abordagem estrutural de Lévi-Strauss, foi ter revisto essa condição pré-lógica do pensamento primitivo. Para o antropólogo, não há um pensamento selvagem se não no sentido que tal pensamento, articulando-se pelas mesmas leis lógicas que nos conduzem, não é regido pelo princípio da utilidade. [...] Melhor seria, então, admitir dois modos de ciência77: aquele que está mais

próximo do real, por intermédio da imaginação; e outro que está um pouco mais distante do real, pelo raciocínio, pelos conceitos abstratos. Os dois modos da ciência se complementam e não podemos deixar de admiti-los (NUNES, 2007d, p. 288-289).

Tristes trópicos é o livro de Lévi-Strauss que merece muitos elogios de Benedito: “[é] uma obra notável, misto de antropologia, boa literatura e reflexão filosófica, orientada para o conhecimento da natureza e dos primitivos – fala-nos da adesão do primitivo ao mundo físico, uma adesão que é feita por intermédio dos sentidos” (NUNES, 2007d, p. 289).

Para concluir sua conferência em Manaus, o intelectual paraense retorna aos animais, reproduzindo, com tradução própria, uma cena de pavor expressa no livro A carta de Lord

Chandos, do escritor austríaco Hugo von Hofmannsthal: a agonia e o envenenamento de uma população de ratazanas78, provocados evidentemente pelo homem e comparados nesse texto às mortes trágicas de todos os quatorze filhos da fértil Níobe79, personagem da mitologia

77 Discussão importante no seio da antropologia e da sociologia atuais.

78“[...] existem animais que odiamos, como os ratos, que não se renderam. Eles reagem, se organizam

em unidades subterrâneas em nossos esgotos. Não estão vencendo, mas também não estão perdendo” (NUNES, 2007d, p. 285).

79 Segundo a mitologia grega, a deusa indignou-se quando outra deusa, com apenas dois filhos, foi

grega. Benedito, com sensibilidade, encerra sua fala pedindo desculpas pelo relato de tal quadro de horror.

Com a intenção de contextualizar o interesse de Benedito ao elaborar O animal e o

primitivo: os Outros de nossa cultura, trago à pauta outras referências feitas por ele aos animais, em diferentes ocasiões de sua trajetória intelectual. Cito dois exemplos. Primeiro, ao fazer a apresentação na orelha do livro A caverna, de José Saramago, Benedito chama a atenção dos leitores para o “amável cão Achado” que faz companhia ao oleiro Algor, protagonista do romance (NUNES, 2000a). Observa a “humana animalidade” do cão criado por Saramago, “à altura da cachorra Baleia de Graciliano Ramos, do cavalo Colomer de Tolstoi e do cãozinho Karenin de Milan Kundera” (NUNES, 2000a). Benedito sempre esteve atento aos animais presentes na ficção literária. Outro exemplo desse olhar especial e incomum que Benedito lança aos animais é o ensaio Bichos, plantas e malucos no sertão

rosiano, primeiro texto de uma importante coletânea de estudos sobre Guimarães Rosa com respeitados participantes.

Na obra de Guimarães Rosa, a Natureza é exterior e interior ao mesmo tempo, ganhando a amplitude de um todo vivo, que se externaliza em formas animais e vegetais e se internaliza com a força expansiva dos mitos. Assim, os bichos e as plantas não são apenas naturais, mas seres perversivos que a nós aderem e que em nós se instalam. [...]

Dentre os bichos destacam-se os muares: bois, burros e cavalos, sem prejuízo de outros mamíferos, como a irara, o cachorro-de-mato; ao lado ficam as aves, de preferência os passarinhos em suas várias espécies (NUNES, 2007a, p. 19).

Menciono ainda o que pude notar quanto à convivência prazerosa de Benedito Nunes com animais domésticos (Fotografia 15), como o gato e o cão. Tal satisfação é constatada em várias fotografias do livro O amigo Bené: fazedor de rumos e em alguns depoimentos que compõem o feixe dessa obra. Para Maria José Silva, aluna e colaboradora do professor, ele era paciente também com as formigas:

Certo dia, trabalhávamos na „Torre da Estrella‟ – como ele designava seu local de trabalho–, o gabinete que ficava ao lado direito na entrada da casa [...] e deitava janelas para um jardim de inverno. Sua mesa de trabalho era localizada em frente à janela. Ditava-me ele um texto quando entrou pela janela um formigão preto e ficou a correr sem rumo, sobre o caderno que ele tinha em mãos... Ele, que, concentrado, não gostava de interrupções, com admirável paciência, levou o caderno ao peitoril da janela e, com uma folha de papel, dirigiu o inseto para a volta ao jardim. Presenciei fato semelhante por duas vezes, em diferentes dias (SILVA, 2011, p. 189).

Fotografia 15 – Benedito e Maria Sylvia Nunes com animal de estimação80.

Volto à conferência O animal e o primitivo: os Outros de nossa cultura para falar de sua repercussão no campo intelectual em que Benedito está situado. Na edição da revista da FIOCRUZ, a apresentação do professor é feita por Jaime Larry Benchimol – editor científico e pesquisador responsável pela execução da política editorial e pelo conteúdo científico do periódico–, que vê o conferencista como

uma daquelas inteligências fulgurantes que, de tempos em tempos, riscam o firmamento intelectual brasileiro, deixando atrás de si um pensamento original, inovador, capaz de modificar a percepção que os contemporâneos têm de seu tempo, de como ele chegou a ser o que é e do que pode vir a ser (BENCHIMOL, 2007, p. 280, grifo meu).

Anos depois ainda aumentou a recepção do artigo de Benedito, visto que foi reproduzido no livro Pensar / escrever o animal: ensaios de zoopoética e biopolítica (NUNES, 2011d) e na revista Novos Cadernos NAEA (NUNES, 2011c), conforme ilustra a Fotografia 16 ao final deste item.

Nesse livro de ensaios, a organizadora Maria Esther Maciel81 (2011) faz conhecer a sua vinculação ao Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o que denota bem a amplitude do tema que não pode se restringir a limites de uma única disciplina.

80 A fotografia de Gabriel Lima Fernandes foi reproduzida do livro O amigo Bené: fazedor de rumos.

Outra imagem de Benedito com animal doméstico (Fotografia 30, de Elza Lima) pode ser vista no item 4.4.

81 A autora desenvolve pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico

o debate sobre a questão animal tem mobilizado pensadores de diferentes áreas do conhecimento [...], [o que] possibilitou [...] o surgimento de um novo campo de investigação que [...] vem se afinando como um espaço de entrecruzamento de várias disciplinas oriundas das ciências humanas e biológicas, em torno de dois grandes eixos de discussão: o que concerne ao animal propriamente dito e à chamada animalidade e o que se volta para as complexas e controversas relações entre homens e animais não humanos. Torna-se, portanto, evidente a emergência do tema como um fenômeno transversal, que corta obliquamente diferentes campos de conhecimento e propicia novas maneiras de reconfigurar, fora dos domínios do antropocentrismo e do especismo, o próprio conceito de humano (MACIEL, 2011, p. 7, grifos meus).

O ensaio de Benedito está na primeira seção do livro, “voltada para uma abordagem mais ampla – com forte inflexão filosófica – das fronteiras e interseções entre humanos e não humanos, bem como das interfaces entre filosofia e poesia no trato dessas questões” (MACIEL, 2011, p. 9, grifo meu).

Logo, avisto que razões ligadas a essa possibilidade de entrecruzar disciplinas certamente levaram o NAEA – que se baseia em princípios de interdisciplinaridade para estudos e projetos relacionados à Amazônia – a também reeditar O animal e o primitivo: os

Outros de nossa cultura (NUNES, 2011c). Assinalo que o ensaio está no mesmo número do periódico Novos Cadernos NAEA onde está publicado o trabalho a respeito do III Encontro

Latinoamericano Ciências Sociais e Barragens: ciência, tecnologia e sociedade – sediado no NAEA, em Belém, no final de 2010. O encontro promoveu, por exemplo, rodas de diálogo entre pesquisadores e lideranças indígenas. Para Edna Castro e Gisela Aquino Pires do Rio (2011, p. 207), o tema do encontro é “de maior relevância na América Latina e Pan-Amazônia em função das dinâmicas sociais e territoriais que estão sendo deflagradas” pela construção de “grandes obras de infraestrutura, como as hidrelétricas”. Ora, as discussões sobre essas dinâmicas decorrentes da construção de hidrelétricas na Amazônia não podem deixar de fora as reflexões sobre as relações entre o homem e o animal, o homem e o primitivo. Nesse aspecto, o ensaio de Benedito pode fornecer importantes contribuições para aprofundar um debate fundamental do nosso tempo.

Ainda sobre O animal e o primitivo: os Outros de nossa cultura, tive a oportunidade de ouvir, em uma entrevista, a avaliação do professor Willi Bolle82 a respeito do ensaio em pauta. Primeiro, ele leu silenciosamente o trabalho impresso por mim – que antes não

82 Entrevista concedida por Willi Bolle em 30/04/2011 e gravada em vídeo (UNIVERSIDADE

conhecia – e então emitiu sua opinião: considerou o texto “brilhante”, fruto da “intuição brilhante” que fez Benedito refletir sobre o assunto, sobretudo porque, dentro da tradição filosófica ocidental, os animais e os primitivos costumam ser “expulsos”, desde que “os gregos se distanciaram dos bárbaros”. Porém, para Bolle, esse alijamento indica que há pensadores com “uma recepção muito estreita dos gregos”, porque também é dos gregos a seguinte afirmação: o homem é “um animal político, um animal urbano, um animal organizador da pólis”. O entrevistado citou “Alexander von Humboldt, um pensador de primeiríssima grandeza” que, na viagem em 1800 na qual explorou o curso do rio Orinoco, fez distinção entre “povos civilizados” e “selvagens das planícies”. Assim, entende o entrevistado que o ensaio de Benedito “nos incentiva a rever também os gregos”.

Posso concluir dizendo que tanto Bolle como Benchimol (2007) reconhecem em Benedito essa capacidade de incentivar a busca de fontes do passado – um passado, em grande parte, europeizado–, fazendo uma espécie de arqueologia: para entender o presente, ou o que somos, e visualizar possibilidades do futuro.

Fotografia 16 – Revistas e livro que editaram conferência de Benedito Nunes.