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Nos anos 80, a FUNARTE iniciou uma série de exposições coletivas regionais de fotógrafos com o fito de divulgar a produção artística contemporânea. Entre elas, aconteceu a I FOTONORTE com o tema Viver a Amazônia. Ainda no século passado, nos anos 90, com um segundo ciclo de mostras, realizou-se a II FOTONORTE agrupando trabalhos da região Norte, já celebrada então uma parceria profícua entre a FUNARTE e a SECULT179: publicaram conjuntamente o catálogo colorido, em forma de livro, da exposição Amazônia: o

olhar sem fronteiras, reunindo três gerações de fotógrafos do mundo pan-amazônico: 53 do Brasil, 5 da Colômbia, 1 do Equador, 5 do Peru e 4 da Venezuela. A publicação volumosa, com encantadora produção gráfica, tem os textos em português, espanhol e inglês. Na ocasião, o escritor manauense Márcio Souza dirigia a FUNARTE e assinou o ensaio Amazônia: a

fotografia de um mundo mítico:

Como disse Edgar Allan Poe, „os que sonham acordados conhecem mil coisas que escapam daqueles que sonham dormindo‟. A matéria do sonho desses fotógrafos é a Amazônia, a sua gente, a profundidade íntima do invisível (SOUZA, 1998, p. 218).

Na edição de Amazônia: o olhar sem fronteiras, coube a Benedito Nunes chancelar o texto Amazônia reinventada – indicando uma reinvenção pelo olhar dos fotógrafos

178“Tivemos a sorte de trabalhar com Benedito, auxiliando-o na organização da edição crítica de A

paixão segundo G. H., de Clarice Lispector, publicada em 1988 na coleção Archivos, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO)” (SANJAD, N.; SANJAD, A., 2011, p.352).

participantes da II FOTONORTE. O ensaio do professor começa exibindo a fotografia de uma pintura: a casa onde Benedito viveu sua infância em Belém à Avenida Gentil Bittencourt. O quadro artístico do premiado paraense Emmanuel Nassar é de 1984 e tem título sugestivo: A

casa das tias180.

Em 21 de novembro [de 1929], nasceu, em Belém, Benedito José Vianna da Costa Nunes, filho de Benedito da Costa Nunes e Maria de Belém Vianna da Costa Nunes, e já era órfão de pai. Filho único, na sua infância teve a sua volta as manias e os cuidados de seis tias – Maria Emília, Teodora, Maria de Lourdes, Ana e Joana (e ainda havia a tia das tias, Raimunda, conhecida como „tia Yaiá‟)–, irmãs de sua „mãe titular‟, Maria de Belém, com quem dividiam o menino e a casa (CHAVES, 2011b, p. 16, grifos meus).

Tenho assim duas casas – a da Estrella e a da Gentil Bittencourt, [...] onde nasci: aquela foi a da maturidade e, agora, da velhice; a última foi a da infância e da primeira juventude (NUNES, 2009i, p. 24).

Mas por que um ensaio sobre fotografia começa com uma pintura? Penso que há duas razões: sinaliza a origem de Benedito, através de sua primeira casa, e, ao mesmo tempo, a origem da fotografia como arte que, para representar o real, teve, sob um certo ponto de vista, origem na pintura. Há outro símbolo marcante no ensaio de Benedito: uma fotografia de Gratuliano Bibas. Como dois signos artísticos, a pintura de Nassar abre o ensaio e a fotografia em preto e branco de Bibas, datada de 1965181, fecha o ensaio. Ambos os trabalhos foram presentes recebidos por Benedito das mãos dos próprios criadores (Fotografias 37 e 38). “Tenho em meu gabinete dois quadros prediletos” (NUNES, 1998a, p. 20) – a frase revela a sensibilidade artística de Benedito.

A respeito da arte de Bibas, faço uma digressão para salientar que, bem depois da edição de Amazônia reinventada, em 2009 Benedito foi entrevistado e filmado na sua casa da Estrella em Belém, pelo professor da UNICAMP e crítico de arte Jorge Coli, para a série do Itaú Cultural com o nome de Obra revelada – foi transmitida pela televisão por meio do

Canal Futura. Então, confirmando o sentimento que lhe despertava a fotografia de Bibas, Benedito apresentou a Coli esse trabalho, sobre o qual teceu comentários (NUNES, 2009e) (Fotografia 39).

180 Benedito recebeu a pintura como presente de Natal oferecido por Nassar (NUNES, 1998a).

181 A fotografia foi presenteada a Benedito “em 1965, depois de desmontado o primeiro Salão

Paraense de Arte Fotográfica, organizado pelo Fotoclube do Pará, sob o patrocínio da UFPA”

Fotografia 37 – Pintura de Emmanuel Nassar.

Fotografia 39 – Benedito Nunes e Jorge Coli na programação Obra revelada.

Volto ao ensaio Amazônia reinventada. Como eu disse, o professor Benedito começa fazendo comparações entre a pintura e a fotografia, como um crítico de arte que soube ser. Ele explica, apoiando-se em livro do crítico italiano Mario Praz, que foi “traumático o capítulo inicial” das relações entre a pintura e a fotografia, mas depois as duas até se aproximaram: elas “se influenciam mutuamente, num intercâmbio histórico até hoje fecundo” (NUNES, 1998a, p. 21).

Em Amazônia reinventada, Benedito (1998a) comenta momentos da história da região amazônica, nos quais a tentativa de representar o real levou ao uso do desenho, da gravura e da fotografia. Exemplos interessantes são as ilustrações de A viagem filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira; a pintura científica exercitada por Landi, Agassiz e Bates; as gravuras de Coudreau cujos modelos foram fotografias; as fotografias de Ignácio Moura; os desenhos e as fotografias de Koch-Grünberg etc. Afinal, como começou a fotografia no Pará?

Seria exagero dizer que foi D. Pedro II que trouxe a fotografia para o Pará. Mas é certo que, quando o Imperador veio a Belém em 1867, para o ato de abertura oficial dos portos da Amazônia ao comércio exterior, trouxe, para registrar a solenidade, um fotógrafo italiano que por aqui ficou, abrindo ateliê na rua Santo Antônio, depois de ter feito a tomada fotográfica do pavilhão da cerimônia, especialmente erguido na ocasião: Felipe Augusto Fidanza (NUNES, 1998a, p. 28)182.

A chegada da fotografia fez Walter Benjamin se referir à perda da aura, como explana Benedito no livro Introdução à filosofia da arte:

[...] o objeto estético [..] possui, para quem sabe contemplá-lo, uma inesgotabilidade, uma estranha presença, palpável e fugidia, próxima e distante, que se impõe a cada ato de contemplação dirigido para o objeto estético, singular e único, que guarda uma essência só dele possuída e que só nele pode ser captada. É a aura, assim denominada por Walter Benjamin [...], essa espécie de transcendência que assinala a presença única e singular das obras de arte (NUNES, 2001a, p. 115-116, grifo do autor).

Ora, os meios para reprodução das fotografias demandados pela cultura de massa causam a perda dessa aura definida por Benjamin e comentada pelo professor (NUNES, 2001a). A propósito de Benjamin, observo que Benedito considera os fotógrafos no Pará, como Fidanza,

grandes flâneurs da cidade, colecionando seus espécimes imagéticos naturais e artísticos, suas paisagens e ruas, praças e monumentos, como o interior de seus prédios, além de registrar os sinais do que então parecia ser o surto da indústria naval da região e os acontecimentos excepcionais, espetaculares da vida urbana na Belle Époque, o período de ouro da borracha (NUNES, 1998a, p. 30).

Não ficam ausentes da abordagem de Benedito as fotografias dos Álbuns do Estado do Pará, desde os governos de Paes de Carvalho e de Augusto Montenegro. Como outras produções institucionais mais recentes, o intelectual destaca Belém da saudade (edição da SECULT em 1996) e Belém do Pará (álbum da ALUNORTE com fotografias de Luiz Braga). Benedito termina Amazônia reinventada homenageando os fotógrafos183 do II FOTONORTE e ainda desempenhando outra vez seu papel de crítico de arte, relacionando pintura e fotografia. Vê que Luiz Braga “tende ao clássico” e Elza Lima184 “ao barroco”:

O que mais se afasta da pintura parece ser Miguel Chikaoka, um clássico a seu modo, que fotografa como quem desenha: linear e pictórico, primando pelo detalhe e pelo enquadramento dramáticos, como Elza Lima prima pela leveza da atmosfera, pletórica às vezes, com uma certa alacridade „chaplinesca‟, e Luiz Braga pela densidade dos horizontes, ora fechados, ora abertos, envoltos as coisas e os humanos, em uma geral lassitude (NUNES, 1998a, p. 36).

183 Entre os fotógrafos da II FOTONORTE, figura Ligia Simonian, professora do NAEA. 184 Fez parte da equipe de produção da exposição.

A Fotografia 40 apresenta alguns trabalhos expostos no II FOTONORTE, com as respectivas identificações dos autores.

Fotografia 40 – Alguns trabalhos expostos no II FOTONORTE.

Não se pode desprender da leitura que faço de Amazônia reinventada a lembrança das palavras de Benedito na aula magna Um conceito de cultura185. Refiro-me à falácia, apontada pelo conferencista em 1973, segundo a qual arte – aqui, o foco está na pintura e na fotografia – não é conhecimento. Tal afirmação falsa ou errônea afasta ciências e humanidades. “Na arte, ainda que alheia a fins cognoscitivos explícitos, e que tem efetiva relação com a sociedade, mas vinculada ao agir comunicativo, não-instrumental, o homem pensa, deixando as inscrições de sua passagem transitória no mundo” (NUNES, 1997, p. 549, grifo meu).

Ainda devo acrescentar dois detalhes à exegese de Amazônia reinventada.

Primeiro, o Museu Paraense Emílio Goeldi – instituição constantemente lembrada por Benedito Nunes em seus textos relativos à Amazônia – dedicou ao professor um dossiê na

revista Boletim. Ciências Humanas, com escritos186 sobre Benedito e fotografias187 que registram imagens de Benedito, “como um convite ao estudo da obra do filósofo paraense, falecido em 27 de fevereiro de 2011” (SANJAD, 2011). Constato que todos os fotógrafos do dossiê de 2011 participaram do II FOTONORTE em 1998: vejo simbolicamente e aplaudo os homenageados pelo ensaio de Benedito escrito em 1998, pois os fotógrafos parecem retribuir ao professor, no ano de 2011 (in memoriam), essa veneração de 1998.

Segundo, a última palestra proferida por Benedito, na noite de 30/11/2010, ocorreu justamente em um encontro de fotografia realizado em Belém: 8º Colóquio de Fotografia e

Imagem188 (NUNES, 2010a). Naquela ocasião, o palestrante desenvolveu o tema Imagem e

Fenomenologia (Fotografia 41), com mediação de Ernani Chaves189.

Fotografia 41 – Benedito apresenta a palestra Imagem e Fenomenologia.

186 Escritos de Nelson Sanjad, Andréa Sanjad, Antonio Candido, Lilia Silvestre Chaves, Márcio

Benchimol Barros, Jeanne Marie Gagnebin, Maria Stella Faciola Pessôa Guimarães, Edna Maria Ramos de Castro, Willi Bolle e Fábio Lucas.

187 Fotografias de Benedito Nunes por Patrick Pardini, Luiz Braga, Elza Lima, Paula Sampaio e

Octavio Cardoso.

188 O blog do colóquio registra que, com o II FOTONORTE, há “uma segunda descoberta da realidade

amazônica, subsequente às primeiras linhas dos cronistas e viajantes europeus” que vieram bem antes à Amazônia (COLÓQUIO, 2010).

189 Em entrevista que me concedeu em 22/02/2011 – na ocasião, Benedito estava hospitalizado–,

Ernani relembrou seu último encontro com o professor durante o evento sobre fotografia no final de novembro de 2010, quando foi buscá-lo na Travessa da Estrella, ficou ao lado dele na mesa durante a exposição no SESC Boulevard e ao final da programação foi deixá-lo, de volta, em casa: “Fiquei impressionado. Ele tinha um roteiro muito bem feito. Estava muito lúcido. Fez uma exposição organizadíssima. Mas estava magro e claudicante no modo de andar” (informação verbal).