Questões objetivas de verdadeiro ou falso constituíram a terceira tarefa, que trazia cinco afirmações para cada tira, das quais o participante poderia discordar – atribuindo um “F” – ou concordar – atribuindo um “V”. A pontuação foi de um ponto para cada atribuição correta. Ressalta-se que a criação das assertivas ocorreu a partir da análise das interpretações das tiras dos 28 juízes especialistas.
A título de exemplificação da tarefa objetiva, apresentam-se os dados coletados junto ao participante de número 14, do grupo um, ainda em relação à primeira tira.
Terceira tarefa da tira 1:
Marque V para verdadeiro e F para falso de acordo com sua interpretação da tira 1:
1- (V) O menino está preocupado com uma situação que poderá acontecer no futuro. Ele entra em conflito de valores, e fica pensando que talvez um dia possa fazer algo errado e ter encrenca com a polícia.
2- (V) Em caso de protestos estudantis, o menino acha comum o atrito entre estudantes e policiais.
3- (V) A tira fala sobre lealdade, pois, na visão do menino, não é possível ofender e machucar quem nos protege e nos cuida.
4- (F) O policial se meteu em confusão, por isso o menino quer dar uma pedrada nele. 5- (F) O menino tem “coisas” em casa que não podem ser vistas pelo policial, por isso
não quer que sua casa seja cuidada.
O participante em questão acertou as cinco possibilidades, obtendo a pontuação máxima de 5 pontos também na parte objetiva da coleta de dados. Para fins de análise quantitativa, foi somado o número de acertos de cada participante dentro do seu grupo, para assim poder compará-los. A tabela geral com o desempenho de cada participante, assim como o desempenho de cada grupo está disponibilizada no anexo G. Na referida tabela também é possível observar e comparar o desempenho dos participantes na parte subjetiva e na parte objetiva e, ainda, se o participante melhorou seu desempenho nas questões objetivas, quando comparadas às subjetivas.
O capítulo três apresentou os objetivos e hipóteses que norteiam esta pesquisa, bem como relatou a metodologia adotada para se chegar à etapa da realização da coleta de dados, assim como o roteiro em que esta foi realizada. Esclareceu também como os dados foram analisados e computados. O próximo capítulo irá apresentar os dados coletados, concomitantemente com a discussão dos mesmos.
4 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS DADOS
Conforme descrito na metodologia deste trabalho, os dados foram coletados a partir do instrumento de coleta (Anexo F), criado com o objetivo de investigar as diferentes leituras possíveis de um mesmo texto, em grupos provenientes de diferentes contextos socioculturais. Previamente a esta coleta, os participantes preencheram o questionário do “Perfil dos Participantes da Pesquisa” e fizeram um teste de nivelamento.
4.1 CONSIDERAÇÕES A PARTIR DO QUESTIONÁRIO DO PERFIL DOS PARTICIPANTES DA PESQUISA
Através do questionário sociocultural, que constituiu umas das partes da investigação do perfil dos voluntários, foi possível verificar que os participantes de ambos os grupos possuem histórico de repetência escolar, com exceção de apenas um membro do G1, o qual explica que frequenta a modalidade EJA, pois deixou de estudar durante alguns anos. A repetência entre os participantes varia de 0 a 4 anos no G1 e de 1 a 3 anos no G2.
Na investigação do perfil sócio-econômico apurou-se que no G1 a profissão dos pais dos componentes varia entre pedreiro, gari, taxista e profissões informais denominadas por eles de “biscates”. No que tange à profissão das mães, cinco delas são donas de casa, seis prestam serviços domésticos a outras famílias, uma trabalha em padaria, uma é catadora e um participante relatou que não conhece a mãe. Cabe destacar que o grupo em questão não reside com a família, pois vive em situação de rua, ou de abrigagem.
Quanto à profissão dos pais dos participantes do G2, constatou-se que elas variam entre: mecânico, gerente de instituição bancária, jardineiro, caminhoneiro, vigilante, técnico em informática, chaveiro, policial militar, gerente comercial, assistente e médico. A profissão das mães destes participantes também é variada: técnicas de enfermagem, domésticas, empresária, manicure, confeiteira, funcionária pública, psicóloga e fisioterapeuta.
Quando questionados quanto ao grau de escolaridade dos pais, verificou-se que no grupo um – G1 – sete dos 14 pais não terminaram o ensino fundamental, dois foram descritos como tendo o ensino fundamental completo, um com ensino médio e quatro não possuíam esta informação. Sete das mães deste grupo não terminaram o ensino fundamental, três possuem o ensino fundamental completo, uma o ensino médio incompleto e três participantes não possuíam tal informação.
O grau de escolaridade dos pais do G2 é um pouco mais alto, verificando-se que somente um pai possui ensino fundamental incompleto e dois possuem ensino fundamental. Dos demais, um possui ensino médio incompleto, três possuem ensino médio, um possui superior incompleto, dois terminaram o ensino superior e quatro participantes não sabiam a escolaridade dos pais. A escolaridade das mães do G2 também é maior: apenas duas não terminaram o ensino fundamental, enquanto que outras duas o concluíram, cinco terminaram o ensino médio, duas iniciaram o ensino superior, uma possui especialização e dois participantes não sabiam a escolaridade de suas mães.
O questionário sociocultural propiciou o levantamento das profissões dos pais dos participantes e foi possível verificar que os membros do G1, mesmo não residindo com as respectivas famílias, são oriundos de uma classe econômica menos favorecida, se comparadas às profissões dos pais do G2. Esta comparação se pode inferir a partir da rentabilidade gerada pelas profissões descritas nos dois grupos. Este mesmo questionário possibilitou a constatação de que o grau de escolaridade dos pais e das mães do G2 também é superior aos do G1.
Outra parte do questionário que investigou o perfil dos participantes voltava-se aos hábitos de leitura dos mesmos. Na primeira questão eles deveriam assinalar, dentre várias opções de meios de comunicação, aqueles aos quais eles acessavam. Dentre as possibilidades, contatou-se que o G1 possui acesso a quase todos os meios listados, com exceção de TV por assinatura. Embora este grupo viva em situação de rua, seus membros podem disponibilizar de tais meios nas instituições pelas quais transitam como os abrigos noturnos e a escola.
O G2, por sua vez, também demonstra que possui um amplo acesso aos meios de comunicação listados. No entanto, quatro de seus membros não dispõem de acesso a canais de TV por assinatura e vários membros (7) declaram que não costumam acessar livros, revistas e jornais, mas possuem acesso aos meios de comunicação eletrônicos. Quando questionados sobre quais materiais mais costumavam ler, a opção de leitura na Internet foi quase unânime, com exceção de um participante que aponta em primeiro lugar a leitura em livros. Neste sentido, o G1 demonstrou uma tendência contrária, pois somente um relatou que lê mais na Internet, enquanto o restante faz mais uso de meios impressos, fato que se explica pela situação socioeconômica e as condições de moradia que o diferenciam.
Quanto à frequência de leitura, o G1 demonstrou que metade de seus membros costuma ler todos os dias, quatro costumam ler mais nos finais de semana e três costumam ler esporadicamente. No G2, também sete participantes afirmam ler todos os dias, três se dedicam à leitura apenas uma vez ao mês e quatro leem apenas esporadicamente.
Quando questionados sobre o hábito da leitura quando crianças, dez membros do G1 afirmaram que não possuíam este costume e quatro responderam positivamente. No G2, contrariamente, apenas dois afirmaram não ter tido o hábito de ler quando criança, enquanto que os outros doze o tiveram. No G1 dez participantes consideram que compreendem o que leem e dois afirmam o contrário, os outros dois relatam que a compreensão depende do assunto lido. No G2 apenas um dos membros afirmou não compreender bem o que lê, os demais acreditam que compreendem.
Ao serem questionados sobre o gosto pela leitura, nenhum membro do G1 respondeu de forma totalmente negativa, mas três responderam “mais ou menos”, enquanto os onze restantes afirmaram que gostam de ler. No G2 quatro componentes não gostam de ler, enquanto que os demais responderam a pergunta de forma positiva.
A última pergunta do questionário visava a verificar se os participantes conheciam o gênero escolhido para a realização da coleta de dados. Neste sentido, nove participantes do G1 responderam que conheciam o gênero textual e cinco responderam negativamente. Destes nove que conheciam o gênero, oito afirmaram que costumam ler tiras. No G2 nove alunos já conheciam o gênero textual antes da coleta de dados, ao passo que os outros cinco responderam negativamente. Dos nove participantes do G2 que conheciam o gênero, cinco relataram que não costumam ler tiras. Diante da situação que se verificou quanto ao conhecimento do gênero que seria trabalhado na coleta de dados, foi solicitado que as professoras de língua portuguesa trabalhassem este gênero textual em sala de aula, antes da efetivação da coleta.