No início da década de 1950, com o desenvolvimento industrial do país, procurou-se atrair mão-de-obra especializada, ou seja, técnicos e profissionais de nível superior vindos dos países europeus, como vimos acima. Isso não significou que somente imigrantes altamente especializados entraram no país: os imigrantes sem essa formação específica (e muitas vezes com uma escolaridade baixa) continuaram a vir para o Brasil. Assim, bolivianos, chineses e coreanos substituíram europeus e japoneses no papel de imigrantes que ocuparam postos de trabalho que não exigiram formação escolar completa. Nesta seção, trataremos de uma nova imigração asiática: a dos coreanos e a dos chineses.
Para Choi (1991; 1999), a imigração coreana para o Brasil pode ser dividida em cinco fases: a primeira, chamada de pré-imigratória pela pesquisadora, vai de 1910 a 1952, quando poucos coreanos (entre eles, alguns naturalizados japoneses) chegaram ao país; a segunda, conhecida como imigração pré-oficial, ocorreu no ano de 1962, quando 14 membros da Primeira Delegação Cultural entraram no país para preparar a estrutura para receber novos imigrantes coreanos; a terceira fase, a da imigração oficial propriamente dita, vai de 1963 a 1971, período em que chegaram tanto trabalhadores agrícolas (1963-1966), como técnicos para a indústria (1971). A quarta fase, denominada de imigração clandestina pela autora, caracterizou-se pela entrada de imigrantes indocumentados, sobretudo por meio de escalas no Paraguai, na Bolívia e na Argentina entre os anos de 1972-1980. Por fim, a última fase, conhecida como imigração em cadeia, e que existe até os dias atuais, é marcada pela vinda de imigrantes portadores de cartas de convite de parentes já estabelecidos no Brasil (Choi, 1996: 234-235).
Choi mostra que os primeiros imigrantes coreanos entraram no Brasil antes da Segunda Guerra Mundial, mais exatamente em 1918. Foram quatro
25 O único trabalho acadêmico significativo que encontramos sobre a imigração coreana no Brasil é de
famílias que se naturalizaram japonês26. Além disso, Choi acredita na possibilidade de outros coreanos terem desembarcado no Brasil na condição de cônjuge de imigrantes japoneses (1991: 28-29).
Existiram ainda outras situações que propiciaram a vinda de outros imigrantes coreanos no período que Choi chama de fase pré-imigratória. Durante a Guerra Civil (1950-1953), responsável pela divisão da Coreia em dois países, 170.000 soldados norte-coreanos foram presos pelas tropas da ONU e enviados para o sul da Península Coreana (Choi, 1991: 29). Em 1953, o governo determinou a liberação de 20.000 dos 170.000 prisioneiros por terem se declarado anticomunistas. A maioria optou por permanecer no sul da Coreia, enquanto outros voltaram para o norte. Restaram por volta de 88 ex- prisioneiros com situação indefinida (segundo Choi, havia também chineses entre esses prisioneiros). Logo depois do armistício, ficou decidido27 que esses presos seriam encaminhados para países considerados neutros. Entre as possibilidades, a Índia se ofereceu em 1954 para abrigar parte dos ex- prisioneiros por um período de 2 anos. Após esse período, no entanto, não houve um destino certo para esses coreanos e foi preciso encontrar um país para recebê-los definitivamente. Assim, após recusa dos EUA e do México, Brasil e Argentina se ofereceram para receber parte desses ex-prisioneiros. Esses ex-prisioneiros (55 coreanos e 8 chineses) chegaram ao aeroporto do Rio de Janeiro no dia 06 de janeiro de 1956 e, em seguida, foram encaminhados para a Ilha das Flores, onde obtiveram regularização definitiva de sua situação no Brasil (Choi, 1991: 29-31).
Antes da imigração oficial, as relações diplomáticas entre Brasil e Coreia do Sul tiveram que ser reestabelecidas, o que ocorreu em 1959. Inicialmente, o governo coreano daquele momento foi contrário ao processo emigratório, porque não tinha condições financeiras e estruturais para acompanhar a situação de seus cidadãos no exterior. Com a tomada de poder pelos militares em 1961, a questão imigratória mudou de perspectiva porque o governo recém- instaurado implantou uma nova relação com outros países, o que facilitou a implantação de uma política imigratória (Choi, 1991: 33-34).
26
A naturalização e a adoção de um nome japonês foram uma prática comum para os coreanos desse período, em que a Coreia foi uma colônia japonesa.
27 Pelo trabalho de Choi, não foi possível saber qual país ou instância internacional decidiu o destino
Jânio Quadros, presidente do Brasil em 1961, mostrou-se particularmente interessado na vinda de coreanos para o país, principalmente de profissionais técnicos. Mas isso não se converteu em uma ajuda direta do governo brasileiro, como ocorrera em outros momentos da história da imigração no Brasil. O máximo que o governo se propôs a fazer foi doar terras do norte do país. Em agosto de 1961, o governo autorizou a vinda de 500 famílias, assim como a concessão de terras próximas ao Rio São Francisco. Mesmo com a renúncia de Jânio Quadros, o projeto de vinda de imigrantes coreanos prosseguiu e a Coreia do Sul inaugurou sua embaixada no Brasil em 1962 (Choi, 1991: 34-36).
Ainda em 1962, mais exatamente em 05 de janeiro, chegou a primeira delegação da Sociedade Cultural Coreia-Brasil28 (Choi, 1991: 28). Esse grupo veio para observar a situação agrícola do país, recolher dados sobre o processo imigratório no Brasil e também para se encontrar com autoridades governamentais. Alguns membros dessa delegação chegaram à conclusão de que as terras a serem cedidas pelo governo brasileiro não contribuiriam para a adaptação dos possíveis imigrantes coreanos por causa de sua localização (norte do país). Nessa ocasião, um dos membros da delegação (Inn Kyu Chung) conseguiu uma autorização do governo para trazer 116 famílias coreanas. Ele retornou a Coreia do Sul e conseguiu selecionar 30 famílias para virem ao Brasil (Choi, 1991: 38).
Em fevereiro de 1962, o governo coreano tomou providências para regulamentar o processo emigratório do país. Entre outras medidas, o governo coreano enviou, em 15 de março de 1962, uma comitiva oficial para tratar dos detalhes com o governo brasileiro. Das 30 famílias acima mencionadas, apenas 17 (em um total de 92 pessoas) conseguiram o visto para entrar no Brasil (Choi, 1991: 39-40).
As 17 famílias são consideradas a primeira leva oficial de imigrantes coreanos que chegou ao país, transportada pelo navio Tjitjalenka, no dia 12 de fevereiro de 1963, data que se tornou o dia oficial da imigração coreana no Brasil. Desde o começo, os imigrantes coreanos viriam para trabalhar em
28
A imigração coreana oficial para o Brasil se diferencia das demais porque foi organizada principalmente por civis, membros da Sociedade Cultural entre Brasil e Coreia Queremos dizer com isso que as negociações foram mediadas pela Sociedade Cultural Coreia-Brasil, mas elas, obviamente, precisaram da aprovação do governo coreano.
fazendas paulistas. No entanto, ainda na Coreia do Sul, esses imigrantes foram informados que seriam proprietários de terras no Brasil. Essa falsa informação foi passada por So Joo Kim, coreano que já morava no Brasil e que assumiu a responsabilidade pela compra das terras com o dinheiro dos imigrantes. Mas, na realidade, isso foi apenas uma tentativa de roubá-los, pois Kim pegou o dinheiro para comprar uma fazenda para ele e tinha a ideia de colocar os coreanos como seus os trabalhadores. Com os imigrantes já estabelecidos na Hospedaria dos Imigrantes em São Paulo29 e sem saberem exatamente para onde iriam (para as terras compradas ou para fazendas de outras pessoas), o embaixador coreano interveio para resolver o problema junto ao governo brasileiro. Mesmo sabendo que os imigrantes coreanos chegaram para trabalhar em fazendas, o governo autorizou, em caráter excepcional, os imigrantes coreanos a procurarem terras para comprar. Dessa forma, alguns imigrantes coreanos compraram terras para cultivo, outros alugaram terras de fazendeiros japoneses e um terceiro grupo foi trabalhar em fazendas paulistanas (Choi, 1991: 55-58).
Após essa primeira leva, mais quatro grupos vieram para o Brasil entre os anos 1963 e 1964. O segundo grupo foi encaminhado para a fazenda Ponta Grossa, na cidade de Vitória (ES), onde 24 famílias (por volta de 100 pessoas) se estabeleceram. A terceira leva, com 68 famílias (350 pessoas), também foi encaminhada para a mesma fazenda. Além de não terem conhecimento para o cultivo agrícola, os indivíduos dessas famílias não ficaram satisfeitos com as condições encontradas nessa fazenda e a grande maioria decidiu ir para a cidade de São Paulo30 (Choi, 1991: 59-60).
Em agosto de 1964, chegou a quarta leva de imigrantes coreanos no Brasil, formada por 50 famílias (285 pessoas). Eles chegaram ao Rio de Janeiro e algumas famílias permaneceram por lá, mas boa parte foi atrás de parentes que já estavam no país (Choi, 1991: 61-62). A quinta leva de imigrantes coreanos foi dividida em 3 grupos que chegaram em momentos distintos do ano de 1964 e trouxe para o país um total de 69 famílias (514 pessoas). Todos seguiram para a fazenda Santa Maria, no Paraná (Choi, 1991:
29 Segundo Choi, esses imigrantes coreanos foram o último grupo a se instalar na Hospedaria dos
Imigrantes.
63). Além dos imigrantes coreanos vindos por meios oficiais, outros entraram no Brasil com visto de turista e permaneceram depois do prazo do visto expirar, tornando-se, assim, imigrantes em situação irregular31 (Choi, 1991: 77).
Muitos coreanos chegaram ao Brasil, por meio de intermediários, também via Paraguai e Uruguai e a imagem de imigrante “clandestino” passou a ser associada ao coreano (Choi, 1991: 110). Esses imigrantes contaram, em alguns casos, com o auxílio de igrejas coreanas instaladas em São Paulo ou do Centro Pastoral dos Migrantes da Igreja nossa Senhora da Paz ou ainda de conterrâneos instalados em São Paulo (como emprego, moradia, alimentação etc.) (Choi, 1991: 115-116). Mas eles também foram bastante explorados, em outros casos, por imigrantes coreanos que viviam em situação regular no país, recebendo salários miseráveis e, às vezes, vivendo praticamente em cárcere privado (Choi, 1991: 117).
Na década de 1970, um grupo de coreanos chegou ao Brasil para trabalhar na indústria. Assim, em 1971, chegaram 1.400 coreanos na condição de técnicos portadores de diploma universitário. No ano seguinte, no entanto, o governo brasileiro interrompeu a imigração coreana oficial por causa dos problemas gerados pelos imigrantes que viviam em situação irregular no país (Choi, 1991: 78).
Os primeiros imigrantes que chegaram à cidade de São Paulo foram, em sua maioria, morar nas ruas do Glicério e Conde de Sarzedas, no bairro da Liberdade. Essa região ficou conhecida como a Vila Coreana. As razões para morarem nessa região são explicadas por Choi: a) o bairro foi habitado por muitos japoneses, o que facilitou a comunicação, já que muitos coreanos falavam japonês; b) o baixo preço do aluguel; c) a localização central do bairro. Foi na Vila Coreana que os coreanos começaram a trabalhar no comércio. Naquele momento, o papel da mulher coreana foi importante, pois algumas começaram a vender produtos trazidos da Coreia. Com o sucesso dessas vendas, alguns coreanos decidiram montar confecções para a produção de roupas. Assim, mulheres, homens e seus filhos trabalhavam durante longas jornadas para suprir a demanda dos pedidos de roupas por parte dos brasileiros (Choi, 1991: 95-96). As atividades comerciais dos coreanos foram
se concentrando no bairro do Bom Retiro (antes, o comércio de coreanos estava disperso pelos bairros do Brás e da Mooca) (Choi, 1991: 98-100).
Muitos começaram com uma estrutura precária, envolvendo toda a família no trabalho de confeccionar roupas durante muitas horas do dia e da noite. Eles cuidavam de toda a linha de produção: o desenho e o corte da roupa, levar o tecido a uma oficina (para os que não tinham) e a venda direta ao cliente. Coreanos, que apenas vendiam as roupas, montaram oficinas ou lojas atacadistas Em pouco tempo, eles profissionalizaram a produção e contrataram mais trabalhadores para suas confecções, principalmente conterrâneos sem capital para abrir seu próprio negócio32 (Choi, 1991: 103- 104).
A preocupação com o desenho das roupas (ao gosto dos clientes brasileiros), o trabalho contínuo envolvendo toda a família (aos sábados, domingos e feriados), os preços baixos praticados em relação ao mercado e a concessão de um prazo mais longo para o pagamento das peças vendidas (90 dias), em um momento de instabilidade econômica brasileira (que convivia com altas taxas mensais de inflação), foram os fatores responsáveis pela empreitada bem sucedida dos coreanos no ramo de roupas. Dessa forma, os coreanos venceram a “competição” contra comerciantes judeus, árabes e japoneses no ramo da confecção (Choi, 1991: 105-106).
Obviamente, o modo como os coreanos se colocaram no mercado de roupas criou uma imagem negativa deles em relação a outras comunidades estrangeiras, principalmente os judeus (Choi, 1991: 107). Mas nem todos os comerciantes coreanos foram bem sucedidos nessa competição. Muitos tiveram que fechar as portas e procurar trabalho em outras áreas (Choi, 1991: 106).
Segundo Choi, as atividades em torno da confecção ou do comércio de roupas fizeram com que a comunidade coreana no Brasil permanecesse fechada às demais comunidades e à sociedade brasileira, em um movimento conhecido por outros grupos imigrantes no Brasil. E como ocorreu com as demais comunidades, vê-se um aumento lento, mas efetivo, de abertura dessa comunidade, sobretudo a partir do momento em que a segunda geração chega
32 Na época de sua pesquisa, Choi afirma que 90% dos coreanos trabalhavam, direta ou indiretamente, no
às faculdades e passam a exercer novas atividades, não necessariamente ligadas à confecção de roupas. De qualquer forma, a manutenção dos valores do país de origem, assim como de sua cultura e de sua língua, permanece como uma das características desse grupo até os dias atuais (Choi, 1996: 237- 238).
Em relação aos chineses33, há registros de sua entrada no país desde o século XIX. No entanto, um número maior de imigrantes chineses entrou no país depois de 1945, principalmente em decorrência da Revolução Chinesa e também da carência brasileira de mão-de-obra especializada. Embora houvesse registros de imigrantes chineses trabalhando na agricultura, essa imigração foi predominantemente urbana. Eles se estabeleceram majoritariamente em São Paulo e se dedicaram, principalmente, ao comércio (Freitas, 2007: 143-144).
Uma parcela significativa de chineses que vieram para o Brasil partiu de Taiwan. Isso ocorreu após a Revolução Chinesa, em 1949, quando alguns chineses deixaram seu país em direção a Taiwan. Foi desse país que um novo movimento emigratório partiu para vários países, entre os quais o Brasil. Esses imigrantes possuíam, de um modo geral, formação técnica mais qualificada do que os que chegaram ao Brasil no século XIX. Muitos, ao chegar ao Brasil, optaram por trabalhar no comércio, como bazares, restaurantes e pastelarias, mas, como aconteceu com quase todos os imigrantes, tiveram a preocupação em dar uma boa educação a seus filhos. Por isso, atualmente, são encontrados descendentes de chineses em cursos concorridos, como engenharia, medicina e direito. Além disso, há um movimento recente de muitos chineses que chegam ao país para atuar na área acadêmica (Mei, 2007: 14-15).
Nas décadas de 1970 e 1980, em um movimento parecido com o dos coreanos, imigrantes chineses entraram no Brasil, em sua maioria, via Paraguai, com documentos falsos ou sem visto. Para regularizar sua situação no país, muitos chineses solicitaram um novo passaporte no consulado, alegando perda de documentos (Freitas, 2007: 143-144).
Esses problemas de documentação não foram, contudo, exclusividade dos imigrantes chineses ou coreanos. Eles envolveram, e ainda envolvem, os
33 Infelizmente, ainda não existe um trabalho sistemático sobre os momentos mais significativos da
imigrantes latino-americanos. Veremos, a seguir, como se formou historicamente o movimento imigratório de latino-americanos para o Brasil.