brasileira. Consequentemente, as preferências e as discussões envolveram também o tema da assimilação. Por isso, a imagem do imigrante que viria com o intuito de apenas enriquecer para depois retornar à sua pátria foi completamente rejeitada. O medo dos “quistos étnicos” também permaneceu, mesmo após o final da guerra, e a sociedade brasileira voltou a discutir maneiras de evitar esse “perigo”, principalmente em relação aos alemães, aos japoneses e aos judeus (Peres, 2003: 95-96).
Vimos, nesta seção, as características gerais da retomada do processo imigratório no Brasil depois de 1945. Veremos, a seguir, alguns traços principais do retorno dos grupos imigrantes mais tradicionais desse período.
1.5. O retorno dos grupos imigrantes tradicionais na imigração pós-guerra no Brasil
Nesta seção, serão apresentados alguns traços dos grupos imigrantes mais conhecidos do processo brasileiro, como espanhóis e japoneses, que voltaram a entrar no Brasil após o final da Segunda Guerra Mundial.
Oficialmente, a imigração japonesa no Brasil só foi retomada com o Decreto-Lei no. 52.920, assinado pelo então presidente João Goulart em 1963. Na prática, a imigração japonesa no Brasil foi retomada em 1953, um ano depois do restabelecimento das relações diplomáticas entre Brasil e Japão. Ainda assim, os imigrantes japoneses que chegaram em janeiro daquele ano só puderam entrar no país, porque possuíam “cartas de chamada” de parentes que já residiam no Brasil (Takeuchi, 2007: 88-89; Sakurai, 2008: 211). O período entre 1952 e final da década de 1970, quando 46.000 japoneses entraram e se estabeleceram no Brasil, é considerado a terceira e última fase da imigração japonesa em massa para o Brasil (Suzuki, 1995: 58).
Em 1952, chegou um grupo que foi chamado por meio das “cartas de chamada” e que ficou conhecido como “jovens imigrantes de Cotia”. Esses imigrantes vieram por causa da necessidade da CAC (Cooperativa Agrícola de
Cotia) em formar novos quadros técnicos para dar continuidade aos trabalhos agrícolas da cooperativa (naquele momento em franca expansão no interior paulista). Como o número de imigrantes que chegaram em 1952 por meio das “cartas de chamada” foi pequeno, a CAC solicitou autorização ao governo brasileiro para trazer 500 lavradores por ano. Com autorização aprovada pelo Instituto Nacional de Imigração e Colonização, a cooperativa formou 1.500 técnicos entre os anos de 1955 e 1958 e conseguiu nova autorização para formar mais 1.500 técnicos. A última turma de imigrantes foi formada nessas condições em 1967 (Takeuchi, 90-91).
Dois empresários japoneses (Kotaro Tsuji e Tasutaro Matsubara), já instalados no Brasil, foram autorizados pelo governo, também em 1952, a trazer por volta de 4 a 5 mil imigrantes japoneses. Assim, a imigração em massa foi retomada, e os primeiros grupos chegaram em fevereiro de 1953, com suas despesas arcadas pelo próprio governo japonês. Esses dois empresários japoneses trouxeram trabalhadores imigrantes para o Brasil até 1961 e os enviaram para estados como Amazonas, Mato Grosso do Sul, Bahia e Minas Gerais (Takeuchi, 2007: 89).
Os novos imigrantes japoneses encontraram as mesmas dificuldades dos primeiros imigrantes nipônicos que chegaram nas décadas iniciais do século XX no Brasil. Nas palavras de Takeuchi, essas dificuldades caracterizaram-se por
[...] fugas e atritos motivados pelo desconhecimento das condições de vida naquelas regiões, pelas diferenças de usos e costumes e, finalmente, pela disparidade do nível cultural em relação à maioria dos moradores locais. Como nos primeiros tempos da imigração japonesa no Brasil, houve falta de preparo e de planejamento no recebimento desses imigrantes (2007: 90).
Outro grupo de imigrantes japoneses chegou ao Brasil por intermédio de Ryota Nagasawa, funcionário do Ministério da Construção do Japão. Constituído por jovens japoneses, esse grupo foi treinado no Japão, na área de desenvolvimento industrial. Eles receberam também um segundo treinamento técnico no Brasil para que pudessem partir para outras áreas de trabalho que não fossem aquelas para as quais eles haviam se formado. Esse outro treinamento foi ministrado no Paraná para diversas turmas entre os anos de 1958 e 1965 (Takeuchi, 2007: 91-92).
Mesmo com o retorno da imigração japonesa no Brasil, a comunidade nipônica continuou a ser vista com uma forte desconfiança por parte da sociedade brasileira. Além disso, fatos ainda relacionados à Segunda Guerra Mundial, como o fenômeno Shindô-Renmei21, contribuíram para o aumento da imagem negativa da comunidade em sua relação com a sociedade e com o Estado brasileiros. Segundo Sakurai, os problemas gerados pela Shindô- Renmei apenas reforçaram uma imagem negativa da comunidade nipônica no Brasil, como se ela fosse composta somente por indivíduos fanáticos e de difícil assimilação (Sakurai, 2008: 211).
Um dos reflexos dessa imagem negativa da comunidade japonesa por parte da sociedade brasileira apareceu na emenda número 3165, proposta por Miguel Couto Filho (filho de Miguel Couto, outro político famoso por ser contrário à presença de imigrantes japoneses no país) durante a Constituinte de 1946. Essa emenda propôs medidas antinipônicas e sua votação foi marcada por um empate, só definido pelo voto de minerva dado pelo presidente da Constituinte, Fernando Mello Viana (do Partido Social Democrático mineiro), que se colocou contra a aprovação da emenda. A emenda contou também com o apoio do Partido Comunista Brasileiro, liderado por Carlos Prestes, naquele momento (Takeuchi, 2007: 85-86)22.
Além da imagem negativa da colônia japonesa permanecer por alguns anos, a entrada de novos imigrantes japoneses apresentou também alguns problemas para a comunidade nipônica já instalada no Brasil. As experiências desses novos imigrantes, que nasceram em um Japão consumido pela Guerra, foram muito distintas da vivência dos filhos de imigrantes japoneses no Brasil. Por conta de algumas divergências de valores, conflitos ocorreram no seio da colônia nipo-brasileira. Esses conflitos foram, de certa forma, representados pelas diferenças em relação à própria língua japonesa, que havia passado por
21 Shindô-Renmei (cuja tradução é Liga do Caminho dos Súditos) foi uma organização secreta criada por
imigrantes japoneses no Brasil após o final da guerra. Os membros dessa organização (conhecidos como “vitoristas”) acreditaram piamente na vitória do Japão na Segunda Guerra Mundial e perseguiram, enganaram e assassinaram membros da colônia japonesa que foram contrários a essa ideia. Segundo Takeuchi (2007:76-84), integrantes da Shindô-Renmei assassinaram 23 imigrantes japoneses e feriram outros 147. Mais de mil imigrantes japoneses foram presos por participarem da Shindô-Renmei e a maioria só foi libertada em 1956, durante a presidência de Juscelino Kubitschek.
22 Esse evento foi, contudo, apenas o ponto culminante de um sentimento antinipônico presente no Brasil
desde o século XIX. Para uma melhor compreensão da gênese desse tipo de discurso em uma perspectiva histórica, indicamos o trabalho de Dezem (2008).
mudanças de uma geração a outra, levando assim a uma considerável diferença entre a língua usada pela primeira geração de imigrantes (e que foi ensinada à segunda geração no Brasil) e a usada por aqueles que acabavam de chegar ao país depois da guerra (Sakurai, 2008: 221).
Os imigrantes das levas anteriores consideraram os novos imigrantes japoneses interesseiros e folgados, porque estes aproveitaram as melhores condições de acolhimento construídas por aqueles em décadas anteriores no Brasil. Os novos imigrantes acusaram os antigos de serem atrasados e mesmo “caipiras”, porque tiveram uma formação educacional mais baixa. Além disso, os novos imigrantes não consideraram os antigos imigrantes mais japoneses por não terem passado pelas agruras e misérias da Segunda Guerra Mundial, como o racionamento de alimento e de combustível e a alta taxa de desemprego. Até mesmo a cor da pele dos imigrantes mais antigos – mais escura por causa do trabalho diário na lavoura – foi motivo para exacerbação das diferenças na colônia japonesa instalada no Brasil (Sakurai, 2004: 20-21).
Os mais antigos recusaram os novos imigrantes como membros de suas respectivas famílias, nos casos em que um desses novos imigrantes tentou se casar com uma filha dos antigos imigrantes23. De um modo geral, para as famílias mais antigas, ter como membro da família um novo imigrante foi considerado um motivo de vergonha. Como boa parte desses novos imigrantes foi constituída por jovens solteiros do sexo masculino, a saída encontrada para resolver esse problema matrimonial para os novos imigrantes foi recorrer às “noivas por fotografia”. Como explica Sakurai, as “noivas por fotografia” foram garotas e mulheres a procura de homens para casar, mas com a peculiaridade de que só se conheceriam no dia do casamento, pois antes o contato era feito a distância por um intermediário no Japão que mostrava as fotos das pretendentes. No caso em que aceitavam o pretendente, partiam rumo ao Brasil para se casarem. Segundo ainda a autora, foram realizados no Brasil, por meio desse tipo de noivado, cerca de 400 casamentos (Sakurai, 2004: 21- 22).
Na década de 1950, com o desenvolvimento econômico e a ampliação do parque industrial no governo Kubistchek, o mercado brasileiro passou a ser
23 Segundo Sakurai, o momento de chegada dos novos imigrantes japoneses coincide com um grande
visto com interesse pelas multinacionais japonesas, tanto para a instalação de indústrias pesadas como para a produção de bens de consumo. O Japão, assim como outros países desenvolvidos, transferiu parte de suas indústrias pesadas e poluidoras para países periféricos, entre eles o Brasil. Dessa maneira, a entrada de trabalhadores japoneses especializados esteve também relacionada à vinda de multinacionais nipônicas para o país (Sakurai, 2008: 217-219).
Além dos japoneses, muitos imigrantes europeus vieram para o país, como vimos anteriormente. Diégues Jr. mostra que, entre os operários qualificados que entraram no Brasil no período 1945-1958, predominaram, nessa ordem, portugueses, espanhóis, italianos, libaneses, alemães e gregos. Já entre os técnicos qualificados para a indústria nacional, os italianos estiveram em primeiro lugar, seguidos por norte-americanos e alemães (Diégues Jr., 1965: 308-309).
Entre os imigrantes europeus que vieram para o Brasil, destaca-se o contingente espanhol. Segundo Dominguez, entre 1946-1972, entraram no país por volta de 130 mil imigrantes espanhóis, sendo que entre 1952-1955 foram os anos de maior fluxo de imigrantes espanhóis no país (2004: 62-63).
Uma parte dos imigrantes espanhóis, a partir de 1957, chegou com o auxílio do CIME. No entanto, a maioria desses imigrantes chegou ao país nesse período sem qualquer tipo de auxílio governamental. Muitos deles possuíam conhecimentos técnicos que foram aproveitados pela indústria automobilística, mas houve um grupo que se diferenciou dos demais que estiveram envolvidos na imigração espanhola: os galegos. Os galegos, que saíram do país, diferenciaram-se dos demais espanhóis por serem, em sua maioria, trabalhadores rurais sem formação escolar completa e por não estarem necessariamente vinculados ao movimento antifranquista na Espanha24 (Peres, 2003: 35-37).
A imagem do Brasil divulgada por propagandas do governo brasileiro na Europa, depois da Segunda Guerra Mundial, foi muito mais fantasiosa do que realista. Assim, muitos imigrantes galegos decepcionaram-se quando se defrontaram com a real condição de trabalho aqui (problema comum
24 Como eram indivíduos em geral humildes e sem formação escolar, os galegos não se envolviam nos
encontrado por diversos imigrantes, como os japoneses e os italianos, por exemplo). Segundo Peres, três foram as principais desilusões dos imigrantes galegos que vieram nesse período: a primeira se referia às condições, muitas vezes miseráveis, encontradas nas cidades brasileiras, idênticas às que eles deixaram em sua região de origem; a segunda decorreu do fato de se exigir dos imigrantes carteira de trabalho, de identidade e de saúde, caras para eles e com uma demora de 25 dias para sua emissão (enquanto esses documentos não fossem emitidos, eles poderiam trabalhar com autorização provisória); a terceira desilusão esteve ligada à impossibilidade de permanecer nas cidades quando eles entravam no país com uma declaração de que seriam trabalhadores rurais (naquela época, a carteira de trabalho de um trabalhador rural era diferente da de um trabalhador urbano) (Peres, 2003: 69-70). Mesmo com esses problemas e decepções, grande parte os imigrantes galegos permaneceu no país.
Depois desse período subsequente ao final da Segunda Guerra Mundial, houve uma diminuição do fluxo imigratório no Brasil. Uma série de fatores foi responsável por essa diminuição: a retomada econômica dos países destruídos pela guerra, tanto na Europa quanto na Ásia (em especial, o Japão); a pouca duração do desenvolvimento econômico brasileiro e as taxas de inflação cada vez mais altas; o aumento das diferenças sociais no país, que já eram acentuadas, e a permanência da miséria; as crises políticas, principalmente na década de 1960 (Peres, 2003: 75). Essa década apresentou, assim, uma clara diminuição da entrada de imigrantes japoneses e europeus, ou seja, dos grupos imigratórios mais tradicionais na história brasileira, que passaram a contar com uma nova realidade em seus respectivos países.
Novos atores sociais vieram a ocupar o espaço de trabalho deixado pelos antigos grupos imigrantes. Mantiveram-se alguns traços da imigração tradicional, mas apareceram novas características, novas culturas, valores e línguas. Passemos, a seguir, a uma rápida apresentação da história da entrada desses novos estrangeiros no Brasil.