Consciência é a “percepção imediata, mais ou menos clara, realizada pelo sujeito, daquilo que se passa com ele mesmo ou que está fora dele” (JUPIASSU & MARCONDES, 1996, p. 51).
Os sujeitos aprendem e desenvolvem competências necessárias à sua atuação profissional, porém, muitas vezes, não percebem onde e quando realizar a transposição deste conhecimento na prática cotidiana. Competência, segundo Perrenoud (1999b), é saber e saber fazer em situação. Para que isto aconteça, é mister que o sujeito tenha a habilidade de mobilizar o conhecimento necessário no momento adequado, o que demanda consciência deste saber.
A consciência faz parte também do processo de auto-regulação conduzido pelo pedagogo, auxilia o educando-trabalhador a refletir criticamente sobre a própria ação, para auto-regulá-la. A reflexão, que implica tomada de consciência, ocorre antes, durante e depois da ação. Ela permite pensar (e rever) se as metas estabelecidas corroboram as atividades pensadas; verificar por que e quando elas podem ser utilizadas e se elas favorecem a resolução das tarefas. O processo de reflexão sobre a ação estimula a consciência.
No princípio ‘consciência’, além da reflexão, estão implícitas a cognição e a metacognição, que representam a capacidade de pensar sobre, o que, segundo Doly (1999), significa a construção de saberes. A “construção pessoal que repousa nos conhecimentos já adquiridos está relacionada com a reflexão ativa e consciente” (VEIGA SIMÃO, 2002a, p. 37). A aprendizagem, ao longo da vida, exige a capacidade de pensar estrategicamente sobre
as próprias aprendizagens, e isso requer, segundo Claxton (2005), autoconsciência para conhecer os próprios objetivos e ter os recursos necessários para atingi-los.
Um dos entrevistados expressa: “através de entrevistas e atendimentos, os sujeitos refletem sobre o que fazem e o que precisam fazer, se propõem a melhorar as áreas que encontram dificuldade” (E9), neste mesmo sentido, outro diz: “trabalhamos com a pessoa, como ela pensa, sobre seu trabalho e o que ela pode fazer para se sair melhor” (E8). É possível promover a auto-regulação através de instruções explícitas, da reflexão direta e da discussão metacognitiva. Um pedagogo revela: “trabalho com a formação educativa do trabalhador, acompanho seu crescimento na empresa, oriento, questiono na busca de sua qualificação pessoal” (E2).
Assumir o próprio processo de desenvolvimento e aprendizagem significa ‘tomada de consciência’, sendo ela favorecida por um conjunto de procedimentos que estimulam a ação, voltada tanto para o saber analisar, como para o querer analisar e para o pensar na ação escolhida (VEIGA SIMÃO, 2004a). Um dos entrevistados salienta: “refletimos com o trabalhador – o que significa e representa para ele a formação – e o que pretende conseguir aprender” (E8).
Segundo Veiga Simão (2005a), as regulações implicam em desenvolver diversos graus de consciência e variam desde automáticas e implícitas, inerentes ao próprio funcionamento cognitivo, até as regulações automáticas mais explícitas, guiadas de forma deliberada e consciente. A consciência não surge da imposição de uma tarefa ou e uma atividade pré-determinada em algum curso. Ela surge da análise das necessidades e dos problemas encontrados pelo grupo de trabalho ou das manifestações explícitas emitidas pelo sujeito ao planejar e investir na resolução da tomada de decisão sobre sua ação.
Alguns entrevistados expressam a idéia que é “preciso ter disponibilidade, flexibilidade, criatividade para investir em propostas que estimulem o trabalhador a pensar e a tomar decisões, principalmente, num trabalho que exige conhecimento e que precisa ser participativo” (E5); outro destaca: “é preciso ter alto potencial de relacionamento e espírito de liderança para promover as relações interpessoais e estimular que os sujeitos se envolvam nos cursos de formação oferecidos pela empresa, para que aprendam e, com isso, agreguem valor, ajudando a refletir e encaminhar diferentes possibilidades” (E7).
Estas afirmações remetem a pensar na prática reflexiva, definida por Schön (2000, 1992), que se constitui em um dispositivo que favorece a tomada de consciência. Para Perrenoud (1999a), qualquer que seja a ação utilizada, passa pela consciência de si, pela tomada de decisão, pelo entendimento que tem, pela capacidade que tem de pensar e agir.
Os depoimentos dos entrevistados revelam forte preocupação com a ‘consciência’, com a tomada de decisão, relacionadas a propostas de trabalho: “os trabalhadores passam a estudar, buscando o objetivo de aprender para trabalhar melhor” (E11); “através de entrevistas e atendimentos individuais, os sujeitos refletem sobre o que precisam fazer para melhorar e pedem para terem reforço na área que encontram maior dificuldade” (E9); “são trabalhados conceitos já internalizados, não ficamos dizendo para os trabalhadores como devem fazer ou o que eles devem fazer” (E9). Mesmo assim, “uma dificuldade é aliar os objetivos pessoais, com os da empresa” (E9).
A consciência está relacionada com a construção e execução de ações que permitem buscar soluções, conjugando interesses e estratégias. Assim, os “trabalhadores buscam, pela interação, crescimento pessoal, respeitando as emoções e sentimentos” (E7). Além disso, alguns entrevistados evidenciam que na empresa existem preocupações que ultrapassam a produção, a aprendizagem relacionada a tarefas a serem desempenhadas, pois o ser humano tem outras dimensões que também precisam ser consideradas conscientemente: “trabalhamos a espiritualidade, pois se acredita nas possibilidades de cada ser humano [...] pelos valores que ele traz e que se somam ao grupo de trabalho” (E7); “nosso diferencial é trabalhar com a sensibilidade, a intuição, a satisfação do colega, compartilhar ações, socializar e trabalhar juntos na conquista de um espaço melhor, buscando melhorar a empresa” (E7).
O princípio da consciência perpassa as diferentes formas de atuação. Ele não se constitui de forma isolada, pois está articulado com os demais. Por exemplo, o princípio da intencionalidade que encaminha a compreensão do porquê da escolha das estratégias utilizadas e das opções feitas, pode ser estimulado pela consciência, e assim levar o sujeito a auto-regular sua ação e, conseqüentemente, a auto-regular sua aprendizagem.