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O significado representacional é associado ao conceito de discursos “como modos de representar aspectos do mundo – os processos, relações e estruturas do mundo material, o ‘mundo mental’ dos pensamentos, sentimentos, crenças, etc, e o mundo social” 43 (Fairclough, 2003: 124). Tais aspectos podem ser representados diferentemente, de acordo com a perspectiva de mundo adotada. Conforme Fairclough (idem, ibidem), “Diferentes discursos são diferentes perspectivas do mundo, associadas a diferentes relações que as pessoas estabelecem com o mundo, o que, por sua vez, depende de suas posições no mundo, de suas identidades pessoal e social, e das relações que elas estabelecem com outras pessoas”. Além de poder representar diferentemente o mundo como ele é ou como é visto, os discursos também podem projetar realidades possíveis, imaginárias, distintas do mundo real e ligadas a projetos para mudar o mundo em direções particulares.

Fairclough (op. cit.: p. 26) distingue duas acepções do termo discurso: uma como substantivo abstrato – discurso -, referindo-se à linguagem e outros tipos de semiose como elementos da vida social; e outra, como nome contável – discurso/s -, significando modos particulares de representação de parte do mundo. Assim, o discurso na representação de práticas sociais constitui os discursos. Esses discursos são

representações diversas da vida social que são inerentemente posicionadas – posicionados de modo diferente, os atores sociais ‘vêem’ e representam a vida social de modos distintos, com diferentes discursos. Por exemplo, as vidas das pessoas pobres e em desvantagem são representadas por meio de diferentes discursos nas práticas sociais do governo, da política, da medicina, e da ciência social, e por meio

43 Tradução minha de “as ways of representing aspects of the world – the processes, relations and structures of the material world, the ‘mental world’ of thoughts, feelings, beliefs and so forth, and the social world.”

de diferentes discursos dentro de cada uma dessas práticas, correspondendo a posições diferentes dos atores sociais44. (Fairclough, 2001b: 2).

Nesse sentido, pode-se dizer que os atores sociais, dentro de qualquer prática, produzem representações de outras práticas bem como representações ‘reflexivas’ de sua própria prática. Eles, dessa forma, recontextalizam outras práticas (Bernstein, 1996; Chouliaraki e Fairclough, 1999), ou seja, eles as incorporam em sua própria prática, e as representam diferentemente de acordo com o modo como são posicionados dentro da prática.

A representação, como explica Fairclough, é um processo de construção social de práticas, incluindo a auto-construção reflexiva. Ela participa e molda os processos e práticas sociais. Assim sendo, o discurso como modo de representação também molda os processos e práticas sociais e é por eles moldados, desempenhando papel fundamental na vida social.

Na sua relação com os outros, as pessoas empregam diferentes recursos e os discursos são parte desses recursos. Desse modo, as relações entre diferentes discursos são, como explica Fairclough (2003: 124), um elemento das relações entre diferentes pessoas. Elas, da mesma forma que os discursos, podem se complementar, podem cooperar umas com as outras, competir umas com as outras, dominar as outras, etc. Essas relações dialógicas e ou polêmicas também são estabelecidas pelos textos entre seus ‘próprios’ discursos e os discursos dos outros (Fairclough, 2003: p. 128) e são um modo pelo qual os textos misturam diferentes discursos.

Essa heterogeneidade de um texto em termos da articulação de discursos diversos é chamada

interdiscursividade45. Esta categoria é “inerente a todos os usos sociais da linguagem” (Chouliaraki e Fairclough, op. cit.: p. 13), e é uma das categorias de análise do significado representacional utilizadas nesta pesquisa. A identificação desses discursos articulados e da forma como são articulados em um texto constitui a análise interdiscursiva de um texto46: “Esse nível de análise faz a intermediação da análise lingüística de um texto e das várias formas de análise social dos eventos e práticas sociais” (Fairclough, op. cit.: p. 218).

A distinção dos discursos se dá tanto pelas formas de representar quanto por suas relações com outros elementos sociais. Essas formas de representar podem ser especificadas por meio dos traços lingüísticos que realizam um discurso. O mais evidente dos traços distintivos de um discurso é o

vocabulário, pois os discursos ‘lexicalizam’ o mundo de maneiras diferentes (idem, p. 129). Entretanto, Fairclough salienta que mais produtivo que focalizar os diferentes modos de lexicalizar os

44 Tradução minha de “Discourses are diverse representations of social life which are inherently positioned – differently positioned social actors ‘see’ and represent social life in different ways, different discourses. For instance, the lives of poor and disadvantaged people are represented through different discourses in the social practices of government, politics, medicine, and social science, and through different discourses within each of these practices corresponding to different positions of social actors”.

45 Em Fairclough (2001a; 2003 - no glossário), a interdiscursividade também é relacionada à articulação de outros elementos de ordens de discurso, como os gêneros e estilos. Porém, nesta pesquisa, ela será examinada apenas com relação à articulação de diferentes discursos. Sobre esse conceito, ver também seção 1.4.

mesmos aspectos do mundo é focalizar como os diferentes discursos estruturam o mundo diversamente, e, portanto, focalizar as relações semânticas entre as palavras. O estabelecimento de novas relações semânticas nos textos é parte do trabalho dos agentes sociais na construção de sentidos. Segundo Fairclough (2003: 126), olhar para os textos de um ponto de vista representacional implica observar quais dos elementos dos eventos sociais47 são incluídos na representação desses eventos e quais são excluídos, e quais dos elementos incluídos têm maior proeminência. Implica ainda investigar a representação dos atores sociais: quais atores são incluídos e ou excluídos; como eles são representados - de modo ativo (como ator no processo) ou passivo (como afetado ou beneficiário) -; se eles são realizados como um pronome ou como um nome; se são representados pessoal ou impessoalmente; se são nomeados (representados pelo nome) ou classificados (representados em termos de classe ou categoria, como ‘doutor’, ‘professor’); se classificados, deve-se verificar se são representados especifica ou genericamente (idem, p. 145). Essa é também uma das categorias utilizadas nesta pesquisa.

As questões de análise textual referentes à representação dos eventos e atores sociais, propostas por Fairclough, são diretamente relacionadas à função ideacional e ao sistema da

transitividade48 (Halliday, 1994). Essa função, como já foi dito, refere-se ao que está acontecendo no

mundo, ao que está sendo representado, e no cerne dessa representação está alguma atividade, um acontecimento, chamado na LSF – o processo. Para o processo ‘acontecer’ alguns elementos devem estar envolvidos: os participantes que ‘provocam/acarretam’ o evento, ou que são afetados por ele de alguma forma, e as circunstâncias (estas são opcionais).

Os processos são realizados como verbos e há só um processo em cada oração. Os

participantes, por sua vez, são realizados como grupos nominais, mas podem ser manifestos por outros elementos, tais como orações encaixadas, como em: “Votar em Lula é uma grande idéia”, em que “votar em Lula” é um participante manifesto por uma oração encaixada. Participante não significa necessariamente humano ou concreto, mas se refere ao/s elemento/s envolvido/s no processo de alguma maneira. Portanto, nem todo participante é ator social. As circunstâncias, por outro lado, geralmente são manifestas por sintagmas preposicionais, grupos nominais ou advérbios.

Esta concepção tripartida da realidade, que molda a instanciação lingüística dando origem a estes três elementos experienciais básicos - participante, processo e circunstância - constitui a base sobre a qual assenta o Sistema da Transitividade (Halliday, op. cit.). Desses elementos ideacionais que compõem uma oração, o processo ocupa um lugar central, visto que lhe confere o tom experiencial. Halliday (op. cit.: p. 107) lista diferentes tipos de processos. Os processos material, mental e

relacional constituem um grupo predominante no âmbito do Sistema da Transitividade, configurando, respectivamente, as três instâncias básicas da experiência: (1) atos e eventos, (2) registros mentais da

47 Segundo Fairclough (2003: 135-6), os eventos sociais incluem: formas de atividade, pessoas (com crenças, desejos, valores, histórias), relações sociais e formas institucionais, objetos, meios (tecnologias), tempo e espaço, linguagem (e outros tipos de semiose).

nossa experiência interior e (3) estados e relações abstratas entre elementos do mundo real. Os três outros processos por ele elencados são: verbal, comportamental e existencial. Cada um desses processos tem seu/s participante/s a ele associado, como no quadro a seguir:

PROCESSO SUBTIPO PARTICIPANTES

Materiais Ator, força, extensão, beneficiário-cliente, beneficiário- recipiente, meta, instrumento

Mentais Experienciador, fenômeno

Atributivos Portador, atributo

Relacionais

Identificativos Identificador, identificado

Verbais Dizente, verbiagem, receptor, alvo

Comportamentais Comportante, extensão

Existenciais Existente

QUADRO 2: Tipos de processos com seus respectivos participantes.

Com relação às circunstâncias, Halliday lista os seguintes tipos, com seus respectivos subtipos:

extensão (temporal e espacial), localização (temporal e espacial), modo (meio, qualidade, comparação), causa (razão, propósito, benefício), contingência (condição, concessão, falta),

acompanhamento (comitativo, aditivo), papel (modo, produto), matéria, ângulo.

De todas as questões de análise textual citadas por Fairclough (2003), associadas ao significado representacional, serão analisadas nesta pesquisa a interdiscursividade, a representação de

atores sociais, os processos e os participantes.