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Como expõe Brandão (2001:18-9), a noção de gênero vem sendo desde Platão e Aristóteles uma preocupação insistente. O estudo dos gêneros tem sido uma constante temática, que interessou os antigos e que, atravessando os tempos, ainda é objeto de preocupações de estudiosos/as da linguagem, interessando tanto à história da retórica quanto às pesquisas contemporâneas em poética e semiótica literária e às teorias lingüísticas atuais.

No campo da lingüística em especial, tenho observado que essa temática parece nunca ter estado tão atual no mundo acadêmico, como hoje, independentemente do tipo de debate ao qual se circunscreva. Considero isso positivo, pois a tentativa de intelecção dos gêneros discursivos possibilita ao/à analista uma melhor “identificação, organização e compreensão” dos discursos analisados, uma vez que os gêneros estão relacionados ao funcionamento institucional de uma sociedade (idem, p. 20). Como todo tema que, de certa forma, torna-se centro das atenções de diferentes pesquisadores/as, muitas confluências e divergências são geradas e se mesclam em meio à diversidade de perspectivas teórico-metodológicas.

Isso, sem dúvida, requer atenção e reflexão de quem intenta fazer parte desse grupo. É preciso ter uma visão geral do que tem sido veiculado acerca dos gêneros, explorar o que se considerar mais

35 De acordo com Habermas, a separação de ‘sistemas’(especialmente, o sistema econômico, o mercado, o estado) do ‘mundo da vida’(mundo da experiência comum, normal, cotidiana).

adequado ao estudo que se propõe e fazer determinadas escolhas. Estas, muitas vezes, nesse campo, dizem respeito a terminologias. Em meio à diversidade de produção científica sobre gêneros, facilmente o/a leitor/a se depara com termos, como: cadeias de gêneros36, colônias de gênero,

sistemas de gênero, conjuntos de gêneros usados, por alguns/mas, de forma bem distinta e, por outros/as, como ‘quase sinônimos’. Da mesma forma, gêneros textuais e gêneros discursivos ora se entrelaçam, ora se estranham; ‘narrativo’, por vezes, é um tipo (Travaglia, 2001, 2002 e 2003); é um modo retórico (Fairclough, 2001a); é um pré-gênero (Swales, 1990; Fairclough, 2003); é um gênero (Christie e Martin, 1997). Brandão (op. cit.: p. 19) observa que também se tem usado indistintamente os termos: gêneros, tipos, modos, modalidades, organização textual, espécies de texto e de discursos. Essa trepidação37 talvez se deva, em parte, à diversidade de campos do saber voltados à questão do gênero, o que tem resultado em uma variedade de abordagens.

Em meio a essa diversidade, quero deixar claro que considero o conceito de gênero textual como implícito no de gênero discursivo porque os gêneros são constituídos de textos, os quais não podem ser deslocados de seu funcionamento discursivo. Entendo que os gêneros discursivos estão sempre associados a determinada/s prática/s social/is e “o texto é visto como se fosse uma janela para se examinar essa/s prática/s”38. Portanto, sempre que fizer referência a gênero, estarei tratando de gênero discursivo.

A seguir, procuro dar uma visão geral dos estudos e teorias sobre gênero.

Pode-se dizer que o termo gêneros discursivos remonta a Hymes (1974) e a Bakhtin (1981, 1986, 1997), apesar de o primeiro não ser tão mencionado pelos/as investigdores/as de gênero quanto o segundo. Hymes entende por gênero categorias como poema, conto, provérbio, editorial etc. Para ele “A noção de gênero implica a possibilidade de identificar características formais reconhecidas tradicionalmente. É investigativamente importante proceder como se todo discurso tivesse características formais de algum tipo como manifestação de gêneros; e pode ser bem verdade” (Hymes, op. cit: 61).

Sua definição aproxima-se muito do conceito de Bakhtin (2000: 279, 301), para quem os gêneros são “tipos relativamente estáveis de enunciados ligados às diversas esferas de atividade humana, as quais apresentam uma determinada ‘estrutura composicional’, ligada a uma ocasião particular”. Em outras palavras, para este autor, gêneros são formas padronizadas de linguagem que, por meio do uso repetido, desenvolvem claramente características reconhecíveis, quer sejam em nível de tema/assunto, estrutura do discurso, ou formas e estruturas lingüísticas.

36 ‘Cadeias de gênero’ é um termo usado por Fairclough (2001a: 174) e se refere à ordenação seqüencial regular de diferentes gêneros. Já ‘colônias de gênero’ é um termo usado por Bhatia (2005) e se refere à ocorrência, em uma dada prática social, de um agrupamento de gêneros relacionados, os quais não aparecem em uma ordem seqüencial estrita.

37 Termo utilizado por Swales (1990:33 e 83), trepidation, ao se referir à noção de gênero discursivo, juntamente com outros, como: fuzzy concept, loose term.

38 Essa fala é da professora Izabel Magalhães, anotada em registros da aula de 06/05/04, sobre gêneros discursivos, ministrada na disciplina Análise de Discurso 1. A metáfora do texto como janela para o mundo social tem sido usada pela autora em artigos recentes. A ela, devo muito do que aprendi durante todo o meu doutorado.

A tese de Bakhtin sobre gêneros caminha na ligação da estrutura composicional e do contexto social. Fairclough (2001a) nota que um ponto forte na visão bakhtiniana de gênero é que ela nos permite considerar tanto as restrições/limitações nas práticas sociais pelas convenções quanto ‘a potencialidade para mudança e criatividade’. No processo de transformação, ao qual os gêneros são sujeitos, gêneros existentes mudam a partir de modificações na situação social, na qual exercem uma função, ou novos gêneros podem surgir a partir de transformações ostensivas daqueles já existentes. Esse surgimento de novos gêneros, assim como a transformação dos já existentes, está relacionado a mudanças discursivas mais amplas no seio da sociedade contemporânea (Fairclough, op. cit.). Para este autor, “os gêneros correspondem muito estreitamente aos tipos de prática social”; assim “um gênero implica não somente um tipo particular de texto mas também processos particulares de produção, distribuição e consumo de textos” (idem, p. 161). Fairclough considera que as mudanças na prática social são tanto manifestas nas mudanças no sistema de gêneros39 quanto em parte provocadas por tais mudanças.

Na sua obra de 2003, Analysing discourse, Fairclough apresenta uma importante discussão sobre as dificuldades com o conceito de gênero que julgo relevante sintetizar aqui. Uma delas é que gêneros podem ser definidos em diferentes níveis de abstração e, nesse sentido, ele distingue os pré-

gêneros (termo sugerido por Swales, 1990), os gêneros desencaixados e os gêneros situados. Os pré-

generos são categorias com nível alto de abstração, que transcendem redes de práticas sociais e entram na composição de vários gêneros situados. Assim, a narrativa, a argumentação, a descrição e a conversação são considerados pré-gêneros, os quais são mais especificamente situados em termos de práticas sociais. A narrativa, por exemplo, está presente na composição de muitos gêneros, como: as narrativas conversacionais, as ‘histórias’ que pacientes contam aos terapeutas em sessões de terapia, etc). Já os gêneros desencaixados são categorias menos abstratas que os pré-gêneros. A entrevista e o relato, por exemplo, são por ele considerados gêneros desencaixados, pois transcendem claramente redes particulares de práticas, como os pré-gêneros, mas são menos abstratos que estes. Nessa categoria, Fairclough observa um processo de ‘desencaixe’40 (Giddens, 1991) de gêneros, que é, na sua visão, uma parte da reestruturação e reescalamento do capitalismo. Os gêneros entrevista e relato para ele, então, são considerados gêneros desencaixados, ao passo que uma entrevista e um relato de campo, ambos de pesquisa etnográfica, são gêneros situados. Os gêneros situados, portanto, são categorias concretas, utilizadas para definir gêneros que são específicos de redes de práticas particulares.

39 Para Fairclough (2001a: 161), o sistema de gêneros que é adotado em uma sociedade particular, em um tempo particular, determina em que combinações e configurações os tipos de atividade, estilo e discurso ocorrem. Ele diz que, ao se referir ao sistema de gêneros, está aplicando o princípio da primazia das ordens de discurso: “uma sociedade – ou uma instituição particular ou domínio dentro dela – tem uma configuração particular de gêneros em relações particulares uns com os outros, constituindo um sistema. E, é claro, a configuração e o sistema estão abertos à mudança.” (idem, p. 162).

40 Isto é, gêneros sendo, por assim dizer, ‘desencaixados’ de redes particulares de práticas sociais em que eles inicialmente se desenvolveram, e tornando-se disponíveis como um tipo de ‘tecnologia social’ que transcende as diferenças entre redes de práticas e diferenças de escala. Entrevista, por ex., abarca muitos tipos diferentes que são especializados para práticas sociais particulares (entrevista de emprego, entrevista com celebridade na TV, entrevista política, etc.).

Na sua discussão, Fairclough associa a mistura de gêneros em textos à emergência de

‘formatos’, como os websites, e à relação hierárquica dos gêneros em um mesmo texto. Nessa relação hierárquica, pode-se ter em um mesmo texto um ‘gênero principal’ e ‘subgêneros’.

Fairclough considera também que há problemas em privilegiar muito o propósito da atividade na definição de gênero, porque um gênero particular pode ter vários propósitos, os quais podem estar relativamente explícitos ou implícitos (no caso de gêneros humorísticos, por exemplo, os propósitos podem ser: entreter, criticar, denunciar, reforçar estereótipos), e muitos gêneros não são claramente ligados a propósitos sociais amplamente reconhecidos. A proposta de Fairclough (2003: 72) não é que deveríamos deixar de ver o propósito como relevante para os gêneros, mas que deveríamos evitar centrar nossa visão de gênero no propósito. Ele sugere que entendamos que os gêneros variam em termos da natureza da atividade que eles constituem ou de que são parte, e que algumas atividades são mais estratégicas (e menos comunicativas no sentido de Habermas) que outras.

Fairclough (op. cit.) ainda propõe que os gêneros individuais de um texto ou interação podem ser analisados em termos de: atividade, relações sociais, e tecnologia de comunicação; ou seja, “o que as pessoas estão fazendo discursivamente, quais são as relações sociais entre elas, e de qual tecnologia de comunicação (se alguma) a atividade delas depende?” (idem, p.70). Isso significa analisar o gênero em termos das variáveis de registro: campo, relações e modo41.

Pode-se dizer que a abordagem de gênero de Fairclough, em suas diferentes obras, é fundamentada nos pressupostos de uma das escolas de gêneros (Hyon, 1996; Hyland, 2003): a Escola

de Sídnei42. Essa escola tem como principal representante J. Martin, seguido de Rothery, Christie etc.

Ela é baseada na Lingüística Sistêmico-Funcional (Halliday, 1994), considerada pelos seus teóricos como “uma ferramenta crítica no empreendimento da pesquisa e análise de gêneros” (Christie e Martin, 1997: 2).

A Escola de Sídnei destaca o caráter sequencial, interativo e proposital de gêneros diferentes e os modos como a linguagem é sistematicamente ligada ao contexto por meio de modelos de traços lexicogramaticais e retóricos (Christie & Martin, op. cit.). De acordo com Martin (1992, 2000), de uma perspectiva semântica, os gêneros são interpretados como “padrões de significados” e, de uma perspectiva social, eles são “processos sociais compostos de estágios, orientados para um propósito” (Martin, 1992: 505; 2000: 4). Eles são “sociais porque nós participamos nos gêneros com outras pessoas, interativamente”; são orientados para um propósito “porque nós os usamos para conseguir que as coisas sejam feitas”; são compostos por estágios (staged) “porque normalmente temos que seguir alguns passos para atingir nossos objetivos” (Martin e Rose, 2003: 7-8).

41 Ver seção 1.2.

42 Segundo esses autores, as três escolas de gêneros são: Nova retórica, ESP (English for specific purposes) e a Escola de Sídnei. As duas primeiras são norte-americanas e a terceira é australiana. A Nova Retórica tem como principais representantes Miller, Freedman, Medway e Bazerman, e a ESPé mais proeminentemente representada por John Swales e por Vijay Bhatia. Sobre as três escolas ver também Miller (1994), Swales (1990), Johns (2002).

Segundo Martin (1997a: 12) , “o gênero está relacionado aos sistemas de processos sociais em que os princípios para a relação desses processos entre si têm a ver com a textura - as formas em que as variáveis: campo, relações e modo são tecidas, imbricadas em um texto”. Para fornecer uma caracterização completa da textura, Halliday (1978: 133-134) faz referência à estrutura ‘genérica’ - a forma que um texto tem como uma propriedade de seu gênero. Segundo este autor, em todo discurso, há uma estrutura genérica.

A Escola de Sídnei é provavelmente a que oferece “a abordagem mais teoricamente sofisticada e pedagogicamente desenvolvida das três, apoiada por uma teoria da linguagem altamente desenvolvida e compreensível – a LSF - e motivada por um comprometimento com a linguagem e a educação” (Hyland, 2003: 22). Por isso, considero que é a mais adequada a esta pesquisa que também prioriza o caráter fortalecedor e emancipatório e também tem como base a LSF juntamente com a ADC.