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4.10 Religiøse vekkelser
A sugestão de Gilberto Freyre, se chegou a ser considerada por José Olympio, não se concretizou. A partir do volume 19, Fronteiras do Brasil no
Regime Colonial, de José Carlos de Macedo Soares, a Coleção Documentos
Brasileiros passou a trazer a inscrição “dirigida por Octavio Tarquínio de Sousa”. Nascido no Rio de Janeiro em 1889, formado em Direito em 1907 pela Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Distrito Federal, Octavio Tarquínio tinha uma carreira profissional vinculada ao serviço público, primeiro na administração dos Correios e, a partir de 1918, no Tribunal de Contas da União, onde ingressou como procurador-geral e chegaria a ministro, em 1932. Em 1939, era vice- presidente do Tribunal, posição que mantinha desde 1937, após ter passado pela presidência nos dois anos anteriores. Muito mais destacadas, porém, eram as suas atividades intelectuais na década de 1930. Além de membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Sociedade Felipe de Oliveira, colaborava com vários jornais e revistas do eixo Rio–São Paulo, fora crítico literário do
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Esta situação não raro também lhe rendia alguns dissabores pessoais: um mês antes, por exemplo, em outra carta a José Lins, ele festejava como uma “boa notícia a que V. deu sobre o livro do Olívio [Montenegro] – que sai, afinal – e sobre o livro de Julio [Bello] – que vai sair. Como é natural, eu já estava encabuladíssimo”. Carta de Gilberto Freyre a José Lins do Rego. Recife, 5 de julho de 1938. AJO/AMLB/FCRB,
prestigioso O Jornal (RJ) entre 1935 e 1937 e em 1938 assumira a direção da
Revista do Brasil em seu relançamento, agora vinculada aos Diários Associados
de Assis Chateaubriand. Como autor, publicara o romance Monólogo das Coisas em 1914 e uma elogiada tradução do poema Rubaiyat, de Omar Khayyam, em 1928, mas desde o trabalho A Mentalidade da Constituinte, de 1931, dedicou-se por completo à história do Brasil. Uma guinada que, como ele mesmo diria muito mais tarde, tivera fortes motivações:
Foi por ocasião da Revolução de 1930. O movimento armado surgiu, aos meus olhos, como uma mudança total do mundo em que eu nascera e me formara. A impressão que tive era a de que o Brasil estava se acabando, e isso fez com que minha atenção se voltasse para a História. Busquei refúgio no passado para esquecer-me das tropelias do presente. E assim, sem quase o sentir, tornei-me historiador.62
Pois todas essas credenciais, somadas à amizade com Gilberto Freyre e José Olympio e ao fato de ter dois livros publicados na coleção, faziam de Octavio Tarquínio um nome ideal para assumir a Documentos Brasileiros. E se seu
Bernardo Pereira de Vasconcellos e Seu Tempo tivera a honra de ser dos
primeiros da série, História de Dois Golpes de Estado seria, por coincidência, o último volume editado sob a direção de Gilberto Freyre, em abril de 1939. Pelo menos um mês antes, contudo, a transição estava completa, como indica uma interessante troca de informações entre os três personagens em foco, a um só tempo autônomas e complementares. Em 31 de março, um breve bilhete de Tarquínio acompanhava a devolução ao editor dos “originais do livro de ‘Memórias’ do Sr. Otávio de Freitas. Li-os com atenção e penso que o livro não convém à nossa coleção”.63 Dois dias depois, Freyre escrevia a José Olympio
“uma daquelas cartas que V. não gosta de receber”, na qual, entre vários lamentos e reclamações, dizia já não ser “nada na coleção, mas ainda me
62
O Estado de S. Paulo, 23 de dezembro de 1959, p. 9. apud Tania Regina de LUCA, “Revista do Brasil
(1938-1943), um projeto alternativo?”, p. 325. Sobre a biografia de Octavio Tarquínio de Sousa, veja-se, além deste texto de Tania de Luca, os verbetes “SOUSA, Otávio Tarquínio”, do Dicionário Histórico-Biográfico
Brasileiro, e “TARQUÍNIO DE SOUSA, Otávio”, do Dicionário Biobibliográfico de Historiadores, Geógrafos e
Antropólogos Brasileiros (volume 3); com relação à sua produção historiográfica, veja-se a tese de doutorado de Márcia de Almeida GONÇALVES, “Em terreno movediço. Biografia e história na obra de Octavio Tarquínio de
Sousa”.
63 Carta de Octavio Tarquínio de Sousa a José Olympio. Rio de Janeiro, 31 de março de 1939.
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interesso por ela. V. tenha cuidado com ela”.64 Mais dois dias, e agora o correio
era do Rio para o Recife, do novo diretor para o antigo:
[...] Achei ótima sua entrevista ao Jornal, e agradeço a referência ao meu
nome. Espero ansioso o artigo prometido para a Revista do Brasil e venho pedir para a coleção “Documentos” o livro anunciado – Um
Engenheiro Francês no Brasil.
A propósito de “Documentos”: li os originais das Memórias do meu “xará” de Freitas e devo dizer-lhe com franqueza que não gostei. Falta o verdadeiro interesse humano, o livro é horrivelmente escrito e o que há nele de depoimento do meio social do Recife entre 1890 e 1930 [...] não o salva. Leu-o V. todo?65
Um cenário diferente parecia assim se desenhar à sombra das palmeiras de Santa Rosa. Totalmente à vontade em sua nova função, Octavio Tarquínio assumiu os poderes do cargo sem hesitar, a ponto de vetar a publicação de um livro sugerido pelo próprio Gilberto Freyre – situação, aliás, que voltaria a se repetir dois meses depois, quando devolveu a José Olympio os originais de uma obra sobre Tobias Barreto, a ele confiados “pelo nosso Gilberto”, com a mesma
frase fatídica: “penso que não convém à coleção ‘Documentos Brasileiros’”.66 Era
evidente que, tal como o autor de Casa-Grande & Senzala, o ministro-historiador também tinha interesse em projetar sobre a coleção as suas concepções acerca do conhecimento do Brasil, em geral, e da história, em particular, as quais ficavam patentes nos mais recentes livros de sua autoria.
Tomados em conjunto, Bernardo Pereira de Vasconcellos, História de Dois
Golpes de Estado e Evaristo da Veiga, este publicado no mesmo ano de 1939 na
“rival” Brasiliana, denunciavam a predileção do autor pelos acontecimentos e, principalmente, pelos personagens da política imperial em torno do período das Regências. Para ele, o estudo biográfico era um privilegiado meio de acesso a toda uma época, percebendo “nas narrativas de vida de seus biografados a possibilidade de construir análises históricas decifradoras e atualizadoras dos
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Carta de Gilberto Freyre a José Olympio. Recife, 2 de abril de 1939. AJO/AMLB/FCRB, doc. 79/1406.
65 Carta de Octavio Tarquínio de Sousa a Gilberto Freyre. Rio de Janeiro, 4 de abril de 1939.
AFGF, CRB72p2doc18.
66 Carta de Octavio Tarquínio de Sousa a José Olympio. Rio de Janeiro, 2 de junho de 1939.
AJO/ AMLB/FCRB,
problemas nacionais”, como já observou Márcia de Almeida Gonçalves.67 Mas,
para que tal possibilidade se realizasse, era fundamental obedecer a alguns critérios, como fizera questão de ressaltar nas breves notas que abriam os referidos trabalhos. No primeiro deles, dizia então que procurara “situar o homem no meio histórico”, com esforços “para ser tanto quanto possível objetivo”, sem deixar que a admiração o levasse “a ocultar o que pudesse acaso diminuir a glória do político e do estadista ou afetar o homem nos seus sentimentos e na sua inteireza moral”; no segundo, que, “mais uma vez”, tentara “ser objetivo, fugindo ao método romanceador, que pode agradar a leitores displicentes, mas acrescenta pouco à interpretação do passado”; no terceiro, que, “fiel à mesma técnica biográfica” empregada no perfil de Bernardo Pereira de Vasconcellos, tentara ainda “fazer um pouco de introspecção social e de reconstituição psicológica”.68
Tal perspectiva, portanto, distanciava-se muito das tradicionais narrativas laudatórias dos “grandes feitos de grandes homens”, produzidas tanto por historiadores quanto por literatos. Para Octavio Tarquínio, o valor historiográfico das biografias estava na contextualização rigorosa – sempre fundamentada em documentos – que elas tinham a obrigação de empreender, a fim de entender o indivíduo, suas ações, suas contradições, sem sobrepô-lo a seu tempo ou consagrar-lhe características “heróicas”. Nesse sentido, ele se alinhava junto a autores que, em diferentes lugares, inclusive no Brasil, empenhavam-se pela renovação do próprio gênero, tendo à frente André Maurois, Emil Ludwig e Lytton Strachey, os “arautos de uma escrita biográfica que se queria moderna”.69 Sua
inovação crucial, entretanto, estava no desdobramento dessa postura, que, ao estabelecer um vínculo indissociável entre biografia e história, fez da primeira um meio para a transformação da segunda, isto é, para a modernização também da
67 Márcia de Almeida G
ONÇALVES, “Em terreno movediço. Biografia e história na obra de Octavio Tarquínio de
Sousa”, p. 88. Considerando a motivação que direcionou os interesses do autor para a história, talvez se possa dizer que sua opção pelo período regencial não foi casual ou gratuita, à medida que a década de 1930 se mostrara tão turbulenta e prenhe de possibilidades históricas quanto a de 1830. Cf. também idem, p. 89. 68 As citações provêm, respectivamente, de: Octavio Tarquínio de S
OUSA, Bernardo Pereira de Vasconcellos
e Seu Tempo, p. 5; Octavio Tarquínio de SOUSA, História de Dois Golpes de Estado, p. 5; Octavio Tarquínio
de SOUSA, Evaristo da Veiga, apud Márcia de Almeida GONÇALVES, “Em terreno movediço. Biografia e história
na obra de Octavio Tarquínio de Sousa”, p. 37-8. 69 Márcia de Almeida G
ONÇALVES, “Em terreno movediço. Biografia e história na obra de Octavio Tarquínio de
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historiografia brasileira.70 Com sua ascensão ao comando da Documentos
Brasileiros, tentativas semelhantes passaram a contar com um aliado sempre disposto a lhes dar abrigo, como demonstra, por exemplo, mais uma carta sua a José Olympio, um ano depois de assumir a coleção:
Meu caro José Olympio:
O portador desta é o escritor Renato de Mendonça, que vai conversar com V. sobre a edição do livro Um Diplomata do Império, excelente biografia do Barão de Penedo, figura das mais interessantes do 2o Reinado.
O livro do Renato de Mendonça, que li atentamente, pode ser publicado na coleção “Documentos Brasileiros”. É obra de valor. V. resolverá sobre a oportunidade da publicação. [...]71
Infelizmente para Renato de Mendonça, o editor não teve a mesma impressão, e sua “excelente biografia” ficou de fora da coleção.72 Para Octavio
Tarquínio, ainda que a recusa porventura lhe desagradasse, ela não era exatamente uma derrota, visto que os volumes 20 e 21, publicados ainda em 1939, eram obras da mesma natureza – André Rebouças Através de Sua
Autobiografia, de Inácio José Veríssimo (com prefácio dele mesmo, Tarquínio), e A Vida Contraditória de Machado de Assis, o mais recente livro do prolífico Eloy
Pontes. Além disso, e mais importante, o revigorado interesse dos intelectuais e do público por perfis mais vivos e “humanizados” não deixaria de garantir títulos adequados aos interesses do diretor, ele mesmo então voltado à reconstituição da vida do regente Feijó. E, ao que parece, ele soube aproveitar muito bem a “epidemia biográfica” daqueles dias: nos cinco anos seguintes, treze dos 29 volumes lançados seriam de caráter biográfico ou memorialístico, do citado Um
Engenheiro Francês no Brasil, de Gilberto Freyre, ao Rio Branco do crítico Álvaro
Lins, passando por dois livros seus, o concluído Diogo Antônio Feijó, de 1942, e
70
Cf. idem, p. 200-1. Para um bom panorama das relações entre biografia e historiografia ao longo da história, veja-se Sabina LORIGA, “A biografia como problema”, e Philippe LEVILLAIN, “Os protagonistas: da
biografia”; especificamente para o caso brasileiro (até meados do século XX), José Honório RODRIGUES,
Teoria da História do Brasil, p. 206-11. 71
Carta de Octavio Tarquínio de Sousa a José Olympio. Rio de Janeiro, 8 de abril de 1940. AJO/AMLB/ FCRB,
doc. 79/2836. 72
O livro de Renato de Mendonça acabaria publicado na Brasiliana em 1942, sob o título Um Diplomata na Corte de Inglaterra. O Barão de Penedo e sua época.
José Bonifácio, de 1945.73 Ao prefaciar um desses lançamentos, as Minhas
Recordações, de Francisco de Paula Ferreira de Rezende (1944), o próprio
Tarquínio assumia que, “tendo lido os originais, animei quanto pude a sua inclusão na ‘Documentos Brasileiros’, do editor José Olympio”, por ser “autenticamente um documento de homem, de vida, de fatos do Brasil”, em perfeita consonância com o espírito da coleção – que já reunia “nesse gênero de literatura algumas obras de incontestável significação” – e com o momento:
Nossa época, que sob tantos aspectos se caracteriza por uma inumana anulação do indivíduo, é ávida, como reação inevitável, de livros em que os homens apareçam de alma nua, homens particulares, homens diferentes uns dos outros, homens como a vida modela e destrói, homens no seu meio familiar e social, sofrendo influências e influindo, seu comportamento dentro e fora de casa, os amores e as afeições, o lirismo e a política, as intenções e os atos, a vida, toda a vida em suas mais opostas e diversas faces.
Daí o êxito tão grande das biografias e autobiografias, dos livros de memórias ou de confissões, dos diários íntimos ou de viagem, dos assentos de família e das correspondências particulares.74
Junto à incorporação da biografia, o novo diretor soube também consolidar o prestígio da coleção, que logo no início da década de 1940 já podia ser comparada à série da Companhia Editora Nacional, embora fosse muito mais recente e muito menos vultosa. É o que se depreende de uma pequena nota publicada na Revista do Brasil em maio de 1942, a qual dizia ser “bastante significativo o gosto do público literário do país pelas obras de estudo relativas à
73
A expressão “epidemia biográfica” foi cunhada por Tristão de Athayde em fins da década de 1920 para designar “a expressão do estado de espírito da época, um estado marcado por uma grande tendência à realidade”, segundo Márcia de Almeida Gonçalves, que a retoma para situar o debate acerca da produção biográfica nacional nas décadas de 1930 e 1940. Como as biografias seriam o gênero predominante entre os títulos da coleção no período em que Octavio Tarquínio foi o seu diretor, de 1939 a 1959, esta autora ressalta que “cabe indagar se tal fato não teria sido resultado dos gostos e escolhas do diretor da Documentos Brasileiros, na época ele mesmo um biógrafo cujos trabalhos integraram a coleção, ou se nesse fato encontraríamos porventura as marcas de um tempo ávido por narrativas de vida”. Não foi seu objetivo buscar a resposta a essa indagação, mas parece claro que as opções não são excludentes, e sim complementares: no caso, tudo indica (e a citação seguinte corrobora essa idéia) que os interesses da época foram filtrados pelos “gostos e escolhas” de Tarquínio, forçosamente associados às propostas originais da coleção. Cf. Márcia de Almeida GONÇALVES, “Em terreno movediço. Biografia e história na obra de Octavio Tarquínio de
Sousa”, p. 106 e p. 238. Para se ter uma idéia do conjunto da série, a relação completa dos autores e títulos editados na Coleção Documentos Brasileiros entre 1936 e 1959, com suas respectivas datas de publicação, encontra-se no Anexo 2.
74 Octavio Tarquínio de Sousa, “Prefácio”, in Francisco de Paula Ferreira de Rezende, Minhas Recordações, p. 21.
126 vida brasileira nos seus vários aspectos”, percebido pelo “sucesso de algumas coleções especializadas organizadas pelas principais editoras nacionais”. Como o texto ressaltava, “não é possível tocar no assunto sem referir a Brasiliana”, cujos 220 volumes representariam “o mais variado repertório de estudos sobre temas brasileiros”, refletindo “o corpo e a alma do Brasil”. A relação da José Olympio, porém, “não lhe fica[va] atrás”, pois, mesmo contando com menos de 35 obras, todas haviam sido “escolhidas com o maior rigor, e quase todas [eram] de singular importância do ponto de vista histórico, sociológico ou literário”.75
Rapidamente, Octavio Tarquínio afirmara-se como um ótimo administrador do edifício arquitetado e levantado por José Olympio e Gilberto Freyre. Estes, por sua vez, continuavam muito participativos em relação à Documentos Brasileiros, em contato direto tanto com Tarquínio quanto entre si. No caso de José Olympio, o dever do ofício e os cuidados que a ela dedicava o levavam a fazer muito mais que referendar ou não as idéias e decisões do diretor, procurando também atrair autores sempre que possível. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Nelson Werneck Sodré, freqüentador assíduo das rodas literárias de sua livraria enquanto esteve na Capital, entre 1937 e 1938. Em suas Memórias de um Escritor, Sodré conta que no início de 1939 escreveu a Daniel Pereira, irmão de José Olympio, para comunicá-lo de que finalizava um novo trabalho, Orientações do
Pensamento Brasileiro, e pensava em reeditar seu primeiro livro, a História da Literatura Brasileira (Seus Fundamentos Econômicos), publicado um ano antes
pela Cultura Brasileira, a editora de Galeão Coutinho, havia pouco falida. E continua:
Sobre aquele, havia conversado, quando estava no Rio, com José Olympio por vezes, sem entrar em mais detalhes no terreno editorial porque o livro não estava pronto. O editor e amigo conhecia o plano, a estrutura e a relação dos autores escolhidos para objeto dos estudos. Nessas condições, nada dissera. Foi com alguma surpresa, pois, que recebi resposta direta de José Olympio:
“Meu caro Nelson. Recebi o seu recado pelo Daniel. Fiquei contente. Contente porque: 1o) não me era possível editar o seu livro sobre
pensadores brasileiros. Razões de ordem particular me impedem de ser o editor daquele trabalho. Estava constrangido porque precisava ser
franco a você e receava magoá-lo. Tenho-o em grande apreço e, além
disso, quero-lhe bem. Você agora me oferece a reedição da História da
Literatura, que aceito, com grande prazer, para fazer imediatamente.
Mande, pois, o original. Sairá na ‘Documentos’ se o nosso Tarquínio concordar. E, se ele não concordar, sairá fora da coleção, mas entrará para o prelo imediatamente”.76
Tarquínio concordou, e a coleção ganhou assim seu vigésimo terceiro volume, publicado em 1940, e um autor assíduo, que lhe daria três outros títulos até o final da década seguinte.77
Enquanto isso, Gilberto Freyre era ainda muita coisa na coleção, ao contrário do que ele mesmo havia dito em 1939. Agindo sem muita diferença dos tempos em que a tinha sob sua responsabilidade, fazia contato com potenciais autores e incentivava outros a escrever, indicava livros e remetia originais para o Rio de Janeiro, discutia ora com o diretor, ora com o editor a publicação dos seus próprios títulos. Tudo em larga medida estimulado e legitimado por Octavio Tarquínio e José Olympio, que, ao menos aparentemente, não se sentiam ofendidos com tantas intervenções. Às vezes, elas podiam ser intermediações marcadas pela sutileza, como quando escreve ao amigo Manuel Cardoso, nos Estados Unidos, sobre “a publicação de sua dissertação em português”, um “assunto de que já cuidei. O diretor da Documentos Brasileiros – o que me
76 Nelson Werneck S
ODRÉ, Memórias de um Escritor, p. 186-7. Logo em seguida, Sodré explica que “o motivo
particular, que José Olympio não revelava, consistia em que entre as figuras estudadas em Orientações do Pensamento Brasileiro havia uma de desafeto seu. O curioso – e, aliás, honroso para as duas partes – é que, sendo eu amigo de ambos, jamais ouvi de cada um a mínima referência ao outro; os dois respeitaram sempre a minha condição de amigo”. Para ilustrar ainda melhor as relações entre este autor e o editor, também é interessante registrar a polida carta que escreve de volta a José Olympio, não transcrita em seu livro: “José Olympio, abraços. Acabo de receber sua carta datada de ontem. Muito grato pelos termos com que você a escreveu. Qualquer que fosse a situação entre nós, não ficaria magoado pela sua resolução em não editar o livro que lhe entreguei em janeiro. Respeito as suas resoluções, ditadas, eu sei, pelas condições imperativas do mercado de livros, pela viabilidade ou não de certas publicações. Colocada a solução no terreno da mais ampla liberdade, conforme fiz, posta de parte a nossa amizade, que não poderia ser arranhada por caso de ordem comercial, fico satisfeito de que você não tivesse constrangimento em se manifestar contrário a uma pretensão minha que, aceita, iria contrariar interesses seus, que, como amigo, devo respeitar. Muito obrigado pela sua confiança, José. Os tempos mostrarão que não sou indigno dela. Grato, ainda, pela aceitação da