3 Metode
3.4 Reliabilitet, validitet og generaliserbarhet
Ao aliar o conhecimento da pré-existência de uma igreja primitiva com os atuais elementos que remetem para o período Manuelino, como é o caso da porta da sacristia ou a abóbada de combados que cobre o espaço da capela-mor, diferente da restante linguagem renascentista aí presente, pode concluir-se que existe a possibilidade da capela-mor ser o núcleo inicial da igreja, anterior aos
107. Teto em caixotões no corpo da nave.
108. Planta do possível núcleo inicial em comparação com a atual planta da .Igreja do Convento de Santa Iria.
P L A N T A D E P A V I M E N T O S | 1 : 5 0
107
seus restantes espaços. Encontram-se, no entanto, duas inscrições em ambas as paredes laterais da capela-mor, debaixo de cada uma das janelas existentes neste espaço, que dão as seguintes informações: na parede do lado do Evangelho lê- se: “Esta capela mandou fazer Pedro Moniz da Silva que está sepultado n’ella có sua mulher D. Isabel Eriques e seu filho Bernardo Moniz da Silva com a sua mulher D. Lourença da Silva e sua filha D. Vitória da Silva”; já na parede do lado da Epístola lê-se: “No ano de CIC.ICC.X5 mandou reedificar esta capela e
ornar de pinturas e ouro á sua custa uma neta do fundador della, filha de seu filho Bernardo Moniz da Silva”. Esta última inscrição refere-se à suposta reedificação da Igreja do Convento de Santa Iria mandada executar por D. Maria da Vitória, neta de Pedro Moniz da Silva,6 em 1610.
Para refutar a tese que indica que o conjunto do corpo da capela-mor com o transepto conformariam uma capela à qual posteriormente teria sido acrescentado o corpo da igreja (fig. 108), no portal de entrada encontra-se mar- cada a data de 1536, o que mostra a impossibilidade de que qualquer reedifi- cação executada à data de 1610 não tenha também englobado aquele elemento, localizado no corpo da nave da igreja (fig. 109). Assim, através desta premissa, crê-se que a igreja não terá sido o resultado da expansão de um primeiro espaço previamente existente mas sim um objeto pensado como um todo logo desde o início, ainda que a sua construção tenha englobado diferentes movimentos e tido diferentes fases, que se estenderam desde 1536 até depois de 1610.
Tendo então como premissa que a Igreja do Convento de Santa Iria foi construída na sua totalidade desde o seu projeto inicial, pode-se estranhar o facto de se encontrar, no seu interior e exterior, elementos que estilisticamente
5 Númeração românica correspondente ao ano de 1610.
6Pedro Moniz da Silva foi o encomendador da construção da Igreja que agora se conhece. Comen-
dador da Torre e dos Casais na Ordem de Cristo, reposteiro-Mor de D.Manuel e mordomo mór de D.Henrique, irmão de António Moniz da Silva, este que era prior-Mor da Ordem de Cristo. À data, João de Castilho era o responsável pela obra no claustro de D.João III, no convento de Cristo pelo que terá sido através do irmão que Pedro Moniz da Silva terá tido contacto com o arquiteto e lhe terá encomendado a obra de Santa Iria, de acordo com, Guimarães (1927: 241).
109. Data presente no portal de entrada da igreja.
110. Caveira existente numa das mísulas da capela-mor
da Igreja do Convento de Santa Iria. 111. Caveira existente num capitel da Ermida da Nossa Senhora da Conceição.
109
retratam diversas épocas. Quando se associa o nome de João de Castilho à Ig- reja do Convento de Santa Iria, o seu nome aparece referenciado apenas como interveniente na Capela dos Valle, no portal de entrada e na janela que se en- contra à sua direita. No entanto, ao acreditar que a igreja foi toda edificada simultaneamente, não é difícil de imaginar que João de Castilho tenha sido o re- sponsável pelo conjunto da igreja e não apenas pelos elementos a ele associados. Para suportar esta premissa, deve-se ter em atenção que a abóbada que cobre o espaço da capela-mor se assemelha a outras desenhadas por João de Castilho na mesma época. Por outro lado, numa das mísulas da capela-mor, do lado da Epístola, existe uma caveira esculpida semelhante à que se encontra num capitel da Ermida da Nossa Senhora da Conceição (fig. 110 e 111), obra pertencente à autoria de João de Castilho, também localizada em Tomar, o que leva a crer que, para além de ser um símbolo que sinaliza uma capela mortuária, se tratasse igualmente de um tipo de assinatura usada pelo autor, prática que seria comum nos arquitetos renascentistas, ao contrário dos arquitetos medievais que não tin- ham como costume assinar as suas obras.
Focando novamente na capela-mor e no seu espaço, pode-se dizer que esta tem uma forma retangular, com um comprimento que corresponde a um terço do comprimento do corpo da nave, e possuindo no seu espaço um altar e um retábulo barroco, de grande profundida, dando a ilusão de que o corpo da capela-mor tem dimensões mais pequenas do que possui na realidade. As duas janelas que se encontram nas suas paredes laterais, e que têm um desenho simétrico, servem como valorização da composição, dando prioridade à com- posição em detrimento da verdade construtiva ou arquitetónica, uma vez que uma das janelas se abre para um espaço interior, não tendo por isso qualquer tipo de função de ventilação. Serve, no entanto, para ajudar a iluminar o espaço, uma vez que a divisória que lhe é adjacente, a sacristia, possui uma janela, virada para um pátio interior, que está perfeitamente alinhada com a interior existente na capela-mor.
Ao contrário do que acontece nas paredes laterais da nave, as da cape- la-mor não são completamente revestidas a azulejos, sendo estes interrompidos
ao mesmo nível em que surgem as janelas, onde a partir desse ponto surgem pinturas murais com representações de cenas religiosas7.
Verifica-se também, em relação à nave, uma compressão do espaço den- tro da capela-mor, dada pela subida para uma cota mais alta, em referência às restantes cotas da igreja, e pela atmosfera mais recolhida e sombria. A sua cob- ertura é, também, diferente da existente na nave, tratando-se, neste caso, de uma abóbada de combados8 composta por vários medalhões (fig. 112), representante
do gótico final em Portugal, o Manuelino.
Este gesto do Manuelino que se encontra na capela-mor não se prende apenas a este espaço, invadindo a nave com o desenho da cantaria da porta da sacristia, e a capela dos Valle com a sua abóbada, de aparência de um gótico ainda mais inicial, criando desse modo um diálogo entre os diferentes espaços que compõem a igreja.