4 Analyse og diskusjon
4.5 I dag
Como já foi referido anteriormente19, a Igreja do Convento de Santa Iria
apresentava um estado de abandono e de degradação muito avançado no final do século XIX, o que levou ao desenvolvimento de uma campanha de sensi- bilização, que resultou na compra do imóvel pela Condessa de Sarmento. No entanto, apesar da troca de proprietários, apenas no século XX começaram a ser realizadas obras de restauro na igreja. Sabe-se, por isso, que o seu estado de degradação foi sendo ainda mais acentuado.
As primeiras intervenções realizadas na igreja foram iniciadas no ano de 1926. Apesar de não se saber pormenorizadamente quais as operações real- izadas, pode-se concluir que foi nesta época que foram inseridos os tirantes, nas paredes da nave, e o reforço das varas na cobertura, uma vez que, segundo o Relatório de Intervenção do Telhado (RIT), estes elementos já existiam em 1995 (fig. 133).
A aplicação dos tirantes nesta data leva à conclusão de que, na época, a igreja já tinha sofrido movimentos na sua estrutura, cuja origem pode ter esta- do conectada com as constantes transformações feitas no convento adjacente e com a alteração do volume do caudal do rio Nabão20, o qual, consequentemente,
modificou a consistência dos solos contíguos e, por conseguinte, movimentou as estruturas dos edifícios neles assentes.
Relativamente à cobertura, a operação aí realizada aparenta ser uma solução provisória para as anomalias detetadas. Segundo o RIT, as varas que compunham a estrutura original tinham apodrecido e, como tal, a segunda cam- ada de vareado foi colocada como forma de sustentar a pré-existente (figs. 134
19 Ver capítulo 3.4. 20 Ver sub capítulo 3.2.2.
137. Vista da estrutura mista em metal e madeira.
136. Fixação da nova estrutura da cobertura na parede, através do uso de betão armado.
138. Forma como contactam os elementos de metal com os elementos de madeira.
e 135). Contudo, este tratamento foi apenas um reforço da pré-existência, visto que a estrutura original não foi tratada, o que levou a que a sua deterioração se agravasse e resultando em que, na intervenção de 1995, fosse completamente substituída, por não ser possível o seu tratamento.
No que diz respeito à intervenção de 1995, esta foi uma iniciativa dos proprietários da igreja, a família Valle, que concorreram para o Processo de Candidatura a Apoio Financeiro da Comissão Europeia (PCAFCCE), progra- ma promovido pela Comissão Europeia e que tem como objetivo apoiar a con- servação do património arquitetónico localizado no espaço europeu. Tendo sido um dos dois projetos que ganhou a candidatura no território português, para além do financiamento recebido por parte da Comissão Europeia, também a DGEMN e a CMT contribuíram monetariamente para a intervenção realizada na Igreja do Convento de Santa Iria.
Esta intervenção teve como foco principal três elementos distintos: a cobertura, o teto e a pintura mural do calvário, esta última não fazendo parte do plano inicial da intervenção, sendo apenas descoberta quando a peça de madeira com a representação do calvário foi retirada da parede que separa a nave do coro, para que pudesse ser restaurada.
Segundo o RIT, a estrutura da cobertura original era composta por: telha de canudo, a qual estava apoiada sobre um guarda-pó em madeira, que por sua vez assentava num varedo, o qual suportava em simultâneo o telhado e o teto em caixotões. No entanto, devido ao avançado estado de degradação de todo o conjunto, só foi possível recuperar algumas das telhas, sendo todos os restantes elementos substituídos.
Relativamente à intervenção executada, foi adotada uma abordagem em que todos os materiais aplicados eram diferentes dos pré-existentes. Foi, por isso, aplicada uma solução mista, composta por uma estrutura metálica, apoiada em betão armado, colocado no topo das paredes, onde antes existia o frechal, e por uma estrutura de madeira, a qual teria a função de suportar o teto (figs 136
141. Inserção da moldura a rematar os caixotões cortados aquando da demolição do coro duplo.
139 e 140. Estado em que se encontravam os caixotões em contacto com a parede fundeira, cortados e sem remate.
141 139
a 138). Quanto ao revestimento, as telhas em canudo passaram a assentar sobre uma camada de subtelha, em chapas onduladas de fibrocimento.
Em relação ao teto de caixotões, à semelhança da cobertura, encontra- va-se bastante danificado, possuindo em muitos dos caixotões tábuas que tinham apodrecido, lacunas e o desgaste de quase todas as pinturas. Foi por isso consid- erado como necessário proceder à desmontagem de todo o conjunto, para que pudesse ser adequadamente tratado. Segundo o RIT, a sua intervenção passou pelo preenchimento das lacunas com novas tábuas de madeira, assim como pela substituição das que se encontravam em mau estado. Relativamente às pinturas, que representam as cenas da vida de Santa Iria, foi realizada uma integração cromática, para que as lacunas existentes não fossem tão notórias.
De todas as operações efetuadas no teto, considera-se que a mais impor- tante foi o esforço de restabelecer a dignidade deste elemento. Quando o duplo coro foi removido da igreja21, também o teto de caixotões foi danificado, uma
vez que parte dele foi cortado (figs. 139 e 140). Contudo, com a intervenção de 1995, os três caixotões danificados foram rematados com uma moldura, à se- melhança do que acontece no restante teto (fig. 141). Assim, apesar de ficarem com proporções diferentes dos outros caixotões, esta adição deu ao conjunto uma aparência completa, permitindo que as diferentes dimensões passem des- percebidas a um observador menos atento.
Por último, relativamente à pintura mural, esta foi descoberta devido à necessidade de desmontar o teto, uma vez que se encontrava escondida por um painel trapezoidal, o qual o RIT definiu como pertencente ao teto, colocado na parte superior do arco triunfal. Por se encontrar na superfície dessa parede, os barrotes que prendiam a peça de madeira danificaram a pintura, tendo-a dividido em diversos fragmentos, com nove cortes verticais (fig. 142). Para além disso, era visível a existência de diversas fissuras, as quais se deviam aos movimentos
143. Aspeto da superfície da pintura mural após a re- moção dos barrotes.
142. Pintura mural com os barrotes fixos na parede.
144. Uma das fissuras existentes na pintura, provocada pelo movimento da estrutura da igreja.
estruturais existentes na igreja (figs. 143 e 144). Os responsáveis pela inter- venção optaram por expor a pintura a fresco em detrimento da peça de madeira do teto e da talha que coroava o arco triunfal. A pintura foi por isso tratada, sendo os barrotes removidos, as lacunas preenchidas e a camada cromática re- integrada, enquanto que a peça trapezoidal e a talha do arco triunfal foram colo- cadas na parede fundeira da igreja.
Apesar desta opção ter sido adotada por se ter considerado que a pintura mural possuía um maior valor para a igreja, devido à sua qualidade técnica e à sua autoria22, a remoção dos elementos de madeira referidos do seu contexto
para um enquadramento desconhecido criou um cenário visual insólito em dois locais: na parede fundeira e na parede divisória. No primeiro local, porque lhe foram adicionados dois elementos que não lhe pertenciam e que ficam desen- quadrados, parecendo estarem a flutuar na sua superfície, sem qualquer tipo de componente que os agarre. Na parede divisória, onde estavam situados, por ter sido destruída a imagem unitária dada pelos elementos barrocos, constituída pela balaustrada, pelos retábulos dos altares laterais, pela talha do arco triunfal e pelo teto de caixotões. Em vez disso, ficou uma combinação mista e desconec- tada destos restantes elementos barrocos com uma pintura de caráter renascen- tista23.
A intervenção de 1995 foi a última a ser realizada na Igreja do Convento de Santa Iria até aos dias de hoje. Por conseguinte, a imagem visual do edifício manteve-se estabilizada nos últimos vinte e três anos.
22 Ver a ficha “Calvário” do sub capítulo 5.2.1. 23 Ver imagens 106 e 127.