A importância da construção teórica de Touraine é ressaltada por Gohn (2014a, p. 95) quando afirma que o autor francês não só acompanhou a trajetória das ações coletivas no mundo ocidental, como produziu e interferiu no debate sobre os rumos dessas ações na sociedade e na política.
A ligação entre a ideia de sujeito e a de movimento social é pautada, então, em duas afirmações centrais: a primeira é que o sujeito é vontade, resistência e luta; e a segunda é que não há movimento social possível à margem da vontade de libertação ou liberação do sujeito (GOHN, 2014a, p. 95).
Como bem explica Touraine (2012, p. 247), o sujeito se opõe aos chamados papéis sociais, ou seja, a construção da vida social e pessoal pelos centros de poder que criam consumidores, eleitores, um público, pelo menos enquanto oferecem respostas às demandas sociais e culturais.
A abordagem do sociólogo se mostra coerente com a postura de indivíduos que buscam questionar determinadas posturas do Estado que podem vir a violar ou que efetivamente violam seus direitos fundamentais destas. No mesmo sentido, a análise de Touraine representa a atitude daqueles que buscam uma forma de resistir à distribuição de papeis que costuma existir na sociedade e que podem encontrar através dos movimentos sociais essa maneira de se expressar.
15 Podem ser citadas as seguintes obras: Pensar de outro modo (2007); Um novo paradigma (2005);
No entendimento do autor, portanto, o indivíduo não constituído em sujeito é consumido por esses papeis e torna-se submisso aos que dirigem a economia, a política e a informação. A sociedade de massa é marcada por uma linguagem das propagandas e publicidades que tende a esconder esse conflito e impor a ideia de que a organização da sociedade consegue responder às “necessidades”, quando estas, muitas vezes, estão de acordo com os interesses do poder (TOURAINE, 2012, p. 247).
Touraine (2012, p. 251) afirma que o sujeito só existe como movimento social, ou seja, como contestação da lógica da ordem, tome esta uma forma utilitarista ou simplesmente na busca da integração social. A relação entre sujeito e movimento social, portanto, é necessária na percepção do sociólogo, nota-se que trata-se de categorias amplas, nas quais a ideia central é que o movimento social é local de expressão desse sujeito.
É necessário destacar que o conceito de movimentos sociais, como os conceitos de modo geral, se apresenta engessado segundo a situação de fato concreta. Dessa maneira, diante de variadas abordagens16, a opção por Touraine nesta pesquisa se mostra compatível com questões pontuais que vem marcando a sociedade brasileira. Na contemporaneidade, a discussão sobre movimentos sociais se insere no contexto amplo da crise da modernidade e da constante repressão que recai sobre os indivíduos que, de alguma maneira, nestes se envolvem. Como bem destaca Gohn,
Há mais de dez anos o debate teórico nas ciências humanas tem dado destaque à crise do paradigma dominante da modernidade, às transformações societárias decorrentes da globalização, às alterações os padrões das relações sociais, dado o avanço das novas tecnologias, e às inovações que têm levado ao reconhecimento de uma transição paradigmática (GOHN, 2014a, p. 41).
Nesse contexto, ganham espaço outras dimensões da realidade social que modificam a ideia de que a realidade cientifica é a única legítima e são essas outras racionalidades que estão predominantemente presentes no campo das experiências de participação em lutas e movimentos sociais, culturais, etc. (GOHN, 2014a, p. 42).
Na perspectiva do autor francês, um movimento social caracteriza-se por ter como objetivo principal a defesa da liberdade do sujeito individual e dos direitos fundamentais. Assim, aquilo que suscita um movimento social é a consciência de não
16 Gohn (2014a, p. 24-30) apresenta as seguintes correntes teóricas sobre os movimentos sociais: a
histórico-estrutural, a culturalista-identitária e a institucional/organizacional-comportamentalista. Não é objeto desta pesquisa uma discussão acerca de todas essas abordagens, no entanto, importante salientar que a socióloga coloca Touraine como pertencente à corrente culturalista-identitária (mesma linha de autores como Hegel, Habermas e Foucault), na qual é analisada a capacidade dos movimentos sociais de produzir novos significados e novas formas de vida e ação social.
ser reconhecido e respeitado, de ser humilhado, ou até alienado, ou seja, privado da relação direta com si sem a qual nenhum direito tem fundamento sólido (TOURAINE, 2007, p. 143).
A maneira com que o sociólogo aborda a temática dos movimentos sociais, portanto, não se restringe a análise de situações específicas, ele procura transcender esse tipo de entendimento para analisar a questão sob a ótica do conceito de sujeito. Dessa maneira, percebe-se que o foco do autor repousa sobre o que essa forma de articulação social representa para os indivíduos que dela participam.
Touraine (2012, p. 257) deixa claro, portanto, que a ideia de sujeito está associada a um conteúdo social contestador, por isso a subjetivação muitas vezes constitui o tema central do movimento social das classes dominadas, enquanto que a racionalização relaciona-se com a ação das forças dirigentes. Em conjunto, elas definem as orientações culturais da sociedade moderna.
No contexto sobre o qual se debruça essa pesquisa essencial o entendimento do autor francês, pois ele destaca que enquanto os antigos movimentos sociais, especialmente o sindicalismo operário, se deterioram em grupos de pressão política ou agências de defesa corporativa, os novos movimentos sociais, mesmo diante de certa ausência de organização e capacidade de ação, já deixam transparecer uma nova geração de problemas e conflitos ao mesmo tempo sociais e culturais (TOURAINE, 2012, p. 260).
A percepção do autor sobre os novos movimentos sociais é de suma relevância para o contexto de manifestações ocorridas no Brasil a partir de 2013. Trata-se de um cenário no qual os problemas apontados pelos manifestantes perpassam pela insatisfação com uma série de serviços sociais prestados com má qualidade pelo Estado. Dessa maneira, não se trata de lutar pela direção dos meios de produção, mas pelas finalidades dessas produções culturais que são a educação, os cuidados médicos e a informação de massa. Essas novas contestações não visam criar um novo tipo de sociedade, mas “mudar a vida”, defender os direitos do homem (TOURAINE, 2012, p. 260).
É um novo cenário que se coloca cada vez mais latente, no qual se deterioram as forças e instituições políticas vindas da sociedade industrial que não mais expressam fortes demandas sociais e se transformam em agências de comunicação política. O autor compreende que os movimentos sociais mobilizam princípios e sentimentos. A crise que pode ser verificada está no papel dos partidos políticos como representantes da
necessidade histórica, acima dos atores sociais e muitas vezes contra eles (GOHN, 2014a, p. 107).
Toda essa análise realizada por Touraine é fruto de sua insatisfação com a modernidade. A relação entre sujeito e movimentos sociais, portanto, é um excelente referencial para análise da realidade brasileira. Ao tratar de criminalização das pessoas que participam de manifestações é necessário compreender o que estas representam para a sociedade e o que a sua postura significa no contexto social.
Através do pensamento do sociólogo nota-se que os manifestantes apresentam as características que o autor considera como essenciais para a existência do sujeito e em um Estado como o brasileiro esse tipo de conduta adotada por esses indivíduos é de extrema relevância, tendo em vista terem como fim o fortalecimento dos direitos fundamentais que estão em constante ameaça diante da fragilidade de uma democracia que ainda é considerada recente.
Tais pressupostos, portanto, são essenciais para a compreensão dos dois fatos eleitos como ponto de análise da problemática dessa pesquisa e que serão apresentados a seguir.