Podem ser verificadas, tais dificuldades no âmbito familiar e em relação à sociedade, apesar de nos últimos tempos terem se constituído novas redes familiares. Redes que vão além do homem/mulher-filho (a). Mas há não só muitos homens que adotaram e continuam adotando crianças, não obstante a dificuldade no Brasil. E lésbicas que buscam no banco de esperma sêmem de amigos ou até mesmo inseminação de amigos gays e que têm filhos, compartilhando a paternidade e a maternidade.
Esses fatos reforçam a idéia de que procriar é uma opção do casal e que também tem seu significado distinto, conforme a sociedade. Sobre a formação familiar afirma Szymanski:
Desde Freud, família e, em especial, a relação mãe-filho tem aparecido como referencial explicativo para o desenvolvimento emocional da criança. A descoberta de que os anos iniciais da vida são cruciais para o desenvolvimento emocional posterior focalizou a família como o lócus potencialmente produtor de pessoas saudáveis, emocionalmente estáveis, felizes e equilibradas, ou como o núcleo gerador de inseguranças, desequilíbrios e toda sorte de desvios de comportamento (2000:23).
A autora afirma sobre a família contemporânea a partir de Gomes:
Supõe-se ou aceita-se, irrefletidamente, um modelo imposto pelo discurso das instituições, da mídia e até mesmo de profissionais, que é apresentado não só como o jeito “certo” de se viver em família, mas também como
um valor. Isto é, indiretamente, é transmitido e captado, o discurso implícito de incompetência e de inferioridade, referindo-se àqueles que não “conseguem” viver de acordo com o modelo. Essa sensação de ser “diferente”, “menos do que” e “incompetente” aparece no discurso daqueles que se desviam da norma. (1998).
E sobre os papéis que exercemos na vida:
...existem generalizações: “mulheres são...”; homens são...”; se o afeto for demonstrado de tal ou tal maneira..esse discurso vai sendo construído em cada mundo familiar, dando-lhe uma feição própria, mesmo que sob um só modelo. Cada família circula num modo particular de emocionar-se, criando uma “cultura” familiar própria, com seus códigos, com uma sintaxe própria para comunicar-se e interpretar comunicações, com suas regras, ritos e jogos Além disso, há o emocionar pessoal e o universo pessoal de significados. Tais significados, no cotidiano, não são expressos. O que se tem são ações que são interpretadas num contexto de emoções entrelaçadas com o crivo dos códigos pessoais, familiares e culturais mais amplos. Tais emoções e interpretações geram ações que vão formando um enredo cuja trama compõe o universo do mundo familiar.
Contudo, conforme o mundo se transforma, a família deixa de ter a base em um casal heterossexual, para haver outros formatos, como o da mãe solteira com sua família, o da mãe solteira sozinha, o pai que ficou com a guarda das crianças, o casal de lésbicas que fez inseminação, o banco de esperma, a barriga de aluguel e os casais homossexuais masculinos com filhos adotivos.
Lopes e Calderoni ressaltam que a família não tem uma única definição, mas varia no tempo, de cultura para cultura, de sociedade para sociedade, variando até dentro de uma única sociedade, num mesmo momento histórico-político-cultural.
...semelhança ou identificação, pelo fato de os homossexuais serem do mesmo sexo, pode aumentar o entendimento entre os parceiros, ela provavelmente também os tornará mais vulneráveis à fusão. Uma segunda e relacionada área de dificuldade origina-se da falta de aceitação que a maioria dos casais gays experiencia na família e na cultura em geral, por todo o seu ciclo de vida. Isso aumenta o risco de eles desenvolverem problemas de fronteira um com o outro, em resposta às reações negativas da família ou da sociedade em relação à sua condição de casal; o estigma de ser homossexual pode levar ao estabelecimento de uma identidade secreta, ou a uma fusão com outros na comunidade gay e ao rompimento com o mundo heterossexual (1998:192).
Relacionada a essa negatividade familiar e societal está a falta de rituais normativos para os homossexuais, conforme avançam no ciclo de vida. Não têm o benefício do casamento formal, ou do divórcio, para assinalar suas transições no relacionamento. Muitas vezes, a família de origem tende a vê-los como perpétuos adolescentes. É necessário um esforço especial de sua parte para receber o adequado reconhecimento quando ocorrem as mudanças no seu modo de relacionar-se.
O reconhecimento dessa união, socialmente, por meio do casamento, tem sido uma das últimas conquistas dos casais homossexuais como pessoas com os mesmos direitos, ou seja, a conseguida herança, a ajuda financeira e a partilha dos bens do casal.
Patrick Price afirma que um marido não é um namorado:
...um namorado é algo como uma lagarta que pode se metamorfosear em marido. Mas, como acontece com aquelas experiências que a gente faz no colégio, você nunca sabe de que forma as coisas vão evoluir...Claro que é difícil definir um marido, mas quando você encontrar um você saberá. Vai começar a usar os verbos no futuro e de uma forma muito sincera...Quando pensamos em “marido”, nossas cabeças se enchem daquelas imagens de casais perfeitos e amorosos, brincando no parque com seu alegre cachorrinho ou dividindo um café da manhã na cama...Há
uma grande diferença entre procurar marido e simplesmente manter uma série de relações monogâmicas. No segundo caso, a pessoa pode ser fiel sexualmente, mas sempre está de olho aberto para outras possibilidades (1998:19).
O ser aceito como casal implica aparecer e ser como todos, garantindo seus direitos. Porém, ao mesmo tempo é a busca por um modelo preescrito para os heterossexuais. No caso de adoção eleva-se a um passo de segurança financeira e emocional. Apesar de sabermos que o casamento em si não constitui terreno sólido, mas o amor, o carinho, o respeito trazem em si aspectos que podem indicar caminhos da felicidade.
Por isso, ainda há controvérsias a respeito de casais homossexuais criarem filhos. Porém, muitas crenças são criadas só pelo pai, só pela mãe, ou por pais ausentes. Aqueles que mantêm um relacionamento afetuoso mais sincero demonstram confiança e constituem um ser melhor. O ser criado por casais homossexuais não diz respeito à identidade sexual que vai ter.