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Abordar a temática do homossexualismo nos remete a análises calcadas no exame das relações familiares.

No poema A paternidade e o masculino, a procriação, de Vinícius de Moraes, citado no livro Sobre a Identidade Masculina, de Badinter (1992), há o papel do pai e suas implicações em relação ao filho. Paternidade que o nascimento de um filho mobiliza no pai, e na mãe, revivências de seu próprio nascimento.

O FILHO QUE EU QUERO TER Vinícius de Moraes

É comum a gente sonhar Eu sei

Pois eu também dei de sonhar Num sonho lindo de morrer

Vejo um berço E nele, eu me debruçar Com o pranto a me correr E assim chorando acalentar

O filho que eu quero ter

Quando a vida enfim Me quiser levar Pelo tanto que me deu Sentir-lhe a barba a me roçar

No derradeiro beijo seu

Ao sentir também sua mão vedar Meu olhar dos olhos seus Ouvir sua voz a me embalar

Num acalanto de adeus

Dorme meu pai sem cuidado Dorme que é o entardecer Teu filho sonha acordado Com o filho que ele quer ter

Badinter (1992) descreve o sonho, o desejo de ser pai.

Ainda acrescenta:

A introjeção paterna é a que será transmitida através das gerações como um elo na cadeia da vida. Para o homem, o vínculo com o pai não vai servir nesse momento. Mas os vínculos com outros homens se baseiam no vínculo com o pais. E, na grande maioria das vezes, o vínculo com o pai é efetivamente insatisfatório.

Esse pai “sumia” ou ficava com a família, mas não ensinava coisas positivas sobre como ser um homem perante o mundo, deixando, no máximo, o estereótipo do “macho” como herança. Os vínculos com outros homens tendem a se tornar superficiais ou até ameaçadores.

Conforme Badinter:

A diferença entre os sexos é extremamente variável de uma sociedade a outra. Fortemente marcada ou apenas perceptível para o observador estrangeiro hoje, em nossas sociedades, às vezes é difícil distinguir um rapaz e uma moça, tardia (Taiti) ou precoce (nas sociedades ocidentais, antes da década de 1900, por exemplo) a diferenciação sexual é um dado universal. (1992:62)

[...] As resistências também são psicológicas e, desta forma, não aleatórias. A necessidade de se diferenciar do outro sexo não é resultado de aprendizagem, mas uma necessidade arcaica. A criança aprende a classificar pessoas e objetos em dois grupo : um parecido com ela; o outro, oposto. Outro dado comum na primeira infância é a tendência a definir o Ser pelo Fazer. As perguntas: o que é um homem? O que é uma mulher? A criança responde enunciando papéis e funções, em geral estereotipados e oposicionais. É por isso que a crítica à teoria dos papéis sexuais nos Estados Unidos, legítima no que se concerne ao homem ou à mulher adultos, deve ser atenuada em relação às crianças. Se é bastante normal ensinar as mesmas coisas às crianças dos dois sexos, é também muito necessário deixar a cada uma a possibilidade de exprimir sua distinção e sua posição. ( 1998:63)

Os adolescentes ainda trocam balbucios, conversa “jogada fora”, a respeito do que é ser homem. Com a maturidade, o homem se distancia dos primeiros amigos e entra na competitividade, moldada no vínculo com o próprio pai.

o contraste entre o papel masculino tradicional, que implica fortes laços emocionais entre homens (cuja intimidade é limitada pelas formas ritualizadas), e o papel masculino moderno, no qual as relações afetivas entre homens são fracas e freqüentemente ausentes. Uma das razões dessas diferenças de atitudes reside provavelmente no fato de os jovens dos tempos modernos não terem mais um iniciador, e seu pai não pôde preencher esta função. Os pais, homófobos, temem os contatos muito estreitos com seus filhos. (1998:72).

O homem pára de trocar intimidade com outros homens em relação a suas dúvidas, medos e inseguranças quando “passa para a vida adulta”. O jovem se distancia do pai e de outros homens, não confiando mais neles.

Os homens adultos ficam homofóbicos, receando ironias homossexuais ao se abrirem emocionalmente com seus pares ou frente ao risco de incitações, em situação de grupo. A idéia de que quantidade é igual a qualidade associa o número de vezes que faz sexo ou ao número de mulheres que conquista. O desejo de conquista se torna sinônimo de poder, empurrando-o para uma perigosa solidão.

Os homens adultos ficam com medo da homossexualidade e da homofobia, de se abrir emocionalmente, com medo de que grupos incitem ou gerem ironias homossexuais. Ensinou-se ao homem que quantidade é igual a qualidade. Daí, o desejo de ter poder é associado ao número de vezes que faz sexo, ou ao número de mulheres que conquista. Fica preso à conquista do poder, e o poder é uma perigosa solidão.

Socialmente, para muitos homens tornar-se adulto é envelhecer e envelhecer significa impotência sexual. Essa crença faz com que se torne genericamente impotente para a vida, doente e deprimido, pois a dificuldade do adulto com os velhos é a que sente com o próprio pai. Logo, acreditar no aprendizado e na mutação da vida os faria velhos mais felizes e saudáveis.

A pedagogia homossexual, o aprendizado da virilidade pelo viés da homossexualidade era o segredo da transformação dos meninos em homens.

A isto, Marciano Vidal acrescenta:

ao comportar-se homossexualmente, a avaliação objetiva distingue, por sua vez, entre comportamentos desintegrantes (aberrações, promiscuidade, prostituição) e comportamentos que propiciam e manifestam a integração homossexual. Não é difícil adivinhar a avaliação dos comportamentos desintegrantes, eles são declarados inautênticos, já que se admite que para esses comportamentos são aplicáveis as mesmas regras que se aplicam às atitudes e comportamentos heterossexuais (2002: 125)

Os autores do estudo La sexualidad humana, realizado a pedido da Catholic Theological Society of America, dirigido por A. Kosnik, propõem uma avaliação ética em relação à homossexualidade, da qual Marciano Vidal conclui que se deve adotar uma atitude de provisoriedade: “Os dados antropológicos não são definitivos; por conseguinte, o juízo ético não pode ser fechado A avaliação da homossexualidade deve ser formulada em clima de busca e de abertura”( 2002:128 ). Ressalta que cabe ao juízo ético ter uma finalidade clara e indeclinável:

(...) liberar a homossexualidade das falsas compreensões e dos injustos códigos sócio-jurídicos em que a mentalidade dominante a mantém aprisionada; a ética tem de ser uma força a mais dentro do conjunto de esforços atual no sentido de conseguir a emancipação humana nesse âmbito da condição homossexual. De uma consideração da homossexualidade como crime pessimum se deve passar a uma visão crítica e justa dessa realidade. A ética tem uma importante incumbência neste porto: introduzir caráter crítico e justiça nas atitudes sociais diante do fenômeno homossexual (2002:128)

[...]

Nenhum juízo ético, por mais particular que seja, deixa de assumir e de apoiar um determinado projeto ético do humano. A avaliação da homossexualidade se integra ao projeto ético sobre a sexualidade humana. Em termos concretos, a formulação do juízo ético sobre a homossexualidade está submetida à idéia que se tenha de sexualidade: função procriativa ou forma de linguagem inter-humana? Realidade

vinculada com o casamento ou possibilidade humana extra-institucional? É inevitável levar em conta esse pano de fundo ético ao propor a avaliação sobre a homossexualidade. (2002:129)

[...]

O juízo ético sobre a homossexualidade tem de realizar-se no interior de uma estrutura ético-forma que respeite as exigências metodológicas inerentes à reflexão ética. Destacamos, de modo especial, o respeito à estrutura dialética do juízo ético, que tem de ser ao mesmo tempo: objetivo, subjetivo e particular em geral. Não se pode cair nem em reducionismos “objetivistas e universalizantes”, nem em reducionismos “subjetivistas e carismáticos”. No fundo dessa dialética opera o jogo do “normal/desviante”, que condiciona toda compreensão antropológica e toda avaliação ética do fenômeno humano da homossexualidade. (2002: 129).

1.3. Orientação sexual

Conforme Cláudio Picazzio, a orientação sexual é aquela o qual nos conduz a quem sentimos desejo nos relacionamentos sexuais e amorosos: “A orientação afetivo-sexual nos dá o caminho para irmos em busca da pessoa com quem iremos viver os nossos desejos sexuais, fantasias, paixões e amores”(1998:18).

Rinna Riensfeld comenta:

...a orientação sexual é um sentimento, não uma ação, pois se fosse assim diríamos que uma pessoa virgem, que nunca teve relações sexuais, não saberia sua preferência sexual, e isso é falso. As pessoas virgens de todas as idades sabem por quem se sentem atraídas, mesmo que não tomem a decisão de pôr em prática seus sentimentos, ou não apareça oportunidade para fazê-lo.” (2002:41)

Pelo mesmo sexo (homossexual), ambos os sexos (bissexual) ou outro sexo (heterossexual). A autora acrescenta:

É muito comum a idéia de que ser homossexual, heterossexual ou bissexual é uma atitude. Isto é um grande erro, pois a orientação sexual tem a ver com todo um sentimento de atração erótica, sexual, romântica e afetiva para com os outros. Por exemplo, uma pessoa pode ter uma relação heterossexual e isso não mudar seus sentimentos homossexuais. Uma pessoa pode escolher unicamente praticar ou não a sua preferência sexual, mas não pode decidir a respeito de seus sentimentos. Os seres humanos costumam saber qual é sua orientação sexual muito antes de pô- la em prática. Por exemplo, uma pessoa virgem sabe por quem se sente atraída e não precisa levar esta atração à prática para comprovar, a menos que deseje. Ser gay não é uma conduta sexual, é uma vivência sexual (2002:33).

A identidade sexual condiz com o modo como se sente diante da imagem biológica adquirida. É formada ao longo da vida e pode ser determinada de várias maneiras: homem, transgênero, travesti e mulher. E, quando a identidade sexual é oposta ao biológico, determina-se como transexual.

O papel sexual é o papel social que inclui as relações sexuais. É como nos comportamos e como somos vistos.

A bissexualidade é o desejo sexual e afetivo por ambos os sexos, ou seja, manifesta-se o desejo pelo homem e mulher.

A transexualidade assume uma ligação entre a identidade do sexo (biológica) e o gênero, homem ou mulher. Pertence a um gênero, mas se sente do outro gênero, sexualmente falando. Por isso, muitos buscam mudar sua aparência física pela cirurgia.

O revelar-se, ou dito em outros termos, o assumir-se, alivia a ansiedade, facilitando sua relação com os heterossexuais e a depressão causada por ter que se esconder e ser cuidadoso quando fala, o que fala e o modo como se comporta.

Mas para isso é necessário adquirir independência e autoconfiança para suportar o que poderá enfrentar: Muitas vezes isso quer dizer contrariar, lidar com a

frustração do possível sonho e expectativa dos pais, em relação à sociedade, e por temer a represália dessa sociedade com o filho. Além disso, há uma mudança no que se refere à espera de uma parceira, pois a escolha foi por um parceiro, e também a não-continuidade de seu gen devido à não-procriação via relação sexual homem- mulher.